quarta-feira, maio 30, 2007

Balas e frases perdidas

Amanhã (quinta) faz um mês que a guerra estourou no Complexo do Alemão. A polícia ocupou o conglomerado de favelas por causa do assassinato de dois PMs e desde então já morreram 17 pessoas e outras 79 foram feridas pelas perdidas. Ontem, o secretário de Segurança Pública do Rio, saiu-se com a seguinte frase para explicar as dificuldades que a polícia vem enfrentando no local:
- Não é possível que num local onde moram 130 mil pessoas não chegue uma informação para a ouvidoria, para o Disque-denúncia, enfim, para qualquer órgão, com alguma estratégia do tráfico.
Será que ninguém denuncia nada porque a lei do morro manda matar X-9, 'dedos-de-seta' e colaboradores da polícia em geral? Se a polícia do secretário garantisse a segurança da população, ninguém se furtaria a colaborar. Mas aí viveríamos numa cidade onde a polícia seria eficiente e, nesse caso, ela nem precisaria de delações. Teria inteligência suficiente para descobrir sozinha as estratégias do tráfico.
Não sei o que é pior nessa guerra: a quantidade de balas ou a de asneiras perdidas.

segunda-feira, maio 28, 2007

Telegolpe

Dia desses o telefone toca logo cedo na casa de um amigo. A mãe dele atende:
- Alô.
- Aí, a gente pegou teu filho. Se você não fizer o que a gente mandar ele vai morrer, tá entendendo?
Ela desliga. Levanta da cama e vai até o quarto do filho. Ele dorme profundo, depois da night de sábado. O telefone começa a tocar de novo, ela o acorda, explica o que está acontecendo, ele atende:
- Alô.
- Por que essa vaca desligou? Tá querendo ver o filhinho morto? A gente não tá de brincadeira não.
- Amigo, eu sou o filho dela.
- Aí vacilão, é o outro, é o outro. A gente tá com o outro.
- Ela não tem outro filho...
- Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu

sexta-feira, maio 25, 2007

Telemarketing

O telefone toca logo cedo no trabalho. Eu atendo:
- Alô?
- Bom dia, com quem eu falo?
- Ferdinando.
- Bom dia, senhor Ferdinando. Tudo bem com o senhor?
- Tudo.
- Meu nome é Marcia e estou ligando hoje para o pessoal aí do diário pra estar divulgando o lar de velhinhos H..., do Catumbi. O senhor já conhece?
- Não.
- Pois é, senhor Ferdinando. É um lar que abriga 50 velhinhos, vovozinhos e vovozinhas, que não têm família e também não têm onde morar. Eles precisam muito da sua ajuda. Por isso eu estou ligando para o pessoal aí do diário...
- Olha, infelizmente eu não posso ajudar nesse momento.
- Mas não precisa fazer nenhuma doação grande, qualquer quantia em dinheiro já é suficiente...
- Realmente não posso ajudar nesse momento...
- É muito difícil pra mim, senhor Ferdinando, estar acreditando que o senhor, trabalhando no diário, não possa estar tendo nem um real pra nos ajudar.
- Você tem razão, Márcia. A verdade é que eu não dou dinheiro para quem eu não conheço.
- Ah, senhor Ferdinando. Logo se vê que o senhor não conhece o nosso lar de velhinhos, não sabe a tristeza que é um velhinho abandonado fazendo suas necessidades na própria roupa por falta de fraldas...
- Olha Márcia, eu entendo que o seu trabalho seja justamente esse, de ser insistente, mas eu não vou dar um centavo. Porque odeio essas ligações com texto decorado que vocês fazem e todos esses gerundios errados...
- Ah, senhor Ferdinando. Quer dizer que o senhor preferia que as empresas de telemarketing estivessem fechando, desempregando milhares de pessoas? O senhor sabia que esse setor hoje em dia é um dos que mais esta empregando no país? Se o senhor nunca fizer doações, nós ficaremos todas desempregadas.
- Não acredito nisso! Chega! Vou desligar este telefone!
- O senhor não seria capaz de estar fazendo uma falta de educação dessas, não é mesmo....
- Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu....

quarta-feira, maio 23, 2007

Miniconto: Relâmpago

Quando tudo parou, duas janelas os separavam. Trocaram olhares por alguns segundos. Os sinos soaram, as portas fecharam, e cada trem foi pra um lado.

segunda-feira, maio 21, 2007

A orquestra do 17º

As flautas soavam doce, os violões e cavaquinhos solavam em conjunto macio e os tambores e bumbos marcavam presença suave ao fundo, como alguém que anda pisando nas pontas dos pés. Sentado atrás de uma mesinha acanhada, o professor regia a pequena orquestra na sala de janelas grandes do 17º andar, por onde entrava um sol tímido de inverno. Entre as estantes com as partituras da música, chinelos de dedo marcavam o ritmo do andamento. Em todos os rostos, alguns mais adolescentes, outros já mais adultos, uma luz especial denunciava a satisfação por estar ali, vivendo aquele momento, criando aqueles sons. Construindo presentes e futuros com instrumentos de sopro, corda e percussão.
Do lado de fora das grandes janelas, a realidade daqueles músicos estava bem concretizada em milhares de casinhas, casões e até prédios feitos de tijolos aparentes. Construções precárias que trepam morro acima de forma desordenada formando aquele gigante que nos acostumamos a ver pela tevê como um câncer crônico enraizado na beira da estrada Lagoa-Barra. Um problema sem dono e sem rosto, mas com nome famoso: Rocinha.
Eu nunca tinha chegado tão perto de uma favela. E embora tenha passado ao largo (eu não entrei lá, só fui do outro lado da rua, no prédio da Prefeitura, onde funciona a Escola de Música da Rocinha), senti pela primeira vez que ela tem vida, tem alma. Porque conheci naquela sala, os verdadeiros guerreiros da Rocinha, gente que luta batalhas diárias para viver com dignidade, sem fazer mal a ninguém. Guerreiros que usam seus intrumentos para dispara acordes de harmonias que alimentam a vida.

sexta-feira, maio 18, 2007

Detalhes (como diria o Rei)

Então eu acordo às oito da manhã e passo o dia preenchendo planilhas do projeto que estou liderando, logo eu que só queria escrever boas histórias quando fui fazer jornalismo, às voltas com a avalanche de idiossincrasias do excel, e nem percebo que já escureceu lá fora, tenho de sair correndo para não perder a natação, onde descubro, ao chegar, que esqueci de levar os óculos, mas mesmo assim caio na piscina, e dois mil metros de braçadas depois chego em casa, sento no chão para retalhar a canga africana que vai servir de forro para os convites da festa, e quando meu indicador começa a reclamar da relação sufocante com o anel da tesoura, percebo que já é uma e meia da manhã, mas ela decide me contar sobre as aulas do curso de alimentação viva que está fazendo na PUC, onde ao final de cada aula ela tem de escrever sobre o dia, e hoje a professora devolveu os textos, porque o curso está no fim, quer que eu leia pra você?, por que não?, e ela então me sai com esta pérola, escrita na aula do dia 18 de abril:
- Agradeço ao aipim, ao pimentão, ao coentro, à salsa, à cebolinha, à lentilha, à pimenta, ao suco de limão e ao azeite de oliva, pela riqueza de cores, sabores e aromas que deram aos nossos bolinhos.
Não consigo mais parar de rir e isso me faz esquecer o excel, as planilhas, o óculos da natação, a tesoura matando meu indicador. Dá pra entender agora, por que eu quero me casar com ela?

quinta-feira, maio 17, 2007

Maldito vício

A responsável por me apresentar a novidade foi M., e eu a usei pela primeira vez na festa de um ano do Estado de Circo. Como sempre acontece nesses casos, ninguém me alertou para os riscos que corria. Quando menos esperava, já estava viciado. Não sei se o inventor dessa maravilha é o Borges (o dono do Estado de Circo), mas se for, ele merece reconhecimento mundial. O negócio é tão simples quanto genial.
A primeira a admitir o vício foi a M., e agora sigo pelo mesmo caminho. Descontrolado, vou começar a usar também na Casa da Lagoa. O nome da droga? Miniconto. Proposta: escrever uma história com começo, meio e fim em, no máximo, 150 toques. Aos meus poucos leitores, fica a promessa de que tentarei não abusar da fórmula. Lá vai o primeiro.

Miniconto: Romeu e Julieta

Aprendera a vida toda que aquilo, sim, era poder. Mas agora, com a faca e o queijo na mão, era incapaz de realizar seu desejo. Faltava-lhe a goiabada.

quarta-feira, maio 16, 2007

Como nascem as piadas

Assim como vários amigos já registraram em seus blogs, eu também não dou a mínima para o que pensa, se é que pensa, o papa Bento XVI. Mas confesso que me surpreendi com o fato do alemão de saia falar português, e ainda por cima com bom sotaque. Comentei com uns amigos e deu-se o seguinte diálogo:
(Eu) - Você viu que o papa fala português? E fala bem.
(Amigo1) - Fala bem mesmo. Melhor que o Lula.
(Silêncio. Gargalhada).
(Amigo2) - Deixa de zoeira. Ele não fala, só lê aquilo tudo.
(Amigo1) - Lê? Papa 2, Lula 0.
(Gargalhada geral.)

terça-feira, maio 08, 2007

Santuário ameaçado

O seqüestro de um jovem estudante, desvendado na semana passada pela políca, está chocando os moradores da Barra da Tijuca. Não por ter sido seqüestrado mais um jovem de classe média-alta, isso já é comum no Brasil todo, mas pelo fato de o crime ter sido cometido por quatro porteiros de condomínios do Jardim Oceânico, um dos bairros pioneiros do santuário contra a violência em que foi transformada a Barra.
De repente, os moradores dos condomínios descobriram que, além de passarem o dia expostos à violência banal das ruas em que transitam para ir ao trabalho, também podem estar dormindo com o inimigo do lado de dentro de seus portões inexpugnáveis. Para piorar a situação, a polícia diz que os porteiros seqüestradores iriam executar a vítima assim que o resgate fosse pago. Um dos integrantes da quadrilha trabalhava no condomínio onde o estudante morava e havia sido reconhecido.
Pra mim o episódio é emblemático do que as pseudo-intelectualidade da sociologia gosta de chamar de "esgarçamento do tecido social". Os seqüestradores não eram traficantes ou assaltantes favelados, os vilões tradicionais que a sociedade carioca já se acostumou a tolerar. Eram trabalhadores, empregados com carteira assinada, moradores de casas nas cercânias, que recebiam seus salários religiosamente no fim do mês. Todos eles tinham carros próprios, um inclusive tinha também moto, e ninguém ali estava passando necessidade extrema para imaginar um seqüestro, crime hediondo e inafiançável, que ainda por cima terminaria em homicídio.
Os simplistas dirão que eles eram monstros sem coração, movidos pela ganância. É o caminho mais fácil para virar a página do jornal sem fazer nada. Porque o caso, claramente, é produto da desigualdade de renda insuportável deste país. Os mais ricos não querem dividir nada, mas não percebem que já pagam um preço alto, seja em aparatos de segurança, seja em vidas de parentes e amigos assassinados, pela riqueza que só querem acumular.

sábado, maio 05, 2007

Proibido Proibir

O título do mais recente filme do chileno Jorge Durán remete a uma produção de época, ambientada nos tempos duros da ditadura militar. Talvez tenha sido proposital. A história de Proibido Proibir retrata abusos de autoridades policiais corruptas contra jovens, mas desta vez no Rio de Janeiro conflagrado dos dias de hoje. Os jovens também não são tão idealistas como os da luta armada dos anos 70.
Pra quem se interessar, faço abaixo uma longa resenha. Mas a razão principal deste post não é falar dos erros e acertos do filme e sim de uma situação emblemática que surge na tela (e que está exposta na foto acima). Num determinado momento da trama, policiais matadores perseguem inocentes numa favela. Os atores contracenam vestidos com fardas oficiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro e usam, inclusive, uma viatura real no momento em que levam as vítimas para uma execução num lixão.
Pode ser que eu esteja enganado, mas não me lembro da Polícia Militar de algum outro Estado permitir o uso de fardas ou viaturas oficiais em sets de filmagens, nem quando a trama, em tese, era neutra à corporação. Muito menos quando retratava situações desfavoráveis à imagem da instituição, como é o caso em Proibido Proibir.
O fato de a PM do Rio permitir isso mostra que nem a alta cúpula se preocupa com a imagem da corporação. O que ajuda a entender a situação de descalabro em que se encontra a polícia carioca, sempre envolvida em escândalos de corrupção, e cuja tropa é acusada de liderar mílicias justiceiras nos morros da cidade. Por coincidência, assisti ao filme no mesmo dia em que o tiroteio entre policiais e traficantes cessou na Vila Cruzeiro, favela da Penha. E para desmoralização da tropa, o cessar fogo foi ordenado por chefões do crime encarcerados no presídio de segurança máxima de Bangu.

A RESENHA
O drama principal de Proibido Proibir se desenrola em torno da relação entre Paulo (Caio Blat), Letícia (Maria Flor) e León (Alexandre Rodrigues). Paulo é um estudante de medicina talentoso e porra-louca, que vive drogado a maior parte do tempo. Ele divide apartamento na periferia do Rio com León, estudante de sociologia, negro, o certinho da dupla, que namora Letícia, uma linda estudante de arquitetura de classe abastada. Por quem Paulo obviamente se apaixona. Pra piorar, ele começa a ser correspondido por Letícia.
O filme estaria bem resolvido se Durán tivesse se contentado em trabalhar esse trio amoroso. Mas o cacoete da denúncia social (pra quem não lembra, são dele os roteiros de Lúcio Flábio, Passageiro da Agonia e Pixote, entre outros) o fez colocar a história do trio num drama paralelo que expõe as chagas do caos social do Rio.
No Hospital Universitário, Paulo conhece Rosalina (Edyr Duqui, em maravilhosa interpretação), uma paciente terminal. E promete a ela encontrar seus filhos. O problema é que um deles foi assassinado por policiais corruptos e o outro está jurado de morte. O trio então resolve tirá-lo da favela e é aí que o roteiro se perde numa profusão de pontas soltas e tentativas de soluções quase infantis.
Nada disso, porém, me faria desaconselhar os amigos a assistir o filme. Os 100 minutos da fita passam em ritmo acelerado. Só os muito exigentes sairão realmente desapontados da sala.

quinta-feira, maio 03, 2007

Coisa séria mesmo

Eles se consideram os Maiores do Mundo, time Mais Querido, chamam a camisa de Manto Sagrado... Lá onde eu trabalho, os flamenguistas são maioria. E são os que mais azucrinam a vida de todos os torcedores de qualquer outro time. Vasco perde? Eles arrebentam na tiração de sarro. Fluminense empata? Chupa Fluzão, gritam em coro. Botafogo escorrega? Ah, Fogão não é grande, ironizam. E não ficam só nos times do Rio não. Se Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Portuguesa (!) tropeçam, lá vem gozação dos rubro-negros. Até quando o Milan faz gol no Manchester eles azucrinam o garoto que um dia disse gostar de futebol inglês. Em resumo, além de serem os maiores, são também os mais chatos do mundo.
Mas aí, aconteceu essa tragédia na quarta-feira. O Defensor, um time de segunda divisão do Uruguai, que até hoje só ganhou três campeonatos nacionais na nossa ex-colônia (até o River Plate uruguaio, que deixou de existir em 1930 tem mais títulos) ignorou o Manto Sagrado e enfiou três gols no Maior do Mundo, no Mais Querido. Clima tenso na redação. Que quase explodiu em selvageria quando um tricolor carioca ameaçou fazer uma graça....
É, além de serem os maiores e mais chatos do mundo, eles também são os piores esportistas. Pelo menos lá onde eu trabalho.... Talvez na Geral do Maracanã sejam mais civilizados.