quarta-feira, dezembro 12, 2007

Respostas que podem mudar o mundo

A Árvore de Natal da Lagoa, sobre a qual escrevi no ano passado, está de volta, atraindo milhares de pessoas e tumultuando o trânsito do bairro. Este ano ela vem com 85 metros de altura, três a mais do que no passado. Com isso, pretende entrar para o Guinness, o famigerado livro dos recordes.
A resposta que poderia mudar o mundo é: por que os brasileiros têm tanta fixação por entrar para esse livro chulé que não serve para nada? Se tivéssemos a mesma disposição para produzir vencedores de prêmios Nobel, nossa educação estaria muito melhor, nossa pesquisa científica idem e, conseqüentemente o país teria um futuro mais promissor.
É, mas aí daria muito mais trabalho...

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Diálogos roubados VI - Você decide o final

Porta da padaria do bairro onde eu moro, de manhã. Um PM, de pé na calçada, com um pente de balas da pistola automática na mão, conversa baixinho com a apontadora do jogo do bicho que costuma fazer ponto ali, ao lado da banca:

ELA - Não tem como escapar?
ELE - Não tem jeito...

Foi só o que eu consegui ouvir, porque os dois falavam em voz baixa, como se estivessem negociando algo que outros não deveriam saber. Sabendo que a bicheira está todos os dias ali e que eu já vi esse mesmo PM outras vezes na área, sem incomodá-la, alguém se arrisca a imaginar como termina essa história?

Não jogue lixo na rua

Quando meus pais me ensinaram, ainda na infância, que eu não deveria jogar lixo na rua, eles se referiam a papéis de bala, pirulitos, chicletes e outras miudezas do gênero. Pois aqui no Rio de Janeiro, jogar lixo na rua significa um problema bem mais sério.
Lá no bairro onde eu trabalho, algumas esquinas se transformam em mini-lixões, onde se acumulam detritos durante dias até que passe um caminhão da Comlurb, ou que alguém coloque fogo na montanha fedida.
Hoje, quando chegava ao trabalho e passava por uma dessas esquinas, sofri um ataque aéreo de um saco de lixo. Ele caiu bem minha frente. Um passo a mais, e eu teria sido atingido em cheio. Atônitos, alguns dos 17 Ferdizinhos que costumam debater entre si dentro da minha cabeça diziam que era melhor seguir em frente; outros sugeriram que eu batesse na casa, calmamente, para explicar que não deveriam fazer aquilo, que poderia machucar alguém... Tudo isso em meio segundo, que foi o tempo que o Ferdizinho estourado levou para comandar o cérebro a jogar o saco de lixo de volta por cima do muro. Ataque revidado, o Ferdizinho furioso deu-se por contente e eu segui o meu caminho calmamente.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Os feriadões da Justiça

O caso aconteceu no último feriado de novembro, mas só chegou ao conhecimento da Casa da Lagoa esta semana, numa conversa de borda de piscina com a mesma juíza que é coleguinha de natação do diálogos roubados IV. Ela contou que, durante o longo feriadão, a polícia do Rio interceptou um grande carregamento de armas que saía do Morro do Alemão com destino a Niterói.
O flagrante foi enviado ao plantão criminal do TJ, mas o plantonista, desacostumado com assuntos dessa natureza, leu o ofício e achou de encaminhá-lo à uma vara de Niterói. O certo teria sido enviá-la para a vara que abrange a área de Ramos, na qual atua a coleguinha. Resultado: o juiz de Niterói devolveu o processo, mas nesse caminho todo de idas e vindas, passaram três dias.
Como a lei diz que a polícia deve informar ao juiz sobre o flagrante em até 24 horas para manter o criminoso preso, o bandidão que transportava fuzis, pistolas e munição para Niterói durante o feriado foi solto.
A coleguinha jura que, embora lamentável, foi um engano do funcionário. Afinal, ele não era da área, porque os da área estavam no feriadão.
Coincidentemente, um engano providencial para uma das partes.

sábado, novembro 24, 2007

Diálogos roubados V - Valores da Cidade

O ônibus 110 Rodoviária-Leblon, sempre ele, pára num ponto na Lagoa Rodrigo de Freitas, em frente a um prédio de fachada de granito caramelo e vidros verdes. Na última varanda, com vista para o espelho d'água, uma faixa anuncia: "Vendo cobertura duplex - 4 suítes - 4 garagens - piscina - primeiro dono". E informava um número de celular. No banco atrás do meu, o casal conversa:

ELE: Olha aí, anota aí o número.
ELA: Tá fácil, hein? Isso aí deve ser muito caro.
ELE: Com certeza, nesse lugar...
ELA: Quatro suítes, quatro garagens, piscina...
ELE: Deve custar uns R$ 500 mil.
ELA: O preço de uma casa boa.

Para informação dos pombinhos (que desceram num ponto da Estácio), nas áreas mais baratas do bairro, o metro quadrado não sai por menos de R$ 7 mil. Naquele ponto deve estar em torno de R$ 9 mil. Se o imóvel em questão tiver, por exemplo, 400 metros quadrados, já sai de R$ 3,6 milhões. Mas, com aquela vista, deve valer mais.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Confissão

Eu já fiz essa piada aqui neste blog, de que a primeira violência que sofri no Rio foi jantar num rodízio de pizza... Mas, meus amigos paulistas que me perdoem, vou ser obrigado a confesssar: no feriado, pela primeira vez desde que moro aqui, coloquei ketchup na pizza.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Feriado na Serra

A pracinha é pequena. Tem um coreto no meio e está cercada por casas antigas, algumas no estilo alemão que marcou a colonização daquelas serras na região de Nova Friburgo. Lumiar, onde fica a praça, é um distrito dessa cidade marcada pela produção de calçados e de lingerie, no interior do Rio. Tem algumas ruas e uma infinidade de trilhas na mata e de cachoeiras. Os rios que a cortam, o Macaé e o Bonito, são caudalosos e barulhentos.
Tudo é muito diferente do Rio de Janeiro das praias ensolaradas. Os horizontes são estreitos, limitados por montanhas verdes, o ar é fresco, muitas ruas ainda são de terra. De todas as diferenças, porém, o que realmente me chamou a atenção foi a grande quantidade de crianças que brincam na praça, na noite de sábado. Nas grandes cidades nós perdemos essa espontaneidade. Criança na rua virou sinônimo de flagelo. Mas Lumiar ainda vive a inocência dos tempos em que a molecada se reunia para brincar. Eu mesmo passei bons anos nas ruas em São Paulo, sem prejuízo dos estudos ou da boa conduta. Não existia play, não existiam videogames e a gente era feliz assim mesmo.
Hoje, nas grandes cidades, criança de família está devidamente trancada em casa, na frente de uma televisão.
Ainda bem que ainda existe Lumiar.

terça-feira, novembro 13, 2007

Ah se o Aspira visse essa cena

Praça Onze, Cidade Nova, ao lado do internacionalmente famoso Sambódromo do Rio de Janeiro. Saio da estação do metrô ao som insistente de marteladas furiosas. Não chegaria a ser novidade. A viela cheia de cortiços e biroscas é conhecida como rua das oficinas, tamanho é o número de lanternagens e mecânicas ali instaladas. Há quem diga que são fachadas para bocas de fumo, mas o fato é que todas são muito freqüentadas por taxistas. Os mecânicos, em sua maioria negros de bermudas baixas e sandálias havainas, desfilam suas costelas pela via. Camisa é artigo desconhecido para essa turma.
Quando chove muito, transborda ali uma água cinza, leitosa, que dizem ser o esgoto do bairro. Tudo fede, mas as crianças brincam em volta mesmo assim.
Pois nesse cenário que nem Dante seria capaz de imaginar, as marteladas me chamam a atenção. São muitas, devem ser muitos braços a marretar algum carro. Dobro a esquina e lá está a cena: uns oito mecânicos, mais ou menos, desmontando a marretadas uma viatura de polícia. Isso mesmo. Um carro da gloriosa corporação sendo desmanchado, em plena luz do dia.
Prova de que as mazelas da oficina do Aspira, em "Tropa de Elite", não são mero produto da imaginação do roteirista.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Diálogos Roubados IV

Academia, à beira da piscina, uma aluna conversa com a professora:
Aluna: - Vai ter o aulão de hidro no sábado?
Professora: - Não, foi remarcado porque o vestiário está em obras.
Aluna: - Que sacanagem! Eu estava contando com o aulão...
Professora: - Foi remaracado para o dia 10.
Aluna: - Ah, dia 10 eu não posso, vou viajar no feriado.
Professora: - Mas o feriado não é no dia 15?
Aluna: - É, mas nós vamos emendar desde o dia 10.

*****
Final da aula, no mesmo dia, a mesma aluna comenta enquanto se alonga:
Aluna: - Será que eu vou trabalhar hoje, com essa confusão do Rebouças?
Aluna2: - Mas você não trabalha no Centro? Vai de metrô que não tem confusão.
Aluna: - Metrô que nada. Acho que vou aproveitar a desculpa pra não aparecer.

Alguém advinha o que ela faz? Não? Então eu conto: é juíza estadual.

terça-feira, outubro 30, 2007

O desabamento do Rebouças

Ele estava na origem deste blog, citado no post de inauguração como caminho mágico que separa o Rio dos sonhos do Rio da miséria. Mas acho que quando o mencionei, eu não tinha me dado conta da importância real do túnel Rebouças para a ligação da cidade partida. Desde que um vazamento misterioso fechou com terra a boca das duas galerias entre o Cosme Velho e a Lagoa, o trânsito do Rio virou um caos só comparável à rotina do trânsito de São Paulo. (Os amigos paulistas me desculpem, mas como nativo da Terra da Garoa, dou-me o direito de criticá-la no que tem de pior.)
Os 190 mil veículos que diariamente cruzavam pelos 5.600 metros de galerias escavadas na rocha do Maciço da Carioca tentaram achar caminho pelas ruas estreitas e já afogadas de Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, etc. A cidade entupiu e até a aprazível Fonte da Saudade, que passa aqui na porta, enfrentou congestionamentos que duravam até 22h.
Felizmente, as autoridades prometem reabrir totalmente, amanhã, o velho túnel mandado construir por Carlos Lacerda, que este mês, curiosamente, completou 40 anos de existência.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Tropa de Elite


Assistir ao filme título deste post no Rio é diferente de assisti-lo em qualquer outro lugar da cidade. Aqui, a platéia se reconhece em cada esquina de Copacabana, em cada desleixo das personagens policiais, em cada viatura esculachada que aparece na oficina do Aspira. Tropa de Elite, antes de ser um filme brasileiro, é um filme carioca.
Aconteceram por aqui casos em que a platéia aplaudia cenas de tortura e de assassinato de bandidos. E aplaudia ferozmente a cena em que o estudante playboy, traficante da faculdade, apanha de um dos policiais. Na sala em que eu assisti, a platéia era silenciosa.
Já ouvi todo tipo de comentário e o mais comum é de que o filme é facista, defensor da violência policial. Acho que quem chegou a essa conclusão caiu na armadilha mais óbvia do filme: ele é narrado por um policial que, portanto, não tem uma visão tão crítica da instituição. O cara faz parte dela.
O que as pessoas não percebem é que, embora diga o tempo todo que o Bope é a melhor polícia do mundo, com critérios de seleção mais rigorosos que o do Exército de Israel, um batalhão onde não existe corrupção, o capitão Nascimento quer deixar a tropa. E o filme mostra, nas cenas cruas de assassinato e tortura de inocentes, porque ele quer sair da corporação. Nascimento vai ter um filho e quer voltar a ser humano.
A impressão que dá é que, embora adotem o discurso de que as atitudes do Bope são um absurdo, as pessoas não conseguem enxergar a crítica velada que o filme faz a elas porque, inconscientemente, concordam com esse modo de operação. São vítimas de uma herança do modelo punitivo de estado colonial, onde os ricos podiam tudo e aos pobres restavam os chicotes da senzala.
A mensagem principal que o filme deixou para mim foi de que nunca vamos resolver a questão da violência, no Rio ou no Brasil, se continuarmos apelando para mais violência. Esse caminho, adotado pelos homens de preto, expulsa da instituição todos que ainda têm algum sentimento humano dentro de si, mesmo que pequeno. Só restam os brutos e os selvagens dentro das fardas. E esses não servem para resolver nada.
*****
O mais triste de tudo foi constatar que, nos Estados Unidos, os roteiristas quebram a cabeça inventando perseguições mirabolantes, terroristas caricatos e toda sorte de maluquices para criar cenas de ação. Aqui, a gente só usa a realidade.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Sinuca na Lapa

A tevê a gritar geniais idéias das cabeças brilhantes do futebol; na mesa ao lado, o casal a namorar sem notá-la, sozinha, olho pregado no celular, observada de longe pelo garçom, sem graça com aquela solidão explícita, a aproximar-se de quando em quando para perguntar deseja algo? Não obrigado, espero uma pessoa. Que nunca chega para cessar esse constrangimento que observo do mezanino, pendurado no taco de sinuca, a desenvolver a seguinte filosofia de mesa de bilhar: Nunca estivemos tão sós no meio de tanta gente. Será que foi geração espontânea? Ou terei lido isso em algum lugar? Dou de ombros. Chegou minha vez de jogar e desvio minha atenção para as bolas coloridas da mesa.

quinta-feira, outubro 04, 2007

No caminho tinha uma praça

Saí de uma reunião de trabalho às 16:30 e tinha um compromisso às 18:00. Inevitavelmente comecei a calcular o que faria nesse intervalo. Lembrei dos emails que tinha que mandar, das coisas que precisava comprar, dos telefonemas que tinha que fazer, do relatório que estava atrasado... Ao final decidi ir a um cibercafe cuidar dos emails.

Mas no caminho tinha uma praça.

Um praça tijucana totalmente desconhecida para mim. Cheia de crianças brincando, árvores altas, velhinhos jogando dama e bancos, muitos bancos. Pára tudo, pensei. Ou, como disse uma vez meu poetinha, pára o mundo que eu quero descer. Deixei os emails pra depois e me sentei em frente ao balanço.

Meia hora no banco da praça foi o presente do meu eu zen pro meu eu sem-(tempo) (sempre sem-tempo!). Tirei os sapatos, deitei. Fiquei ouvindo o barulho esquisito das pombas, vendo as miúdas flores amarelas anunciarem a primavera, a vendedora de algodão doce, o sorveteiro curioso passando para ver o que eu rabiscava, as crianças de volta da escola, as meninas jogando vôlei numa roda sem jeito, as crianças no balanço... Ai, como eu gostava de um balanço... E que nostalgia me deu o grunhido da corrente enferrujada a cada balançar.

E se eu tivesse ido ao cibercafe? O tempo passaria voando e eu provavelmente sairia com a sensação de que não foi o suficiente para todos os meus emails. Lá se ia o dia sem ter sido vivido! Acho que os 30 minutos que passei na praça foram os mais bem aproveitados do meu dia. Deixei de ser refém do tempo para escolher o que fazer com ele. E me senti mais viva do que nunca!

Estou lançando a campanha: Dê 30 minutinhos de praça ao seu dia!

sábado, setembro 29, 2007

Segredos Cariocas - Praça São Salvador

A diva grega de cabeça laureada e formas roliças segura o jarro virado de onde não pinga uma gota. Mesmo assim, a diva olha para baixo, como se contasse as latinhas, copos plásticos, pratinhos de papelão jogados na fonte seca que adorna. Por sorte, seu olhar pende para a direita. Se olhasse para a esquerda, veria o menininho de seus três anos, gorro da Nike enterrado na cabeça, mini-calça de rapper pelo joelho, a aguar-lhe o cimento do pedestal enquanto alivia a bexiga. Azar danado o da diva. Tivesse antes sido imortalizada olhando para cima, estaria agora a contemplar a lua cheia em lugar dos restos da civilização fast-tudo na fonte seca.
Pelo menos de uma coisa não pode ela se queixar. A praça São Salvador, onde foi dignamente instalada, nas Laranjeiras, tem um charme especial. Todo último sábado do mês, um grupo de músicos se reúne sob a lua para tocar velhos sambas. É a turma do Bagunça Meu Coreto, um bloco que se apresenta de graça para os cerca de 100 (talvez 200 , mas não muito mais) cariocas que conhecem o segredo. E também para a diva grega de formas roliças...

sábado, setembro 22, 2007

Longe de você...

...são dois os caminhos do tempo. As horas ocupadas são imensas planícies, esteiras rolantes de aeroporto que me carregam em velocidade acelerada sem tempo para pensar sentir respirar... apenas o "mind the step" soando no oco do cérebro...

Entre cada esteira, porém...

...tropeço nos minutos espalhados pelo chão, que se aglomeram em montanhas de horas livres e me exigem esforço, subindo aos poucos, escorregando, suando para chegar até a próxima esteira rolante.

Aos poucos

Que têm estranhado a falta de movimento nesta casa, vai uma explicação. A culpa é do Velox, meu provedor de internet, desaparecido desde o dia 27 de agosto. Saiu, assim como quem vai comprar um cigarro, e nunca mais voltou. Já acionei a Anatel que iniciou uma busca, mas até agora nada. O próximo passo é colocar uma fotinho no recibo do pedágio.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Eu tenho valor! E você, Senador???

Liberdade, igualdade, solidariedade, respeito, cidadania, altruísmo, honestidade, tolerância, justiça... Lembramos aos senadores e a todos aqueles que, graças aos nossos votos, ganharam uma cadeira nas assembléias e executivas desse país, que nós ainda temos e valorizamos tudo isso. E exigimos que, como nossos representantes, eles zelem por esses valores em cada um de seus atos políticos.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Quais são os seus valores?


Poderia escrever linhas e mais linhas tentando extravasar a decepção que estou sentindo com relação ao senado do nosso país. Mas de repente caiu a ficha de que nossas linhas há muito já não são lidas por aqueles que teoricamente estão nos representando lá em Brasília.


Poderia buscar na justiça meios para deslegitimar a votação de hoje, articulada de forma covarde nos bastidores. Mas de repente caiu a ficha de que há muito que o poder fez "uns mais iguais que os outros", e colocou-os confortavelmente dentro de uma caixa blindada onde as leis dos comuns não conseguem entrar.


Poderia esperar as próximas eleições e votar nulo para o senado, em protesto a cada um dos 40 senadores que votaram a favor da corrupção, do descaso, da falta de ética e de tudo o mais que Renan Calheiros representa. Mas de repente caiu a ficha de que até lá a memória de muitos brasileiros já vai estar apagada, e a força do marketing, a força do dinheiro e a força do hábito (!) vão nos fazer ir às urnas, como bobos da corte, abençoar os mesmos nomes e os mesmos vícios.


Então como protestar num país em que as palavras não valem, as leis não valem, os votos não valem?


Aqui vai minha sugestão para um protesto internético, acreditando na força das imagens, das redes e sobretudo dos valores humanos que existem (mesmo que às vezes adormecidos) dentro de cada um de nós:


1. Pergunte-se, pergunte-se, pergunte-se: Quais são os seus valores??????????????


2. Saia de preto amanhã, em luto por todos os valores que estão morrendo em nosso país. E escreva uma frase de protesto num lugar onde possa ser visto pelo maior número de pessoas. Na roupa, no carro, na janela de casa, na tela do seu computador, na mesa de trabalho, no Cristo Redentor! Se alguém quiser uma sugestão, a minha será: "Eu tenho valor! E você, senador?"


3. Fotografe o seu protesto e coloque as imagens na internet, usando youtube, email, blogs e todos os outros meios que possam levar nossa mensagem pelo mundo.


4. Repasse as mensagens que receber de outros. Faça circular!


Em algum momento alguma das nossas mensagens vai chegar na tela de alguém que está precisando refletir sobre isso! Se ela mudar de atitude, já será uma grande vitória.

Sobre dias que fazem história

Um dia histórico é aquele fica marcado na memória das pessoas a ponto de, anos depois, elas ainda se recordarem do que estavam fazendo quando aquele fato ocorreu. Eu me lembro de assistir, quando criança, às minhas tias em volta daquela mesa da casa da minha avó recordando o que estavam fazendo quando Getúlio Vargas deu um tiro no peito, ou como haviam recebido a notícia do assassinato de John Kennedy nos Estados Unidos. Era um espanto para mim: como elas eram capazes de recordar em detalhes o que faziam num tempo em que eu nem havia nascido?
Só fui entender isso quando os fanáticos da Al Qaeda colocaram Lee Oswald na pré-história dos atentados, com o ataque ao WTC. Eu dirigia Rua Luminárias acima, na Vila Madalena, em São Paulo, quando meu celular tocou e uma amiga deu a notícia de que um avião havia batido numa das torres. Tive uma reação semelhante à do Bush diante da cartilha da primeira série (quem assistiu Farenheit 911 deve se lembrar). Meio atônito, fiquei imaginando se teria sido um acidente? Diante da notícia do segundo choque, que recebi já na redação, as dúvidas se acabaram... Esses episódios mostram que, quanto mais inesperado o fato, maior a chance de se transformar em algo realmente histórico, que marque aquele dia na memória de todo mundo.
Todas essas digressões são só para dizer que a absolvição de Renan Calheiros pelos colegas, ontem, não será um desses dias históricos. Ou alguém realmente esperava que ele fosse caçado? Para quem não tem boa memória (ou idade para se lembrar), Renan foi da tropa de choque de Fernando Collor no Congresso, quando era o próprio Boi Gordo (devido ao peso excessivo) e ficou no barco do ex-presidente, junto com Roberto Jefferson, até a retirada pela porta dos fundos. Como sei que daqui a um mês não me lembrarei do que estava fazendo enquanto o Senado assava a pizza, decidi deixar devidamente registrado neste blog: recebi a notícia da absolvição do nobre senador quando pagava, pela internet, os impostos federais da minha humilde empresa.
Como diriam lá no lugar onde eu trabalho, em coro de arquibancada: "Chupa Ferdi!!!!"

Férias

Ela disse, num comentário ao post anterior: "Tem gente que acha que tirar férias é desculpa pra abandonar o diário virtual. Às favas! Vai numa lan house, se vira! Saudade! :*
O problema, hoje em dia, deixou de ser uma lan house por perto. Até meus pais têm roteador wireless com internet de alta velocidade em sua pacata casinha na praia deserta do litoral sul de São Paulo. E quando se juntam todos os filhos, como aconteceu no último feriado, fica cada num canto, mudo diante de uma telinha particular de 14 polegadas.
Briga pelo computador? Não na era dos notebooks. O máximo que poderia acontecer era uma disputa pelos adaptadores para plugs de três pinos. Como a casa tem 22 anos, as tomadas não estão prontas para os computadores. Problema, porém, com os dias contados. Já entrou na pauta da próxima reforma.
Não faz muitos anos eu estava na faculdade de jornalismo às voltas com as teorias do McLuhan sobre a Aldeia Global e suas implicações inversas. Ao mesmo tempo em que permitia ao mundo todo se comunicar quase instantaneamente , a tevê minava a comunicação direta. Diante do tubo catódico, providencialmente instalado em lugar privilegiado da casa, a família deixava de se relacionar. Sem contato, sem conversas, sem convivência, seus membros perdiam os vínculos entre si.
O que pensar, então, desta nova era? Onde cada um tem seu monitor próprio e ainda por cima pode escolher e interagir com a programação que lhe é apresentada? Até aquela negociação sobre qual programa será exibido, muitas vezes o principal momento de contato entre os telespectadores da mesma família, se tornou desnecessária.
Será que posso me considerar em férias quando carrego meu computador com tudo o que precisaria no trabalho para a praia deserta? Será que estou em férias se continuo acessando meu webmail graças à facilidade da internet rápida?
Resolvi, então, entrar em férias de verdade. Com saudades da cozinha da minha avó, que tinha uma mesa enorme em torno da qual sentavam-se minhas tias para bordar, cozinhar ou simplesmente conversar sobre a vida, decidi manter o notebook desligado.
Mas, como vocês podem ver, minha força de caráter só durou três dias.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Quando a gente menos espera...

Dá de cara com a violência dos noticiários. O meu encontro foi só um susto, uma fração de segundos. Saía de táxi do local onde trabalho com destino à rodoviária. Passavam dez minutos das onze da noite. O táxi dobrou a esquina, eu notei um carro de polícia parado, todo apagado, um policial militar de cada lado da rua, fuzis nas mãos.
Vi quando o PM à minha direita abanou o braço direito dando sinal para o táxi parar, notei o motorista começando a acelerar, sem perceber o sinal. O PM se assustou e já começou a apontar o fuzil. Eu gritei:
- Pára aí, irmão, ele tá mandando parar.
O motorista, que estava desatento, meteu o pé no freio e acendeu a luz interna do carro, bem a tempo de parar a minha cabeça na mira do cano do PM.
- Que é isso irmão? Tá maluco? - mandou o meganha.
- É do diário LANCE!, foi mal. Não tinha visto você aí.
- Precisa colaborar com o trabalho da gente, irmão. Quer tomar um tiro?
E nos liberou. Fiquei imaginando o que teria acontecido se eu estivesse cochilando no banco direito, como quase sempre acontece quando volto do fechamento.

Diálogos Furtados

A menina conversa com a mãe e a irmã menor no dia do aniversário:
Menina (oito anos, voz triste): - Mamãe, fiquei com pena que o vovô não está mais aqui para me dar parabéns.
Irmãzinha (cinco anos, tentando animar a irmã): - Ah, não tem problema, Bia. Ele está de dando os parabéns lá do céu.
Menina: - Mas eu fiquei com saudades dele.
Irmãzinha: - Quando você morrer, você vai encontrar ele lá no céu.
Menina: - Credo, que coisa de horrível!
Irmãzinha: - É verdade, né mamãe? Todo mundo vai morrer. E aí a gente vai se encontrar e vai ser uma grande festa lá no céu.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Divagações

O Globo acaba de publicar uma excelente série de reportagens sobre os brasileiros que continuam vivendo na ditadura. Foi uma semana com histórias horríveis de cidadãos que têm seus direitos civis tolhidos pela atuaçã truculenta de traficantes, parapoliciais e até mesmo da polícia (que, em tese, deveria lhes garantir o direito à cidadania).
De tudo o que foi publicado, a história que mais me marcou foi a de um adolescente que trabalhou para o tráfico, perdeu um fuzil na mão da polícia e teve de fugir do morro para não morrer. Foi parar num abrigo para testemunhas. Lá ele disse à repórter que tem a mãe dele como modelo de vida, depois de sair do tráfico. E contou que nos tempos do movimento, chegou um dia em casa em casa cheio de dinheiro no bolso, viu que as irmãs só tinham arroz para comer, pegou o dinheiro que ganhara dos bandidos e deu para a mãe comprar comida. A mulher rasgou o dinheiro na cara dele.
- Na época eu não entendia porque ela fazia aquilo, mas hoje vejo que ela estava certa.
O primeiro pensamento que me veio à cabeça, sem muita reflexão, ao ler essa história foi: "Porque essa mulher mora numa favela violenta e o Renan Calheiros é presidente do Senado?" Em seguida, refleti um pouco mais e a pergunta que gostaria de dividir com vocês é: vocês conhecem muitos diretores e executivos de empresas que seriam capazes de fazer algo semelhante? Recusar uma verba por não ser de fonte muito confiável?
Talvez a resposta para a segunda pergunta ajude a entender porque existem tantos Renans e mensaleiros. Mas esses executivos e diretores da iniciativa privada são os que pagam os anúncios que sustentam as grandes empresas de mídia. E, talvez por isso, a nossa imprensa livre prefira concentrar seu foco nos corrompidos e não nos corruptores.
Eu disse talvez, apenas. Se vocês tiverem argumentos contrários, por favor, postem em seus comentários. Este é um daqueles casos em que é preferível estar errado, porque estar certo significa perder a esperança.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Rio Como Vamos

O empresário Oded Grajew começou seu discurso perguntando:
- Alguém sabe quais são as metas de educação da atual prefeitura do Rio para o fim do mandato? E para a saúde?
Silêncio no auditório da Federação do Comércio do Rio. Ele continuou:
- E as metas do governo estadual ou do federal? Vocês fazem parte de um público formador de opinião e não sabem. Simplesmente porque não existem metas. A gente não tem critérios técnicos para avaliar o desempenho dos nossos administradores públicos.
Com seu jeito calmo e cabeleira branca, Oded então explicou o principal objetivo daquelo grupo: inspirado no programa Bogotá Como Vamos, que em dez promoveu uma revolução social na capital colombiana, o Rio Como Vamos pretende criar critérios técnicos de análise e avaliação das gestões públicas. Oded estava ali como um pioneiro, já que participa do grupo que lançou movimento idêntico em São Paulo, chamado Nossa São Paulo, Outra Cidade.
Se tudo correr como na Colômbia, os parâmetros criados pelo grupo gerarão metas que os prefeitos terão de se desdobrar para cumprir. Sob pena de serem penalizados nas urnas. Em Bogotá, três administrações sucessivas de prefeitos de partidos diferentes deram continuidade aos projetos das gestões anteriores porque esse era o desejo expresso pela população.
- Esse programa estimula a democracia participativa. E é isso o que precisamos para mudar o jeito de governar no Brasil. Alguém aqui sabe qual é o orçamento da prefeitura do Rio para 2007? Pois é, enquanto nós continuarmos não nos preocupando com o orçamento, ele vai continuar ficando nas mãos de quem se preocupa com ele.
O Rio Como Vamos, assim como o seu inspirador colombiando e o primo paulistano, é um grupo apartidário, formado apenas pela sociedade. E a intenção é mudar a realidade que o Nossa São Paulo encontrou na pesquisa realizada pelo Ibope junto à população. A revelação foi feita por Oded:
- Sabem qual o maior sonho dos paulistanos, identificado na pesquisa? Que as coisas não piorem.

domingo, agosto 26, 2007

Diálogos imagiários

Casal no metrô, numa quarta-feira qualquer.
ELA: - Você não tem mais ciúmes de mim.
ELE (lendo o jornal): - O quê?
ELA: - Estou dizendo que você não tem mais ciúmes de mim.
ELE: - Ciúmes pra quê?
ELA: - Pra quê? Você não valoriza a mulher que tem?
ELE: - Claro que valorizo. Mas você não me dá motivo.
ELA: - Não precisa ter motivo. Quem gosta, cuida, tem ciúmes...
ELE: - Eu confio em você.
ELA: - Óbvio que confia, mas mesmo assim devia ter ciúmes...
ELE: - Eu confio no meu taco.
ELA (bufando): - Vocês homens, não entendem nada mesmo.


******

Outro dia, outro casal. Na mesa de um café.
ELE: - Esse cara tá te dando mole.
ELA: - Pára com isso. Eu não aguento esse seu ciúmes.
ELE: - Não é ciúmes, é real. Esse cara tá te dando mole.
ELA: - Você sabia que isso é insegurança sua? Você devia confiar mais em mim.
ELE: - Em você e confio. Não confio é nesse cara.
ELA: - E em você? Você não confia no seu taco?
ELE: - Claro que confio. Isso não tem nada a ver comigo. Tem a ver com esse babaca que tá te cantando na maior cara-de-pau.
ELA: - Olha, só vou avisar uma coisa. Ciúmes é uma coisa muita chata, que cansa, e quando isso acontece, já era, viu. Não tem mulher que aguente.

domingo, agosto 19, 2007

Miniconto: Sofisma

A verdade inegável é que: toda frase que pretende conter uma verdade absoluta é necessariamente falsa. Inclusive esta.

quarta-feira, agosto 15, 2007

O amor em três atos (e um entreato)

Primeiro ato
No início era a palavra. Escrita. Em frases curtas. Bem construídas. Concisas. Como mandam os manuais. Nos caminhos bem pavimentados por vírgulas, pontos e pausas, nos conhecemos. Ela escrevia; eu reescrevia. Nasceu a admiração.

Segundo ato
Depois veio a voz. Jovem, segura. Transportada por ondas eletromagnéticas que corriam em fios de uma rede enigmática. Eu perguntava; ela respondia. E novos textos nasciam. Mais mistério, mais admiração.

Entreatos
Longos cabelos ondulados flutuando numa sala envidraçada que não era minha. Eu estava de passagem, só a vi de relance, de costas ainda por cima. Mas já sabia sem saber. Só podia ser.

Terceiro [e último (ou seria primeiro?)] ato
Fulminante como... não achei palavra até hoje. O que seria? Meu espaço vital invadido por um olhar. Inocente. Sem intenção. Fazendo contato com a minha essência. Disparando adrenalina. Deixando marcas. Prazer. Todo meu. Não havia o que fazer. Nem pra onde correr.

Só depois de muito, muito tepo, viria o primeiro beijo.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Segredos Cariocas: Doces Portugueses

Quem vê a fachada de azulejos não imagina as delícias por trás da porta de vidro canelado. Lá dentro Don Rodrigos dividem uma minúscula estufa com Toucinhos do Céu, Fatias de Braga, Bem Casados, Camafeus e Trouxas d'Ovos. Todos em bandeijas recém-saídas dos fornos na cozinha ensolarada que a porta atrás do balcão esconde. A responsável por esta maravilha feita com açúcar orgânico é dona Alda Maria Talavera Campos, uma doceira de mão cheia que há 12 anos deixou Pelotas, no Rio Grande do Sul, para difundir as receitas de família de doces portuguesas no casarão de Santa Tereza. Ela mesma nunca esteve em Portugal. Mas nem precisava. Seus doces deixam qualquer Confeitaria Colombo na saudade. Bom, como já contei o milagre, aí vai o santo: o endereço da dona Alda é Rua Almirante Alexandrino 1.116. E ela tem site também: http://www.aldadocesportugueses.com.br/.

domingo, agosto 12, 2007

Divagações literárias

Desde criança, ler e escrever eram minhas diversões preferidas. Aos 12 anos eu já juntava o dinheirinho da mesada para comprar livros nas prateleiras da rede francesa de supermercados. E nas aulas de redação da escola, era sempre o primeiro a me oferecer para ler as composições na frente da sala. Nada mais natural, portanto, que superada aquela fase da infância em que a gente quer ser herói quando crescer (bombeiro, policial, médico ou qualquer coisa que salve a vida alheia), eu tenha começado a acalentar o sonho de ser escritor.
Todo mundo achava que eu estava ficando maluco, ia morrer de fome no Brasil onde, pelo visto, só eu gostava de ler. E o pragmatismo me arrastou para o jornalismo, essa sim uma profissão, com diploma universitário, carteira assinada e tudo. Encarei como meu destino e passei os últimos 17 anos nadando no que a língua portuguesa tem de mais medíocre. Quanto mais os anos passavam e mais postos de chefia eu galgava, menos eu escrevia e menos eu lia. Minhas duas diversões preferidas haviam se transformado em obrigações.
Um pouco por isso nasceu este blog. Como uma última trincheira do prazer de escrever ou, quem sabe, um tímido suspiro na direção daquele sonho de virar escitor...
Toda essa divagação só para falar do texto revelador da minha amiga Anna V., em seu blog Terapia Zero, que eu acho que todos vocês, amigos da Casa da Lagoa com pretensões literárias, deveriam ler. Não se trata de desanimar ninguém, mas de estimular o debate criativo para romper com os paradigmas. Leiam lá. Vocês não se arrependerão.

O algodão doce da Ritinha

Eu sei que a Rita Apoena não chega a ser novidade, é já um clássico dos blogs. Mas não resisti à tentação de indicar, aos amigos que visitam esta Casa da Lagoa, o post sobre o algodão doce. Leiam. Aliás, leiam o blog inteiro... É um sonho.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Máscaras de oxigênio cairão sobre suas cabeças

Talvez porque tenha começado a voar muito cedo, com meu pai, jamais tive medo de avião. Monomotor em garimpo, bimotor em tempestade amazônica, turbo-hélice no interior do Paraná, Boeing, MD-11, A320... Só não voei de asa-delta até hoje, porque não tem motor. E sempre desdenhei a quem confessava insegurança, exibindos aqueles argumentos de prateleira: "atravessar a rua é mais perigoso, você tem mais chances de morrer de câncer de pele, etc.".
Na última terça, passei pelos escombros do prédio implodido quando chegava a Congonhas para tomar mais uma ponte-aérea. Fiquei lembrando daquela montanha de entulho no saguão vazio do aeroporto, onde fiz meu check-in sem fila pela primeira vez em anos. Embarquei no horário, sem atrasos, e já dentro do avião, tive vontade de perguntar à gentil comissária que exibia seus gestos ensaiados antes da decolagem:
- Pra que esse circo todo, com máscaras fictícias, portas de emergência sobre as asas e cinto de segurança? Nada disso vai funcionar se esta geringonça cair...
De repente, dei-me conta da fragilidade da situação. E pela primeira vez senti medo dentro de um avião.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Miniconto: Confissões

Sentado de frente pra ela, ele admitiu:
- Tá bom, já fiz muita coisa errada nessa vida. Mas se tem uma em que acertei em cheio, foi ter conhecido você.

terça-feira, julho 31, 2007

Monalisa sem sorriso

Ela está longe do ideal de beleza que eternizou a musa do gênio renascentista. Usa camiseta preta, cabelo sarará espichado para trás; não olha para o retratista, mas para o filho que carrega no colo. No fundo da foto colorida publicada pelo "O Globo", uma parede descascada ocupa o lugar da paisagem imaginária de Da Vinci. Monalisa Soares Nogueira tem 19 anos e nenhum motivo para sorrir. Moradora da Cidade de Deus, ela já teve de internar cinco vezes o filho.
Jonathan, de 1 ano e dois meses, é a personificação de uma estatística aterradora: 10,1% das crianças de Cidade de Deus estão desnutridas. Isso em plena Zona Oeste do Rio. É um número percentualmente maior do que o da desnutrição no Polígono da Seca, onde a Unicef encontrou, em 2005, 6,6% de desnutridos.
Enquanto os governos federal, estadual e municipal corriam para gastar 4 bilhões de reais nas obras do Pan-Maravilha, o filho de Monalisa corria risco de vida por falta de comida. Ainda corre, na verdade. Ele não está totalmente recuperado.
O levantamento da fome na Cidade de Deus foi feito pelo Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania, uma ONG da própria comunidade, e pela ONG internacional ActionAid. Eles passaram seis meses entrevistando 2.420 crianças da comunidade. Usaram os parâmetros da Organização Mundial da Saúde para concluir que 31,6% das crianças daquela favela têm algum tipo de comprometimento alimentar.
Tudo isso a apenas dois quilômetros da Vila Pan-Americana.

domingo, julho 29, 2007

O Pan mal acabou...

... e a viatura de polícia com faixa cor-de-laranja, novinha em folha, placas de Brasília, já sumiu da esquina aqui de casa.

sábado, julho 28, 2007

Espírito de porco

Um amigo adepto da teoria do cipó (tudo que vai, volta) defende, desde o início do Pan, que os americanos vão dar o troco no Brasil por Indianápolis-87. Explico. Naqueles Jogos, o time de Oscar, Marcel e Pipoca venceu a imbatível seleção americana de Basquete na final, na casa deles. A volta do cipó se daria com os americanos vencendo na final o imbatível time brasileiro de vôlei masculino. Ele dizia isso antes de EUA e Brasil chegarem à final. Por via das dúvidas, vou conferir pessoalmente se a teoria do cipó existe mesmo, ao vivo, lá no Maracanãzinho.

O circo do caos aéreo

O picadeiro do caos aéreo virou um circo de bizarrices depois da tragédia que matou 200 pessoas em São Paulo. Cada um apresenta uma idiotice pior que a outra como solução para a ameaça de Congonhas. Se o governo pode apresentar como panacéia a construção de um novo aeroporto na cidade (será que eles estão pensando em usar a Avenida Paulista?), então eu, um paulistano morador do Rio - e usuário freqüente da ponte aérea - também posso apresentar as minhas bobagens. A seguir, as colaborações desta Casa da Lagoa:

1. Mudança de Aeronaves - Vamos deixar claro: a pista de Congonhas não é perigosa. O aeroporto existe desde 1936 e só registrou dois acidentes graves até hoje. E o primeiro, como ficou provado, por falha da aeronave. O que torna Congonhas uma ameaça é a inépcia de um governo que se preocupa demais com os interesses das "companheiras aéreas" e libera uma pista para pousos e decolagens com a reforma incompleta. (Seria o equivalente a uma montadora colocar na rua um carro sem o freio instalado.) A discussão sobre o tamanho da pista (que já fez até o prefeito sair dizendo que vai desapropriar o Jabaquara) é uma idiotice. Nos Estados Unidos existem milhares de aeroportos regionais com pistas iguais ou menores. Como lá existe lei, as voadoras são obrigadas a operar com aeronaves médias, o que faz a alegria da Embraer e da Bombardier. A primeira proposta, então é simples: se a pista é curta para boeings e airbuses, basta o governo obrigar as "companheiras aéreas" a substituí-los por jatos comerciais médios.

2. Trem Bala - Eu admito, essa é uma solução em causa própria. Mas uma linha de trem rápido ligando o Rio a São Paulo ajudaria a desafogar o tráfego áereo em Congonhas. O governador do Rio já conseguiu três consórcios, dois europeus e um japonês, interessados em gastar US$ 9 bilhões para construir o ramal e colocar os trens em operação. Estima-se que a viagem entre a Central do Brasil e a Estação da Luz levaria 1h15 e a passagem custaria cerca de R$ 110,00. Quanto o governo federal precisa gastar? Nada, basta autorizar os consórcios a usarem os ramais abandonadas da Rede Ferroviária Federal para construir a linha. Por que não sai, então? Porque se o governo não coloca dinheiro nenhum, os políticos não têm como fazer suas caixinhas. Sob esse ponto de vista, é mais interessante gastar R$ 3 bilhões dos nossos impostos num novo aeroporto em São Paulo.

Nenhuma das idéias desta Casa da Lagoa jamais seria cogitada por uma razão clara: ambas contrariam os interesses das "companheiras aéreas", que distribuem cheques gordos para mais gente do que os grampos da PF são capazes de imaginar. Para encerrar, uma pergunta: será que o presidente voa no seu Airbus 319 com o reversor pinado?

quinta-feira, julho 26, 2007

A chama apagou

A ilha da fantasia a que se referia o primeiro post deste blog virou ainda mais fantástica desde que chegou ao Maracanã a tocha com a chama pan-americana. De repente, os cariocas redescobriram que o Rio também é legal à noite. Voltaram a caminhar pelos calçadões depois do pôr-do-sol, a correr na ciclovia da lagoa, a sair de seus bunkers fortificados onde se protegem da violência (real ou imaginária) quando não existem Jogos internacionais na cidade. Nem Força Nacional de Segurança armada em cada esquina.
Os crimes sumiram dos noticiários; os repórteres de polícia do maior jornal da cidade puderam guardar seus coletes à prova de bala nos armários por duas semanas; e o carro blindado da reportagem ficou na garagem da redação. Até parecia uma cidade normal de novo.
Mas aí, como nada é perfeito, o tempo virou. E a chuva chegou apagando a chama no Maracanã. Foram só 15 minutos sem pira acesa, na manhã de terça-feira, mas foi suficiente. No final do dia, o som dos tiroteios voltou a encher o ar da Cidade Nova. Só para lembrar que está próximo o fim do Pan de R$ 4 bilhões do Rio e, como sempre acontece, tudo vai voltar ao normal.

segunda-feira, julho 16, 2007

Achincalhe oficial

Sabe aquela velha imagem que se faz dos taxistas, de que estão sempre prontos a ludibriar turistas desavisados nas grandes cidades do mundo? Aquela que piora quando a cidade em questão é o Rio, onde a categoria tem fama de enganar ainda mais os turistas desavisados? Pois é, a prefeitura da Cidade Maravilhosa, numa tentativa de acabar com as maledicências sobre os motoristas de praça, decidiu oficializar o achincalhe. Graças a um decreto do alcaíde, durante os Jogos Pan-Americanos os táxis estão autorizados a cobrar bandeira 2 a qualquer hora do dia, qualquer dia da semana. Afinal, a cidade está cheia de turistas e, como eles podem nunca voltar, o melhor é tirar o máximo deles agora. E, convenhamos, turista existe para ser tungado mesmo. Mas não se desespere. Pela tarifa em bandeira 2, o turista e todos os moradores da cidade que precisam do serviço serão transportados em desconfortáveis Santanas velhos e fedidos, com bancos puídos. Só no Rio de Janeiro mesmo...

domingo, julho 15, 2007

Juras de amor

Na hora das declarações de amor não tinha padre, nem alegria nem tristeza, nem saúde nem doença. Tirando um papelzinho amassado do bolso, ela leu:
- Se eu tivesse que prometer algo a você, o que seria? Não posso prometer que você estará sempre confortável... Porque o conforto trás tédio e desconforto. Não posso prometer que todos os seus desejos serão realizados... Porque desejos, sejam eles realizados ou não, trazem a frustração. Não posso prometer que sempre haverá bons momentos... Porque são os maus momentos que nos fazem apreciar a alegria. Não posso prometer que você será rico, famoso ou poderoso... Porque todos eles podem ser o caminho para a miséria. Não posso prometer que sempre estaremos juntos... Porque é a separação que torna a união tão maravilhosa. Entretanto, se você estiver disposto a caminhar comigo, se você estiver disposto a valorizar o amor acima de tudo, eu prometo que essa será a vida mais rica e plena possível. Eu prometo que sua vida será uma eterna celebração, se você estiver disposto a caminhar em direção aos meus braços, se você estiver disposto a morar dentro do meu coração, você encontrará aquele por quem esteve esperando para sempre...Você encontrará a si mesmo em meus braços... Eu prometo.
Ele, sem papelzinho na mão, respondeu mais ou menos assim:
- Minha vida é escrever, por isso não escrevi nada para te dizer. Queria espaço para a espontaneidade. Porque eu sabia que assim te visse entrando por aquele tapete, sentiria a mesma emoção que sempre senti a cada vez que nos reencontramos. (E olha que não foram poucas!). A emoção que me fez saber, desde a primeira vez em que te vi, que era ao seu lado o lugar em que eu queria estar; o lugar em que eu seria mais feliz.
E assim juraram seu amor um para outro, sem lugar para que a morte os separe.

domingo, julho 08, 2007

Cristo Maravilha


Há alguns meses, quando começou a campanha Vote Cristo, eu torci o nariz. Achei ufanista e exagerado comparar a estátua com lugares como a muralha da China ou as cidades de Petra e Machu Pichu.

Nas últimas semanas, porém, meu coração foi amolecendo. O tempo todo, de lugares e momentos diferentes da minha rotina, ele estava lá, braços abertos, me acolhendo. Uma onipresença quase divina.

Foi aí que, de coração aberto, consegui enxergar a maravilha do Cristo: mais que uma obra gigante (o que sem dúvida ele é), o Cristo é grandioso em sua proeza. Que outro monumento religioso participa de maneira tão presente no dia-a-dia de tanta gente? Ele entra na casa das pessoas, no almoço de pé no balcão da casa de sucos, na janelinha gelada do avião (e no janelão suado do ônibus), no jogo de futebol e até no desfile carnaval. Sério: você consegue vê-lo ao cruzar o sambódromo, sem falar nos blocos de bairro que surgiram bem debaixo dos seus braços (o mais famoso é o Sovaco de Cristo - amo esse nome!).

Voto Cristo, portanto, porque não tem melhor símbolo da fé brasileira: acolhedora, de braços abertos, irreverente, distante das igrejas e perto da natureza. E, acima de tudo, absolutamente cotidiana. A espiritualidade ia passar direto pela vida de muito carioca não fosse o Cristo ali no alto, lembrando-o que o buraco é mais em cima! Isso, pra mim, já valeria o voto no redentor.

PS: Numa boa, os chineses são invejáveis em sua genialidade e determinação para fazer uma muralha daquelas. Mas não sei se chamaria de "maravilha do mundo moderno" a um muro com tantas motivações militares e segregacionistas. Não é desse tipo de símbolo que a civilização precisa. Sou mais o meu Cristo cabeludo abrindo os braços para o mundo todo.

sexta-feira, julho 06, 2007

10 cliques da casa da lagoa para comemorar um ano do blog!











Pra comemorar um ano de blog, a casa da lagoa finalmente apresenta seus moradores numa seleção de 10 imagens muito especiais!

Simplicidade

Camisetinha rosa com short azul, camisetinha laranja com short vermelho, camisetinha amarela com short verde, camisetinha azul sem short, mas com uma zebrinha de plástico na mão. Pulando ondas na beira do mar e rodando e "caindo" de bunda na água e levantando e pulando ondas de novo. De vez em quando, uma pausa para a zebrinha beber água. A platéia vazia é a praia de inverno. Água fria? Quem liga? Preocupação é a próxima brincadeira, depois que se cansarem de tantas gargalhadas. Em que momento da vida mesmo a gente perde essa simplicidade?

quinta-feira, julho 05, 2007

E não é que passou um ano?

E eu nem me dei conta do aniversário da Casa da Lagoa. Um ano de vida digital, completados no início de julho. Nesse tempo, foram 103 posts ( com este). Caraca, como passa rápido....

quarta-feira, julho 04, 2007

Dezessete anos

Houve tempo em que eu me enchia de orgulho no 1º de julho. Desta vez, passou em branco, mas eu costumava estufar o peito porque nesse dia colocava mais uma marquinha na conta do tempo de profissão. Este ano, em que esqueci a data, completei dezessete anos de redação.
Dezessete anos perseguindo vírgulas e pontos fora de lugar; Dezessete anos atrás de acentos fujões e ignorâncias ortográficas e gramaticais infiltradas, agentes a serviço do mau texto; Dezessete anos vendo o mundo passar nas agências de notícias (pra vocês terem uma idéia de quanto tempo é isso, quando eu comecei elas ainda enviavam telex).
Será o caso de comemorar?

sexta-feira, junho 29, 2007

Gente invisível

Você já parou para pensar na quantidade de gente invisível que atravessa o seu caminho durante um dia? Essas pessoas com quem cruzamos na rua, dividimos o banco do ônibus ou o ambiente do trabalho e nem notamos? Há casos extremos em que elas freqüentam nossas casas (para fazer serviços que nossos bacharelados rejeitam) sem que lhes dispensemos dois minutos de conversa. É uma forma de violência.
Eu procuro sempre notar as pessoas invisíveis. Os seguranças da rua onde moram, por exemplo, espantavam-se quando eu passava por eles dando bom dia. Agora já se acostumaram e quando me vêem, cumprimentam antes. Os motoristas da linha 110, que tomo todos os dias, me olhavam como um ET no começo, quando eu subia no ônibus cumprimentando. Agora também já me conhecem e algumas vezes esperam no ponto, quando vêem que estou chegando.
Quanto mais gentileza genuína distribuímos, mais gentileza recebemos de volta. É um círculo virtuoso. Aprendi isso com os meus pais, que sempre valorizaram as pessoas pelo que elas são e não pelo que têm ou pela grife que usam. E eles nunca precisaram me dar uma aula sobre o assunto. Aprendi pelo exemplo, porque eles agiam assim.
Todo mundo, por mais simples que seja, tem uma história para contar e algo de sua experiência de vida para ensinar. Precisamos recuperar a capacidade de valorizar isso. Para evitar, no futuro, que mais monstros bem nascidos se achem no direito de espancar outro ser humano (que para eles não significava nada, era apenas uma empregada doméstica) num ponto de ônibus na Barra da Tijuca.

sexta-feira, junho 22, 2007

Essa eu nunca tinha visto

Lá estava eu na plataforma da estação Botafogo, um olho no relógio e outro no trilho que se perde na curva do túnel (a luz do farol chega antes do som do trem), quando percebi que estava vindo uma composição. Fiquei contente, já achando que poderia desmentir a verdade incontestável de que, quando a gente está atrasado, o metrô sempre demora mais pra passar. Mas aí percebi que não se tratava de um trem comum. O treco que estava chegando era apenas uma locomotiva com uma cabine para o condutor e uma carroceria, provavelmente um carro de manutenção. Quando entrou na estação, ele diminuiu a velocidade ao mínimo e passou lentamente, para exibir, pasmem, um painel em forma de garrafa de Coca-Cola Zero. Eu com pressa na plataforma e a Coca-Cola Zero lá, desfilando calmamente, atrasando o meu próximo trem... Jurei só beber Pepsi pelos próximos seis meses!

terça-feira, junho 19, 2007

Tava escrito na fita...

Como nem todos os meus cinco leitores virtuais estavam no arraial junino da Lagoa, vale uma explicação. No começo, ainda antes da chuva (que era de verdade), teve dança das fitas. Todos os presentes eram convidados a escrever mensagens aos noivos na fitas coloridas que, depois, viraram adereços de pescoço... Então, vou começar a publicar, aos poucos, algumas dessas mensagens. A primeira, como não poderia deixar de ser, justamente da minha leitora número 1, M.:

"Que o alto astral e os ideais da Casa da Lagoa se espalhem pelo mundo e que vocês se realizem, sejam felizes e tenham muita saúde e paz. O relacionamento de vocês e o sentimento que têm um pelo outro são inspiradores. Beijos da amiga que torce o tempo todo por vocês."

Estranho

De repente todos os blogs que costumo visitar silenciaram juntos. Meus amigos virtuais sumiram. Terá este mundo virtual se acabado e o meu plug virtual foi o úncio que Matrix esqueceu de desligar? Estranho...

O gol número 1.500

Este site está perto de completar um ano de vida, mas eu só descobri a maravilha do Sitemeeter em março passado... Por isso, a contagem de visitantes não reflete a realidade. Mesmo assim, quero agradecer aos meus cinco leitores fiéis porque a Casa da Lagoa atingiu hoje, às 11h05, a marca de 1.500 visitas desde que o sitemeter foi instalado. O visitante de número 1.500, um desavisado morador de Columbia, Washington D.C., chegou à esta Casa depois de digitar no site de buscas do Google a sentença "braz pizzaria rio", que o enviou diretamente para este post de 22 de abril. Obrigado a todos pela presença.

segunda-feira, junho 18, 2007

Festa na Lagoa

Falta menos de um mês para esta Casa virtual completar um ano, mas a festa já rolou na noite sem lua de junho, à beira da Lagoa, como não poderia deixar de ser. Não teve cobra nem fogueira, mas a chuva e os noivos, pelo menos esses, eram de verdade. E a quadrilha, toda vestida de branco, dançou até o último acorde do sambinha dos carolas de Niterói, tomando caipirinhas malabares, sucos verdes e degustando comidinhas vivas e nem tanto... Obrigado a todos os que prestigiaram o arrial!

terça-feira, junho 12, 2007



Foi com muito orgulho que descobri que esta Casa da Lagoa foi triplamente indicada, pela M., pela Vivi e pelo Don Rodrigone, para o "Thinking Blogger Award", uma premiação simbólica proposta pelo The Tinking Blogger para blogs que fazem pensar. Pelas regras do prêmio, eu agora devo indicar outro cinco blogs que fazem pensar. Como a lista extensa, vou roubar criando a categoria hors concours, na qual enquadro desde já os sítios Le Bal Masqué, Tudo a Declarar e Como se Fosse Sábado, devidamente premiados por clamor popular. E faço cinco novas indicações:



1. Revelando - Espaço onde a imprevisível Sharon verde poesia em letras e imagens cotidianas.

2. Terapia Zero - O sítio especial de uma amiga freudiana que odeia divãs (será?).

3. Diz que fui por aí - É muito mais que um blog. Na verdade, é uma Kombi (ou era, se visitarem vocês vão entender) que está redescobrindo o Brasil.

4. Jornal das Pequenas Coisas - O delicioso espaço onde Rita Apoena, como diz a Sharon do Revelando, "sempre sabe como tornar doce a vida tantas vezes sem açúcar".

5. Crônicas de Guardanapo - André Debevc vai com tanta precisão ao ponto certo que até parece que ele nos conhece e sabe o que passa pela nossa cabeça.

Miniconto: Amor idealizado

Talvez fosse, talvez não... Mas depois que morte a impediu de viver a história, ela passou a ter certeza de que fora ele o grande amor da sua vida.

segunda-feira, junho 11, 2007

Tá tudo dominado

Meu sonho era usar este espaço para textos saborosos, divagações sentimentais, mas minha veia jornalística não resiste... Dados de um estudo do ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho revelam que, em 2006, a polícia do Rio de Janeiro efetuou 16.543 prisões em todo o Estado.
O que vocês acham? É muito, pouco, mais ou menos? Então vamos lá.
Segundo o mesmo estudo, a polícia de São Paulo, onde a violência atinge níveis semelhantes aos do Rio (quem não concordar pode deixar comentário espinafrando), foram efetuadas, no mesmo período, 128.135 prisões.
Gostaram do número? Já estão tentados a rasgar elogios à corporação paulista? Calma.
Em Nova York, onde a violência é infintamente menor, foram efetuadas 340 mil prisões em 2006. Isso mesmo, os meganhas yankees prenderam 20 vezes mais que seus colegas da Guanabara.
Alguém ainda quer saber por que a criminalidade está fora de controle há duas décadas no Brasil?
Agora sim eu entendo a razão de, em um ano meio morando no Rio, nunca ter visto uma viatura de polícia com a sirene aberta no trânsito. Como dizem por aqui, "tá tudo dominado".

domingo, junho 10, 2007

Carnaval dos Bicheiros

Desde fevereiro não era novidade para os poucos (mas fiéis) leitores desta Casa da Lagoa a febre que representa o Carnaval no Rio de Janeiro. As críticas feitas naquele post chamavam atenção para o fato de que a festa era patrocinada pela contravenção. Hoje, a intervenção "heterodoxa" dos bicheiros estampa o alto da primeira página d'O Globo. Quase com o mesmo destaque das falcatruas do irmão e do compadre do presidente da República.
Para quem não teve a chance de ver, um breve resumo: grampos feitos pela Polícia Federal flagraram três dos "empresários do jogo" oferecendo propinas a jurados para que dessem a vitória à Beija-Flor. Os que se ousaram se recusar a pegar a caixinha, foram ameaçados de morte por um pistoleiro a serviço da máfia.
Como dizem por aqui, todo mundo já sabia que isso acontecia. Até hoje, porém, ninguém tinha gravado.

sábado, junho 02, 2007

Miniconto: Férias na Casa da Lagoa

Perdia cabelos de sol a sol, estressado no trabalho. Um dia fez as contas, comprou passagens, botou a mochila nas costas e foi-se embora pra Itacaré.

sexta-feira, junho 01, 2007

Na vitrola, Caetano canta Nature Boy

Assim como havia chegado (sem anúncios), ele hoje partiu. Abrindo as portas dos armários do esquecimento para os casacos paulistas. E na noite morna, já agora venta uma brisa fresca. Que limpa a cena para a lua cheia azulando o céu no recorte com o morro negro que fecha a minha rua. Uma lua daquelas, que de tão linda, já faz sentir saudade antes mesmo de partir. Ainda vou sentir falta disso tudo... eu sei.

O Brasil dos cartórios

Quando minha mãe nasceu, meu avô decidiu homenager a mãe dele batizando a filha de Casemira Augusta. Preocupada com o futuro da inocente, minha tia mais velha sugeriu que ele transferisse a homenagem, batizando a caçula de dez filhos com o nome da minha avó. Para mostrar que era um homem flexível, meu avô cedeu. E minha virou Beatriz Casemira.
Foi assim que Casemira, esse nome português fora de uso, foi parar na minha certidão de nascimento. E logo esse nome, que ela sempre abonimou, acaba de nos fazer descobrir que eu e meus irmãos não somos filhos da mesma mãe. Eu e minha irmã mais velha somos filhos de Beatriz Casemira. Meus dois irmãos mais novos descobriram há pouco que são filhos de Beatriz Casimira. Não notou diferença? Nem você, nem o escrevente desatento do cartório que grafou errado o nome da minha mãe na certidão deles, com I em lugar de E.
Quem descobriu o erro foi minha irmã mais nova, tentando tirar uma nova cédula de identidade, com o nome de casada. Quando compareceu ao Poupatempo, a funcionária percebeu que na certidão de nascimento que ela portava, o nome grafado era Casemira. Mas na de casamento, era Casimira.
Foi investigar e descobriu que no livro do cartório de registro, o registro é com I. Apesar de ela ter uma cópia original da certidão com E. E agora vai ter de entrar na Justiça para pedir a um juiz o direito de corrigir o nome nas certidões de nascimento e casamento dela e nas certidões de nascimento das filhas dela, para poder renovar o Passaporte e o RG.
Parece piada? Não é. É grave. Vai gastar um dinheiro e um tempo enorme. Porque no Brasil dos Cartórios, uma certdião de papel com selos holográficos e carimbos vale mais do que a sua palavra. E enquanto ela não fizer isso, não terá mais direito a documentos de identificação.

quarta-feira, maio 30, 2007

Balas e frases perdidas

Amanhã (quinta) faz um mês que a guerra estourou no Complexo do Alemão. A polícia ocupou o conglomerado de favelas por causa do assassinato de dois PMs e desde então já morreram 17 pessoas e outras 79 foram feridas pelas perdidas. Ontem, o secretário de Segurança Pública do Rio, saiu-se com a seguinte frase para explicar as dificuldades que a polícia vem enfrentando no local:
- Não é possível que num local onde moram 130 mil pessoas não chegue uma informação para a ouvidoria, para o Disque-denúncia, enfim, para qualquer órgão, com alguma estratégia do tráfico.
Será que ninguém denuncia nada porque a lei do morro manda matar X-9, 'dedos-de-seta' e colaboradores da polícia em geral? Se a polícia do secretário garantisse a segurança da população, ninguém se furtaria a colaborar. Mas aí viveríamos numa cidade onde a polícia seria eficiente e, nesse caso, ela nem precisaria de delações. Teria inteligência suficiente para descobrir sozinha as estratégias do tráfico.
Não sei o que é pior nessa guerra: a quantidade de balas ou a de asneiras perdidas.

segunda-feira, maio 28, 2007

Telegolpe

Dia desses o telefone toca logo cedo na casa de um amigo. A mãe dele atende:
- Alô.
- Aí, a gente pegou teu filho. Se você não fizer o que a gente mandar ele vai morrer, tá entendendo?
Ela desliga. Levanta da cama e vai até o quarto do filho. Ele dorme profundo, depois da night de sábado. O telefone começa a tocar de novo, ela o acorda, explica o que está acontecendo, ele atende:
- Alô.
- Por que essa vaca desligou? Tá querendo ver o filhinho morto? A gente não tá de brincadeira não.
- Amigo, eu sou o filho dela.
- Aí vacilão, é o outro, é o outro. A gente tá com o outro.
- Ela não tem outro filho...
- Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu

sexta-feira, maio 25, 2007

Telemarketing

O telefone toca logo cedo no trabalho. Eu atendo:
- Alô?
- Bom dia, com quem eu falo?
- Ferdinando.
- Bom dia, senhor Ferdinando. Tudo bem com o senhor?
- Tudo.
- Meu nome é Marcia e estou ligando hoje para o pessoal aí do diário pra estar divulgando o lar de velhinhos H..., do Catumbi. O senhor já conhece?
- Não.
- Pois é, senhor Ferdinando. É um lar que abriga 50 velhinhos, vovozinhos e vovozinhas, que não têm família e também não têm onde morar. Eles precisam muito da sua ajuda. Por isso eu estou ligando para o pessoal aí do diário...
- Olha, infelizmente eu não posso ajudar nesse momento.
- Mas não precisa fazer nenhuma doação grande, qualquer quantia em dinheiro já é suficiente...
- Realmente não posso ajudar nesse momento...
- É muito difícil pra mim, senhor Ferdinando, estar acreditando que o senhor, trabalhando no diário, não possa estar tendo nem um real pra nos ajudar.
- Você tem razão, Márcia. A verdade é que eu não dou dinheiro para quem eu não conheço.
- Ah, senhor Ferdinando. Logo se vê que o senhor não conhece o nosso lar de velhinhos, não sabe a tristeza que é um velhinho abandonado fazendo suas necessidades na própria roupa por falta de fraldas...
- Olha Márcia, eu entendo que o seu trabalho seja justamente esse, de ser insistente, mas eu não vou dar um centavo. Porque odeio essas ligações com texto decorado que vocês fazem e todos esses gerundios errados...
- Ah, senhor Ferdinando. Quer dizer que o senhor preferia que as empresas de telemarketing estivessem fechando, desempregando milhares de pessoas? O senhor sabia que esse setor hoje em dia é um dos que mais esta empregando no país? Se o senhor nunca fizer doações, nós ficaremos todas desempregadas.
- Não acredito nisso! Chega! Vou desligar este telefone!
- O senhor não seria capaz de estar fazendo uma falta de educação dessas, não é mesmo....
- Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu....

quarta-feira, maio 23, 2007

Miniconto: Relâmpago

Quando tudo parou, duas janelas os separavam. Trocaram olhares por alguns segundos. Os sinos soaram, as portas fecharam, e cada trem foi pra um lado.

segunda-feira, maio 21, 2007

A orquestra do 17º

As flautas soavam doce, os violões e cavaquinhos solavam em conjunto macio e os tambores e bumbos marcavam presença suave ao fundo, como alguém que anda pisando nas pontas dos pés. Sentado atrás de uma mesinha acanhada, o professor regia a pequena orquestra na sala de janelas grandes do 17º andar, por onde entrava um sol tímido de inverno. Entre as estantes com as partituras da música, chinelos de dedo marcavam o ritmo do andamento. Em todos os rostos, alguns mais adolescentes, outros já mais adultos, uma luz especial denunciava a satisfação por estar ali, vivendo aquele momento, criando aqueles sons. Construindo presentes e futuros com instrumentos de sopro, corda e percussão.
Do lado de fora das grandes janelas, a realidade daqueles músicos estava bem concretizada em milhares de casinhas, casões e até prédios feitos de tijolos aparentes. Construções precárias que trepam morro acima de forma desordenada formando aquele gigante que nos acostumamos a ver pela tevê como um câncer crônico enraizado na beira da estrada Lagoa-Barra. Um problema sem dono e sem rosto, mas com nome famoso: Rocinha.
Eu nunca tinha chegado tão perto de uma favela. E embora tenha passado ao largo (eu não entrei lá, só fui do outro lado da rua, no prédio da Prefeitura, onde funciona a Escola de Música da Rocinha), senti pela primeira vez que ela tem vida, tem alma. Porque conheci naquela sala, os verdadeiros guerreiros da Rocinha, gente que luta batalhas diárias para viver com dignidade, sem fazer mal a ninguém. Guerreiros que usam seus intrumentos para dispara acordes de harmonias que alimentam a vida.

sexta-feira, maio 18, 2007

Detalhes (como diria o Rei)

Então eu acordo às oito da manhã e passo o dia preenchendo planilhas do projeto que estou liderando, logo eu que só queria escrever boas histórias quando fui fazer jornalismo, às voltas com a avalanche de idiossincrasias do excel, e nem percebo que já escureceu lá fora, tenho de sair correndo para não perder a natação, onde descubro, ao chegar, que esqueci de levar os óculos, mas mesmo assim caio na piscina, e dois mil metros de braçadas depois chego em casa, sento no chão para retalhar a canga africana que vai servir de forro para os convites da festa, e quando meu indicador começa a reclamar da relação sufocante com o anel da tesoura, percebo que já é uma e meia da manhã, mas ela decide me contar sobre as aulas do curso de alimentação viva que está fazendo na PUC, onde ao final de cada aula ela tem de escrever sobre o dia, e hoje a professora devolveu os textos, porque o curso está no fim, quer que eu leia pra você?, por que não?, e ela então me sai com esta pérola, escrita na aula do dia 18 de abril:
- Agradeço ao aipim, ao pimentão, ao coentro, à salsa, à cebolinha, à lentilha, à pimenta, ao suco de limão e ao azeite de oliva, pela riqueza de cores, sabores e aromas que deram aos nossos bolinhos.
Não consigo mais parar de rir e isso me faz esquecer o excel, as planilhas, o óculos da natação, a tesoura matando meu indicador. Dá pra entender agora, por que eu quero me casar com ela?

quinta-feira, maio 17, 2007

Maldito vício

A responsável por me apresentar a novidade foi M., e eu a usei pela primeira vez na festa de um ano do Estado de Circo. Como sempre acontece nesses casos, ninguém me alertou para os riscos que corria. Quando menos esperava, já estava viciado. Não sei se o inventor dessa maravilha é o Borges (o dono do Estado de Circo), mas se for, ele merece reconhecimento mundial. O negócio é tão simples quanto genial.
A primeira a admitir o vício foi a M., e agora sigo pelo mesmo caminho. Descontrolado, vou começar a usar também na Casa da Lagoa. O nome da droga? Miniconto. Proposta: escrever uma história com começo, meio e fim em, no máximo, 150 toques. Aos meus poucos leitores, fica a promessa de que tentarei não abusar da fórmula. Lá vai o primeiro.

Miniconto: Romeu e Julieta

Aprendera a vida toda que aquilo, sim, era poder. Mas agora, com a faca e o queijo na mão, era incapaz de realizar seu desejo. Faltava-lhe a goiabada.

quarta-feira, maio 16, 2007

Como nascem as piadas

Assim como vários amigos já registraram em seus blogs, eu também não dou a mínima para o que pensa, se é que pensa, o papa Bento XVI. Mas confesso que me surpreendi com o fato do alemão de saia falar português, e ainda por cima com bom sotaque. Comentei com uns amigos e deu-se o seguinte diálogo:
(Eu) - Você viu que o papa fala português? E fala bem.
(Amigo1) - Fala bem mesmo. Melhor que o Lula.
(Silêncio. Gargalhada).
(Amigo2) - Deixa de zoeira. Ele não fala, só lê aquilo tudo.
(Amigo1) - Lê? Papa 2, Lula 0.
(Gargalhada geral.)

terça-feira, maio 08, 2007

Santuário ameaçado

O seqüestro de um jovem estudante, desvendado na semana passada pela políca, está chocando os moradores da Barra da Tijuca. Não por ter sido seqüestrado mais um jovem de classe média-alta, isso já é comum no Brasil todo, mas pelo fato de o crime ter sido cometido por quatro porteiros de condomínios do Jardim Oceânico, um dos bairros pioneiros do santuário contra a violência em que foi transformada a Barra.
De repente, os moradores dos condomínios descobriram que, além de passarem o dia expostos à violência banal das ruas em que transitam para ir ao trabalho, também podem estar dormindo com o inimigo do lado de dentro de seus portões inexpugnáveis. Para piorar a situação, a polícia diz que os porteiros seqüestradores iriam executar a vítima assim que o resgate fosse pago. Um dos integrantes da quadrilha trabalhava no condomínio onde o estudante morava e havia sido reconhecido.
Pra mim o episódio é emblemático do que as pseudo-intelectualidade da sociologia gosta de chamar de "esgarçamento do tecido social". Os seqüestradores não eram traficantes ou assaltantes favelados, os vilões tradicionais que a sociedade carioca já se acostumou a tolerar. Eram trabalhadores, empregados com carteira assinada, moradores de casas nas cercânias, que recebiam seus salários religiosamente no fim do mês. Todos eles tinham carros próprios, um inclusive tinha também moto, e ninguém ali estava passando necessidade extrema para imaginar um seqüestro, crime hediondo e inafiançável, que ainda por cima terminaria em homicídio.
Os simplistas dirão que eles eram monstros sem coração, movidos pela ganância. É o caminho mais fácil para virar a página do jornal sem fazer nada. Porque o caso, claramente, é produto da desigualdade de renda insuportável deste país. Os mais ricos não querem dividir nada, mas não percebem que já pagam um preço alto, seja em aparatos de segurança, seja em vidas de parentes e amigos assassinados, pela riqueza que só querem acumular.

sábado, maio 05, 2007

Proibido Proibir

O título do mais recente filme do chileno Jorge Durán remete a uma produção de época, ambientada nos tempos duros da ditadura militar. Talvez tenha sido proposital. A história de Proibido Proibir retrata abusos de autoridades policiais corruptas contra jovens, mas desta vez no Rio de Janeiro conflagrado dos dias de hoje. Os jovens também não são tão idealistas como os da luta armada dos anos 70.
Pra quem se interessar, faço abaixo uma longa resenha. Mas a razão principal deste post não é falar dos erros e acertos do filme e sim de uma situação emblemática que surge na tela (e que está exposta na foto acima). Num determinado momento da trama, policiais matadores perseguem inocentes numa favela. Os atores contracenam vestidos com fardas oficiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro e usam, inclusive, uma viatura real no momento em que levam as vítimas para uma execução num lixão.
Pode ser que eu esteja enganado, mas não me lembro da Polícia Militar de algum outro Estado permitir o uso de fardas ou viaturas oficiais em sets de filmagens, nem quando a trama, em tese, era neutra à corporação. Muito menos quando retratava situações desfavoráveis à imagem da instituição, como é o caso em Proibido Proibir.
O fato de a PM do Rio permitir isso mostra que nem a alta cúpula se preocupa com a imagem da corporação. O que ajuda a entender a situação de descalabro em que se encontra a polícia carioca, sempre envolvida em escândalos de corrupção, e cuja tropa é acusada de liderar mílicias justiceiras nos morros da cidade. Por coincidência, assisti ao filme no mesmo dia em que o tiroteio entre policiais e traficantes cessou na Vila Cruzeiro, favela da Penha. E para desmoralização da tropa, o cessar fogo foi ordenado por chefões do crime encarcerados no presídio de segurança máxima de Bangu.

A RESENHA
O drama principal de Proibido Proibir se desenrola em torno da relação entre Paulo (Caio Blat), Letícia (Maria Flor) e León (Alexandre Rodrigues). Paulo é um estudante de medicina talentoso e porra-louca, que vive drogado a maior parte do tempo. Ele divide apartamento na periferia do Rio com León, estudante de sociologia, negro, o certinho da dupla, que namora Letícia, uma linda estudante de arquitetura de classe abastada. Por quem Paulo obviamente se apaixona. Pra piorar, ele começa a ser correspondido por Letícia.
O filme estaria bem resolvido se Durán tivesse se contentado em trabalhar esse trio amoroso. Mas o cacoete da denúncia social (pra quem não lembra, são dele os roteiros de Lúcio Flábio, Passageiro da Agonia e Pixote, entre outros) o fez colocar a história do trio num drama paralelo que expõe as chagas do caos social do Rio.
No Hospital Universitário, Paulo conhece Rosalina (Edyr Duqui, em maravilhosa interpretação), uma paciente terminal. E promete a ela encontrar seus filhos. O problema é que um deles foi assassinado por policiais corruptos e o outro está jurado de morte. O trio então resolve tirá-lo da favela e é aí que o roteiro se perde numa profusão de pontas soltas e tentativas de soluções quase infantis.
Nada disso, porém, me faria desaconselhar os amigos a assistir o filme. Os 100 minutos da fita passam em ritmo acelerado. Só os muito exigentes sairão realmente desapontados da sala.

quinta-feira, maio 03, 2007

Coisa séria mesmo

Eles se consideram os Maiores do Mundo, time Mais Querido, chamam a camisa de Manto Sagrado... Lá onde eu trabalho, os flamenguistas são maioria. E são os que mais azucrinam a vida de todos os torcedores de qualquer outro time. Vasco perde? Eles arrebentam na tiração de sarro. Fluminense empata? Chupa Fluzão, gritam em coro. Botafogo escorrega? Ah, Fogão não é grande, ironizam. E não ficam só nos times do Rio não. Se Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Portuguesa (!) tropeçam, lá vem gozação dos rubro-negros. Até quando o Milan faz gol no Manchester eles azucrinam o garoto que um dia disse gostar de futebol inglês. Em resumo, além de serem os maiores, são também os mais chatos do mundo.
Mas aí, aconteceu essa tragédia na quarta-feira. O Defensor, um time de segunda divisão do Uruguai, que até hoje só ganhou três campeonatos nacionais na nossa ex-colônia (até o River Plate uruguaio, que deixou de existir em 1930 tem mais títulos) ignorou o Manto Sagrado e enfiou três gols no Maior do Mundo, no Mais Querido. Clima tenso na redação. Que quase explodiu em selvageria quando um tricolor carioca ameaçou fazer uma graça....
É, além de serem os maiores e mais chatos do mundo, eles também são os piores esportistas. Pelo menos lá onde eu trabalho.... Talvez na Geral do Maracanã sejam mais civilizados.

segunda-feira, abril 30, 2007

Tradução no metrô

Debaixo da terra, viajando em direção aos deliciosos doces da Colombo, minha cunhada e meu irmão (ambos paulistas em visita de feriado), pedem ajuda:
- Traduz pra gente, por favor: "Pancadão faz a Barra rebolar até o chão".
A frase estapmpava um jornal popular que um velhinho folheava. Alguém se aventura a traduzir?

sábado, abril 28, 2007

Poluição companheira

No meio do caminho entre o meu trabalho e o meu local preferido de almoço ficam os Correios. Não uma agência qualquer, mas a central, aquele prédio imenso na Avenida Presidente Vargas por onde passam todas as cartas postadas no Brasil. Por mais estranho que pareça, é verdade. Se um morador de Salvador escreve para um parente em Recife, a carta vem para o Rio e volta para Recife. Mistérios do Brasil...
Por conta desse volume gigantesco de envelopes, o prédio é enorme, cheio de funcionários e ponto obrigatório para todas as chapas quando tem eleição no sindicato. Desde o fim de março, com os carteiros em campanha sindical, todos os dias tinha um carro de som poluindo o caminho entre o meu trabalho e o meu almoço. Era a companheirada apontando erros e desmandos da companheirada nem tão companheira assim, que competia pela outra chapa. Como eram três chapas, não havia um dia sequer em que eu pudesse ir para o almoço livre da gritaria.
Esta semana, porém, quando passava pela calçada vi a companheirada reunida na frente do carro de som, posando para uma foto de confraternização. Aproveitei a oportunidade:
- Já foi a eleição?
- Já companheiro, terminou. Ganhamos! - respondeu efusivo um senhor de meia idade, adesivo da Chapa 2 no peito, que foi logo me abraçando.
- Poxa companheiro, estou muito feliz por vocês. Muito mesmo. E também porque agora vou passar dois anos podendo ir para o meu almoço0 sem ficar surdo com os caminhões de som de vocês - respondi, sem tirar o sorisso do rosto. O companheiro também não perdeu o rebolado:
- É companheiro, campanha é fogo, né. Mas acabou, companheiro, acabou! Vencemos!

domingo, abril 22, 2007

Agora o Rio está perfeito

Logo na minha primeira semana no Rio inventei uma piada que usava para provocar os naturais da Guanabara. Dizia que havia sido exposto à primeira situação de violência carioca: um rodízio de pizzas. A piada era baseada em fatos reais. Na minha primeira semana, sem conhecer nada da cidade, inventei de comer uma pizza no Largo do Machado. Fui bater numa pizzaria, 10 da noite, e na porta o garçom foi logo perguntando:
- Rodízio ou quilo?
Eu só queria comer uma pizza, de preferência uma média.
- Não temos essa opção. Ou o senhor vai no rodízio, ou vai na comida a quilo do buffet.
Buffet às 10 noite? Achei arriscado. Seria melhor encarar o rodízio, pensei. Errei feio. As pizzas, que já não são uma especialidade nesta parte tropical do país, pioram muito nos vários rodízios em que são servidas em quantidade inversamente proporcional à qualidade.
Era um tal de pizza de carne moída, pizza de jabá com jerimum, pizza mexicana, numa lista pra lá de heterodoxa que incluía ainda, entre os sabores doces, pizza de brigadeiro, de prestígio, de confete, de mousse de maracujá!!!! Definitivamente, uma violência.
Os cariocas não gostavam muito da minha piada e acabei por aponsetá-la. Agora, porém, eles podem entender o meu mau humor com aqueles discos de massa do Largo do Machado. Porque abriu no Rio, bem ao lado da minha casa, no Jardim Botânico, uma filial da Bráz. Provei ontem. Que maravilha. Agora, o Rio está perfeito. Já tem a velha e saborosa pizza paulistana.

terça-feira, abril 17, 2007

O órfão do Pé de Maracujá

Voltando da natação agora há pouco, parei para olhar o morimbundo pé de maracujá do post anterior e, para minha surpresa, notei um filhote órfão da planta, menorzinho, crescendo no fio parelelo àquele onde a planta maior já está completamente morta. Fiquei ali parado, imaginando como os agentes com licença para podar da companhia de luz haviam deixado aquele menor escapar. Notando meu interesse, um taxista do ponto explicou:
- Esse aí tá no fio de telefone.
Como?
- Esse aí, menorzinho, tá no fio de telefone. O pessoal da Light não mexeu com ele porque é problema da Telemar.
Nessas pequenas bobagens a gente entende por que o Brasil não consegue decolar. Apesar de criativo, o povo se deixa emparedar pela burocracia, prima-irmão da preguiça. Tá certo. Se as ordens eram para podar apenas o pé de maracujá da fiação de luz, porque ele mexeria com o da rede de telefone, não é mesmo?

sexta-feira, abril 13, 2007

O pé de maracujá

Ele começou tímido, insinuando-se por um poste. Como ninguém o notava, ganhou confiança e se desenvolveu. Quando finalmente perceberam sua existência, já fazia a alegria dos taxistas da rua Sacopã, na Fonte da Saudade, com seus frutos doces. Emoldurava a entrada da rua, garbosamente pendurado nos fios da rede elétrica que a cruzavam. Foi esse seu erro.
Depois de um verão extremamente seco, veio uma chuva forte. Molhado, mais pesado e sacudido pelo vento, ele provocou panes que alertaram a central. A Light, então, enviou seus agentes com licença para podar. Impiedosos, eles o cortaram pela raiz.
Desde então, o pé de maracujá da Rua Sacopã agoniza lentamente, secando aos poucos, em plena praça pública.

quarta-feira, abril 11, 2007

Outono tropical

Então o tempo passou, o clima mudou e as árvores choram suas primeiras folhas ( lágrimas de cobre de pura manha, pois sabem que jamais chorarão todas). Malhas finas desfilam pelas ruas, abrindo as portas dos armários para pesados casacos novaiorquinos/londrinos/parisienses que em breve serão libertados dos cabides (mais pela saudade das viagens do que por necessidade).
As noites já não são mais tão quentes (pelo menos as longas pernas estão de volta, aquecendo-me sob a mantinha etíope, em suas batalhas noturnas inconscientes para me expulsar da enseada tranquila da cama) e quando amanhece, o céu é de um azul contido. O sol, esse continua brilhando pendurado em algum canto. E me faz lembrar de que já não me lembro da última vez em que vi o mar.

segunda-feira, abril 09, 2007

Monólogo Furtado

Linha 157 Central-Gávea, sentido bairro. A porta de trás abre e o homem carregado de caixas sobe, caminha até a catraca, e desembesta a falar:

- Em primeiro lugar, desculpe por incomodar o silêncio da sua viagem. É que eu estou aqui hoje para oferecer as deliciosas barrinhas Maxi Goiabinha. A qualidade é da Bauduco, que o senhor e a senhora já conhecem, não preciso explicar. Temos aqui para oferecer a barrinha nos sabores Maxi Goiabinha, que é tradicional, Maxi Chocolate e a última novidade, Maxi Chococo, que é uma barra de chocolate com recheio de coco. Nas Lojas Americanas ou em qualquer outro lugar o senhor, a senhora vai pagar oitenta centavos ou um real. Aqui na minha mão, uma barrinha sai por sessenta centavos, dua por um real. Está dentro da validade, pode olhar no verso, é outubro de 2007. Vocês devem estar se perguntando como o preço pode ser tão baixo, não é mesmo? Não tem segredo não, tá gente. É carga tombada mesmo. Quem vai querer? Uma é sessenta, duas por um real...

terça-feira, abril 03, 2007

Diálogos furtados

Na Praça dos Bebês, na Lagoa, enquanto espero o ônibus para o trabalho:

(Babá 1) - Óxente, não agüento mais correr atrás dele. Não tem sussego esse muleque!
(Babá 2) - Tu vai embora, Lucinéte?
(Babá 1) - Vô não, vô só dá água a ele. (Dirigindo-se ao menino de uns 3 anos). Vem cá Gordo, toma água, que é pra vê se passa o soluço, toma.
(Babá 3, cuidando de uma menininha num carrinho, possivelmente irmã do "Gordo") - Óh Lucinéte, acho que já deu a hora de ir.
(Babá 1) - Óxente, Deia. Que horas são?
(Babá 3) - Já é quase onze, já.
(Babá 1) - E tu sabe como? Num tem relógio?
(Eu) - Dez e vinte.
(Babá 3) - Comé?
(Eu) - São dez e vinte. As horas.
(Babá 1) - Vixe, Deia, que aperreio. Olhe, já pensou se nós chega antes da hora lá? Patroa dá a luz!
(Babá 3) - Deus me livre, Lucinéte. Vai ser mais um pra gente cuidar!

Gargalhada geral. Chega o ônibus.

Pequenas provas de que o mundo está perdido

(Garimpadas em colunas recentes do Ancelmo Góis, em O Globo)

- A Assembléia Legislativa do Rio decidiu reformar a fachada do prédio anexo. Vai trocar as placas de alumínio do projeto original por pedras. Motivo: gatunos roubaram as placas para vender como sucata. Em pleno centro da cidade.
- Os 1.200 alunos de uma escola municipal da Rocinha ficaram sem aulas o mês de março inteiro. Motivo: um vazamento de esgoto das moradias em volta desembocava dentro das salas de aula, tornando insuportável a permanência no local. Como a prefeitura demorava a tomar providências, os traficantes baixaram a ordem: os moradores tinham um fim de semana para desentupir os canos e limpar a escola, ou seriam mortos. Na segunda-feira seguinte, as aulas recomeçaram.
- Uma passageira da linha 464 Leblon-Maracanã foi assaltada dentro do ônibus na última sexta-feira, por volta de 14h. Os ladrões eram três velhinhos bem vestidos, aparentando por volta de 70 anos de idade.
- Uma aluna da UniverCidade, no Rio, fez a seguinte pergunta durante uma aula de história do Brasil: "Professora, por que o Tancredo Neves deu o golpe de 1964?"

quinta-feira, março 29, 2007

Flagrante social

Antes das oito da manhã, elas pintam a Fonte da Saudade de xadrez com seus uniformes de novela. Entediadas, algumas com cigarros acesos, passeiam cockers, bassets, poodles, schnauzers... Toda sorte de miniaturas caninas que certamente custam, em cuidados mensais (banhos, tosas, rações, medicamentos, vacinas e consultas veterinárias), mais do que o salário que elas recebem para lavar, passar, limpar, fazer cama, cozinhar e ainda levar o lulu ao banheiro logo cedo... É possível ainda que muitos desses patrões e patroas conversem mais com seus pets (naquela vozinha infatilóide irritante) do que com elas durante o dia. Mas pelo menos elas têm uma vantagem: podem ser abatidas do imposto de renda na maior democracia racial do mundo.

terça-feira, março 27, 2007

Passeio sonoro

Se vivo fosse e resolvesse passear por algumas quadras da rua nomeada para homenageá-lo, o que ouviria o Ouvidor?

Na quadra entre a 1º de Março e a Rua do Carmo:
- Misto mais um copo de refrigerante, só R$ 1,50...
(No carrinho da 'Rainha do Misto Quente', onde além de comer queijo com banana é possível converter VHS para DVD e fita k7 e lp para CD. Um adesivo ameaça os invejosos: "Sapo tem olho grande, mas vive na lama".)
- Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta...
(Dos pregadores evangélicos, engravatados sob o sol da Guanabara, lendo o capítulo 1, versículo 10 do... Apocalipse, claro. Sempre o Apocalipse.)

Na quadra entre as ruas do Carmo e da Quitanda:
- Vale refeição, ticket restaurante, pago 86%...
(Na camiseta do homem gordo distribuindo panfletos.)
- Você que está precisando de dinheiro, não perca tempo. Na Mesquita o seu crédito já está aprovado, apenas à sua espera...
(Gritado no megafone por um homem vestido numa roupa de pierrô azul acetinada, com sapatilhas de Aladim brancas e turbante amarelo na cabeça.)

Na quadra seguinte, onde ele descobriria, depois de percorrê-la, que além de rua tem também a Travessa do Ouvidor a homenageá-lo:
- Dez é um real, um real. Você leva dez e só paga um real...
(Do vendedor de guloseimas, anunciando o pingo de leite, num carrinho onde também é possível comprar 40 balas por um real.)
- Carregador, baterias, chip e carcaça...
(Do vendedor de bugigangas para celular que negocia também aparelhos de origem suspeita.)
Finalmente, na esquina com Avenida Rio Branco, ele ouviria:
- Cinqüenta por um real...
(De um vendedor de biscoitos de sequilho, antes do sinal abrir e sua voz ser sufocada pelo ruído de centenas de carros e ônibus arrancando pela Rio Branco.)

Depois do passeio, o Ouvidor sairia com uma certeza. Sorte mesmo tiveram o Desvio do Mar (1568), Aleixo Manoel (1590) e Padre Homem da Costa (1659), cujos nomes um dia já batizaram a estreita rua de paralelepípedos, definitivamente batizada como do Ouvidor em 1780.

segunda-feira, março 26, 2007

O vilão que não estava no roteiro original

O roteiro era perfeito. Tinha emoção, com 40 mil pessoas enfileiradas na platéia, ansiosas pelo grande momento; tinha suspense, com o tempo passando rápido; tinha o herói, lutando pra vencer no final; tinha o clímax, dentro da área, de frente para o gol, aos 43 minutos do segundo tempo. Mas aí apareceu o vilão que não estava no roteiro original: o pé do goleiro Bruno, do Flamengo, que atendendo ao seu cacoete de defensor ficou pra trás, no meio do caminho entre Romário e o seu milésimo gol.
O Maracanã quase morreu do coração, mas não teve jeito. A festa do baixinho ficou pra depois.

quinta-feira, março 22, 2007

Instituições cariocas 5: Mate com limão


A notícia está nos jornais do dia. O Mate Leão, que há 96 anos mata a sede dos habitantes nos tórridos verões da Guanabara, foi vendido para a Coca-Cola. Agora, a gigante dos refrigerantes pretende ampliar a distribuição da bebida preferida dos cariocas para todo o território nacional.
Embora seja possível, hoje é bastante raro encontrar em outras cidades do Brasil o copinho de plástico laranja com a estampa de um leão no rótulo. Aqui, eles estão por toda a parte. Os cariocas consomem 60% de toda a produção das três fábricas da Leão Júnior, que faturou no ano passado R$ 156 milhões. É uma instituição carioca.
Além dos copinhos plásticos, nos sabores natural e diet, com ou sem limão, o mate também faz sucesso na praia, em sua versão do latão. Vendedores com jaleco laranja da marca circulam pela praia carregando dois latões de metal de 25 litros cada, um em cada ombro. Num deles, o mate; no outro, o limão com muito açúcar. Tudo bem gelado.
Você escolhe a proporção da mistura e, por R$ 2, toma um copão refrescante. Muita gente torce o nariz. O vendedor faz o mate em casa sabe-se lá com que água e também não há como averiguar a higiene da lata. Mas todos são obrigados a admitir: é gostos demais!

quarta-feira, março 21, 2007

Os mil gols do Baixinho

No Rio não se fala de outra coisa. De repente, a campanha de Romário pelo recorde de mil gols virou uma bandeira da cidade, unindo torcedores de todos os clubes. E não é pra menos.
Dentro de campo, Romário sempre foi um gênio. Ninguém pode negar. Independentemente da conta que se faça dos seus gols – sejam os mil de seus fãs, ou os 900 dos que tentam diminuir a marca –, o Baixinho já escreveu seu nome na história do futebol. Afinal, ninguém mais no mundo, além de Pelé e do alemão Gerd Müller, conseguiu chegar perto dos 900.
A marca do Baixinho, portanto, mostra mais uma vez a força do nosso futebol. Por isso, essa festa é de todos os brasileiros.
Escrevo isso com tranquilidade, pois Romário nunca fez meu tipo de ídolo. Polêmico e arrogante, às vezes até grosseiro, inventou aquelas camisetas ridículas com mensagens, que usava sob o uniforme nos anos 90 e exibia a cada gol marcado. Ídolo verdadeiro conquista empatia com o público pelas atitudes no dia-a-dia. De que adianta mal-tratar o próximo todos os dias e depois escrever mensagens na camiseta? Ayrton Senna, por exemplo, nunca precisou abrir o macacão para mandar recado.
Hoje, porém, Romário está mudado. Muita gente jamais teria tido coragem de abraçar com franqueza a causa dos portadores da Síndrome de Down, como ele fez desde o nascimento da filha Ivy. Essa atitude, um gol do Baixinho que não entra na lista, mas que talvez seja o mais especial de todos, mudou minha opinião a respeito dele. Por isso, e pelas alegrias que nos deus na grande área, ele merece ser reverenciado.

domingo, março 18, 2007

Plantão dos famintos

Todo fim de semana a história se repete. Como a lanchonete não abre e não tem nada por perto da Cidade Nova, os condenados ao plantão ficam sem ter o que comer o dia todo. A solução sempre foi apelar para os deliverys das redes de hamburgueres.
A novidade é que esta semana, ambas deixaram de entregar comida na região. A atendente informa que, devido ao grande número de assaltos, os entregadores não trazem mais comida no bairro. Segundo ela, os bandidos não levam dinheiro; pedem o lanche e, quando o motoqueiro chega, mostram a pistola em lugar de pagar o pedido.
Um colega sugeriu que explicássemos a ela que esses roubos acontecem na vizinhança, mas que nós, aqui na empresa, não roubamos ninguém. Eles podem entregar sossegados que pagamos nossos pedidos. Boa essa.
Claro que ninguém pensou em chamar a polícia. Nem nós, nem as redes de hambúrgueres. Vai ver ficaram com medo de os guardas pedirem um lanchinho de graça também.

sexta-feira, março 16, 2007

Cheiro de chuva...

Depois de 33 dias de seca, começaram a cair agora pouco uns pinguinhos de chuva no Rio de Janeiro... Finalmente. Não é nada forte, ainda, só uma chuvinha de leve. Mas o suficiente para fazer subir do chão aquele cheiro gostoso de chuva fresca na pedra quente.

segunda-feira, março 12, 2007

Lições da Floresta da Tijuca

A descrição choca logo na quinta palavra: "É a maior floresta artificial do mundo", diz o texto num site turístico. Artificial? Como assim? Estamos falando da Floresta da Tijuca, com seus 39 km² de extensão sobre a Serra da Carioca. Em outras palavras: todo aquele verde ancorado na paisagem da Zona Sul do Rio, sob os pés do Cristo Redentor, cobrindo o Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, a Pedra Bonita, o Pico da Tijuca...
O termo 'artificial' talvez não seja o mais correto, já que as espécimes de Mata Atlântica são verdadeiras. Mas o fato é que nem sempre a floresta foi assim. Descobri isso ontem, numa longa caminhada de 15 km pelo Parque Nacional e pelo caminho das Paineiras.
Para explicar a história, é preciso voltar ao Brasil colonial. A chegada da família Real Portuguessa ao Rio (199 anos completados no dia 8 de março) impulsionou o crescimento da cidade e os morros da Serra da Carioca começaram a ser desmatados. A madeira era usada como lenha e, em seu lugar, surgiram lavouras de café.
Todos os rios que abasteciam a cidade nasciam naquelas montanhas e o desmatamento indiscriminado reduziu drasticamente o fluxo de água. Como conseqüência, já no Império, a capital começou a sofrer estiagens. D. Pedro II ordenou, então, o reflorestamento do local, numa atitude pioneira no mundo.
As desapropriações das terras começaram em 1854 e o reflorestamento em 1861, sob o comando do Major Gomes Archer, primeiro administrador da Floresta, que trabalhava com seis escravos. O replantio era feito com espécimes nativas da Mata Atlântica. Em 13 anos, Archer e seus escravos (mais tarde a equipe incorporou 22 trabalhadores assalariados) plantaram 100 mil mudas. De 1874 a 1888, o Barão Gastão d'Escragnolle, segundo administrador da Floresta, introduziu mais 30 mil mudas e começou a transformar o local numa área de lazer. Quem caminha hoje pelas montanhas da Serra da Carioca não é capaz de encontrar diferenças para uma reserva original de Mata Atlântica. A paisagem tem cachoeiras, micos, tudo o que se espera encontrar numa floresta original.
Se você já chegou até aqui, deve estar se perguntando por que é que não coloquei uma foto sequer de toda esta exuberância. É simples. Fui impedido de fazer fotos. Pela violência. No dia anterior à minha visita, 40 pessoas foram assaltadas numa das trilhas do parque. E não foi a primeira vez este ano. Amedrontado, deixei a câmera em casa.
A Floresta da Tijuca é uma prova de que, com vontade política, é possível transformar uma realidade desfavorável e de que negligenciar os problemas não ajuda a resolvê-los. Se nossos governantes se inspirassem no estilo do velho imperador das barbas brancas, talvez vocês pudessem ver as fotos da floresta plantada por ele, em lugar de ler tantos posts sobre mortes e barbaridades, que surgem neste blog com mais freqüência do que eu gostaria.