segunda-feira, março 12, 2007

Lições da Floresta da Tijuca

A descrição choca logo na quinta palavra: "É a maior floresta artificial do mundo", diz o texto num site turístico. Artificial? Como assim? Estamos falando da Floresta da Tijuca, com seus 39 km² de extensão sobre a Serra da Carioca. Em outras palavras: todo aquele verde ancorado na paisagem da Zona Sul do Rio, sob os pés do Cristo Redentor, cobrindo o Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, a Pedra Bonita, o Pico da Tijuca...
O termo 'artificial' talvez não seja o mais correto, já que as espécimes de Mata Atlântica são verdadeiras. Mas o fato é que nem sempre a floresta foi assim. Descobri isso ontem, numa longa caminhada de 15 km pelo Parque Nacional e pelo caminho das Paineiras.
Para explicar a história, é preciso voltar ao Brasil colonial. A chegada da família Real Portuguessa ao Rio (199 anos completados no dia 8 de março) impulsionou o crescimento da cidade e os morros da Serra da Carioca começaram a ser desmatados. A madeira era usada como lenha e, em seu lugar, surgiram lavouras de café.
Todos os rios que abasteciam a cidade nasciam naquelas montanhas e o desmatamento indiscriminado reduziu drasticamente o fluxo de água. Como conseqüência, já no Império, a capital começou a sofrer estiagens. D. Pedro II ordenou, então, o reflorestamento do local, numa atitude pioneira no mundo.
As desapropriações das terras começaram em 1854 e o reflorestamento em 1861, sob o comando do Major Gomes Archer, primeiro administrador da Floresta, que trabalhava com seis escravos. O replantio era feito com espécimes nativas da Mata Atlântica. Em 13 anos, Archer e seus escravos (mais tarde a equipe incorporou 22 trabalhadores assalariados) plantaram 100 mil mudas. De 1874 a 1888, o Barão Gastão d'Escragnolle, segundo administrador da Floresta, introduziu mais 30 mil mudas e começou a transformar o local numa área de lazer. Quem caminha hoje pelas montanhas da Serra da Carioca não é capaz de encontrar diferenças para uma reserva original de Mata Atlântica. A paisagem tem cachoeiras, micos, tudo o que se espera encontrar numa floresta original.
Se você já chegou até aqui, deve estar se perguntando por que é que não coloquei uma foto sequer de toda esta exuberância. É simples. Fui impedido de fazer fotos. Pela violência. No dia anterior à minha visita, 40 pessoas foram assaltadas numa das trilhas do parque. E não foi a primeira vez este ano. Amedrontado, deixei a câmera em casa.
A Floresta da Tijuca é uma prova de que, com vontade política, é possível transformar uma realidade desfavorável e de que negligenciar os problemas não ajuda a resolvê-los. Se nossos governantes se inspirassem no estilo do velho imperador das barbas brancas, talvez vocês pudessem ver as fotos da floresta plantada por ele, em lugar de ler tantos posts sobre mortes e barbaridades, que surgem neste blog com mais freqüência do que eu gostaria.

Um comentário:

Celina disse...

Taí um ponto turístico do Rio que eu não conheço, mas sempre tive vontade de visitar. Pena saber que, para variar, quando sair de lá também levarei como lembrança apenas as imagens na memória...