quinta-feira, setembro 07, 2006

Noturnas

Além de longas jornadas de trabalho, as noites de quarta-feira sempre reservam surpresas na volta pra casa. Sem carro, invariavelmente recorro aos táxis amarelinhos do Rio. E depois de 12, às vezes 15 horas lendo histórias de esporte, volto na madrugada ouvindo incríveis histórias de taxistas.
A de ontem encontrou seu fio na inocente pergunta: "Onde vocês ficam parados durante a madrugada? O ponto aqui no centro não é perigoso?" O motorista engatou a segunda com um caso recente, aconteceu durante a última guerra entre os morros de São Carlos e Querosene, em julho (leia o post "Atrações da Cidade Maravilhosa").
O relógio batia 2 da manhã numa noite morna quando um negro alto, ouro grosso no pescoço e anel de São Jorge no anular, bateu no vidro. "Dá pra me levar no alto do São Carlos, piloto?" O piloto sentiu o terreno. "Bicho tá pegando lá hoje." O sinistro acalmou. "Sem caô, piloto. Sou morador, tá na paz."
Sabe como é a vida pela rua, ele expliava. Vai dizer não? Depois o cara manda no morro, já viu. Passageiro embarcado, o carro começou a subir o morro. No caminho, o sinistro foi dando a letra. A guerra estava pegando e tinham desovado 13 corpos no valão da Presidente Vargas. Nem a polícia sabia ainda. De repente, no meio do papo, dobram a viela e errada e dão de cara com o caveirão.
Pra quem não sabe, caveirão é o apelido carinhos dos blindados usados pela polícia para entrar nas favelas. Os PMs ficam entrincheirados dentro, fazendo guerra psicológica com frases do tipo "Eu vim buscar a sua alma".
O negro, ao ver o caveirão, ficou tenso. "Faz a volta, piloto. Faz a volta." O taxista obedeceu, voltou e desembarcou o sinistro algumas quadras abaixo. Na descida, deu carona a uma moradora que tinha saído à rua para avisar sobre a presença do caveirão. "Vi vocês passando e tentei avisar. Se o caveirão pega você com aquele um, tava enroscado. O homem é do movimento."
O motorista desceu aliviado e se sentindo importante. Tinha levado um graúdo, o que lhe garante moral e faz presença no ponto. Tratar bem os bandidos é importante, doutor, ele explicava, enquanto eu pagava a corrida. Outro dia peguei dois e um deles disse que estava me reconhecendo. Na hora de descer, pagou e me avisou. "Ia meter uma bronca contigo, mas como você é maneiro, vou te liberar." Tratar bem os bandidos garante a segurança.

Um comentário:

Ramalho disse...

Esse poder que emana do terror é muito antigo. Atualmente, temos muitas fontes de medo: polícia, bandido, religião, futebol, política, trabalho........enfim, o segredo para se viver em equilíbrio é ser um bom motorista.
Beijo