sábado, julho 28, 2007

O circo do caos aéreo

O picadeiro do caos aéreo virou um circo de bizarrices depois da tragédia que matou 200 pessoas em São Paulo. Cada um apresenta uma idiotice pior que a outra como solução para a ameaça de Congonhas. Se o governo pode apresentar como panacéia a construção de um novo aeroporto na cidade (será que eles estão pensando em usar a Avenida Paulista?), então eu, um paulistano morador do Rio - e usuário freqüente da ponte aérea - também posso apresentar as minhas bobagens. A seguir, as colaborações desta Casa da Lagoa:

1. Mudança de Aeronaves - Vamos deixar claro: a pista de Congonhas não é perigosa. O aeroporto existe desde 1936 e só registrou dois acidentes graves até hoje. E o primeiro, como ficou provado, por falha da aeronave. O que torna Congonhas uma ameaça é a inépcia de um governo que se preocupa demais com os interesses das "companheiras aéreas" e libera uma pista para pousos e decolagens com a reforma incompleta. (Seria o equivalente a uma montadora colocar na rua um carro sem o freio instalado.) A discussão sobre o tamanho da pista (que já fez até o prefeito sair dizendo que vai desapropriar o Jabaquara) é uma idiotice. Nos Estados Unidos existem milhares de aeroportos regionais com pistas iguais ou menores. Como lá existe lei, as voadoras são obrigadas a operar com aeronaves médias, o que faz a alegria da Embraer e da Bombardier. A primeira proposta, então é simples: se a pista é curta para boeings e airbuses, basta o governo obrigar as "companheiras aéreas" a substituí-los por jatos comerciais médios.

2. Trem Bala - Eu admito, essa é uma solução em causa própria. Mas uma linha de trem rápido ligando o Rio a São Paulo ajudaria a desafogar o tráfego áereo em Congonhas. O governador do Rio já conseguiu três consórcios, dois europeus e um japonês, interessados em gastar US$ 9 bilhões para construir o ramal e colocar os trens em operação. Estima-se que a viagem entre a Central do Brasil e a Estação da Luz levaria 1h15 e a passagem custaria cerca de R$ 110,00. Quanto o governo federal precisa gastar? Nada, basta autorizar os consórcios a usarem os ramais abandonadas da Rede Ferroviária Federal para construir a linha. Por que não sai, então? Porque se o governo não coloca dinheiro nenhum, os políticos não têm como fazer suas caixinhas. Sob esse ponto de vista, é mais interessante gastar R$ 3 bilhões dos nossos impostos num novo aeroporto em São Paulo.

Nenhuma das idéias desta Casa da Lagoa jamais seria cogitada por uma razão clara: ambas contrariam os interesses das "companheiras aéreas", que distribuem cheques gordos para mais gente do que os grampos da PF são capazes de imaginar. Para encerrar, uma pergunta: será que o presidente voa no seu Airbus 319 com o reversor pinado?

quinta-feira, julho 26, 2007

A chama apagou

A ilha da fantasia a que se referia o primeiro post deste blog virou ainda mais fantástica desde que chegou ao Maracanã a tocha com a chama pan-americana. De repente, os cariocas redescobriram que o Rio também é legal à noite. Voltaram a caminhar pelos calçadões depois do pôr-do-sol, a correr na ciclovia da lagoa, a sair de seus bunkers fortificados onde se protegem da violência (real ou imaginária) quando não existem Jogos internacionais na cidade. Nem Força Nacional de Segurança armada em cada esquina.
Os crimes sumiram dos noticiários; os repórteres de polícia do maior jornal da cidade puderam guardar seus coletes à prova de bala nos armários por duas semanas; e o carro blindado da reportagem ficou na garagem da redação. Até parecia uma cidade normal de novo.
Mas aí, como nada é perfeito, o tempo virou. E a chuva chegou apagando a chama no Maracanã. Foram só 15 minutos sem pira acesa, na manhã de terça-feira, mas foi suficiente. No final do dia, o som dos tiroteios voltou a encher o ar da Cidade Nova. Só para lembrar que está próximo o fim do Pan de R$ 4 bilhões do Rio e, como sempre acontece, tudo vai voltar ao normal.

segunda-feira, julho 16, 2007

Achincalhe oficial

Sabe aquela velha imagem que se faz dos taxistas, de que estão sempre prontos a ludibriar turistas desavisados nas grandes cidades do mundo? Aquela que piora quando a cidade em questão é o Rio, onde a categoria tem fama de enganar ainda mais os turistas desavisados? Pois é, a prefeitura da Cidade Maravilhosa, numa tentativa de acabar com as maledicências sobre os motoristas de praça, decidiu oficializar o achincalhe. Graças a um decreto do alcaíde, durante os Jogos Pan-Americanos os táxis estão autorizados a cobrar bandeira 2 a qualquer hora do dia, qualquer dia da semana. Afinal, a cidade está cheia de turistas e, como eles podem nunca voltar, o melhor é tirar o máximo deles agora. E, convenhamos, turista existe para ser tungado mesmo. Mas não se desespere. Pela tarifa em bandeira 2, o turista e todos os moradores da cidade que precisam do serviço serão transportados em desconfortáveis Santanas velhos e fedidos, com bancos puídos. Só no Rio de Janeiro mesmo...

domingo, julho 15, 2007

Juras de amor

Na hora das declarações de amor não tinha padre, nem alegria nem tristeza, nem saúde nem doença. Tirando um papelzinho amassado do bolso, ela leu:
- Se eu tivesse que prometer algo a você, o que seria? Não posso prometer que você estará sempre confortável... Porque o conforto trás tédio e desconforto. Não posso prometer que todos os seus desejos serão realizados... Porque desejos, sejam eles realizados ou não, trazem a frustração. Não posso prometer que sempre haverá bons momentos... Porque são os maus momentos que nos fazem apreciar a alegria. Não posso prometer que você será rico, famoso ou poderoso... Porque todos eles podem ser o caminho para a miséria. Não posso prometer que sempre estaremos juntos... Porque é a separação que torna a união tão maravilhosa. Entretanto, se você estiver disposto a caminhar comigo, se você estiver disposto a valorizar o amor acima de tudo, eu prometo que essa será a vida mais rica e plena possível. Eu prometo que sua vida será uma eterna celebração, se você estiver disposto a caminhar em direção aos meus braços, se você estiver disposto a morar dentro do meu coração, você encontrará aquele por quem esteve esperando para sempre...Você encontrará a si mesmo em meus braços... Eu prometo.
Ele, sem papelzinho na mão, respondeu mais ou menos assim:
- Minha vida é escrever, por isso não escrevi nada para te dizer. Queria espaço para a espontaneidade. Porque eu sabia que assim te visse entrando por aquele tapete, sentiria a mesma emoção que sempre senti a cada vez que nos reencontramos. (E olha que não foram poucas!). A emoção que me fez saber, desde a primeira vez em que te vi, que era ao seu lado o lugar em que eu queria estar; o lugar em que eu seria mais feliz.
E assim juraram seu amor um para outro, sem lugar para que a morte os separe.

domingo, julho 08, 2007

Cristo Maravilha


Há alguns meses, quando começou a campanha Vote Cristo, eu torci o nariz. Achei ufanista e exagerado comparar a estátua com lugares como a muralha da China ou as cidades de Petra e Machu Pichu.

Nas últimas semanas, porém, meu coração foi amolecendo. O tempo todo, de lugares e momentos diferentes da minha rotina, ele estava lá, braços abertos, me acolhendo. Uma onipresença quase divina.

Foi aí que, de coração aberto, consegui enxergar a maravilha do Cristo: mais que uma obra gigante (o que sem dúvida ele é), o Cristo é grandioso em sua proeza. Que outro monumento religioso participa de maneira tão presente no dia-a-dia de tanta gente? Ele entra na casa das pessoas, no almoço de pé no balcão da casa de sucos, na janelinha gelada do avião (e no janelão suado do ônibus), no jogo de futebol e até no desfile carnaval. Sério: você consegue vê-lo ao cruzar o sambódromo, sem falar nos blocos de bairro que surgiram bem debaixo dos seus braços (o mais famoso é o Sovaco de Cristo - amo esse nome!).

Voto Cristo, portanto, porque não tem melhor símbolo da fé brasileira: acolhedora, de braços abertos, irreverente, distante das igrejas e perto da natureza. E, acima de tudo, absolutamente cotidiana. A espiritualidade ia passar direto pela vida de muito carioca não fosse o Cristo ali no alto, lembrando-o que o buraco é mais em cima! Isso, pra mim, já valeria o voto no redentor.

PS: Numa boa, os chineses são invejáveis em sua genialidade e determinação para fazer uma muralha daquelas. Mas não sei se chamaria de "maravilha do mundo moderno" a um muro com tantas motivações militares e segregacionistas. Não é desse tipo de símbolo que a civilização precisa. Sou mais o meu Cristo cabeludo abrindo os braços para o mundo todo.

sexta-feira, julho 06, 2007

10 cliques da casa da lagoa para comemorar um ano do blog!











Pra comemorar um ano de blog, a casa da lagoa finalmente apresenta seus moradores numa seleção de 10 imagens muito especiais!

Simplicidade

Camisetinha rosa com short azul, camisetinha laranja com short vermelho, camisetinha amarela com short verde, camisetinha azul sem short, mas com uma zebrinha de plástico na mão. Pulando ondas na beira do mar e rodando e "caindo" de bunda na água e levantando e pulando ondas de novo. De vez em quando, uma pausa para a zebrinha beber água. A platéia vazia é a praia de inverno. Água fria? Quem liga? Preocupação é a próxima brincadeira, depois que se cansarem de tantas gargalhadas. Em que momento da vida mesmo a gente perde essa simplicidade?

quinta-feira, julho 05, 2007

E não é que passou um ano?

E eu nem me dei conta do aniversário da Casa da Lagoa. Um ano de vida digital, completados no início de julho. Nesse tempo, foram 103 posts ( com este). Caraca, como passa rápido....

quarta-feira, julho 04, 2007

Dezessete anos

Houve tempo em que eu me enchia de orgulho no 1º de julho. Desta vez, passou em branco, mas eu costumava estufar o peito porque nesse dia colocava mais uma marquinha na conta do tempo de profissão. Este ano, em que esqueci a data, completei dezessete anos de redação.
Dezessete anos perseguindo vírgulas e pontos fora de lugar; Dezessete anos atrás de acentos fujões e ignorâncias ortográficas e gramaticais infiltradas, agentes a serviço do mau texto; Dezessete anos vendo o mundo passar nas agências de notícias (pra vocês terem uma idéia de quanto tempo é isso, quando eu comecei elas ainda enviavam telex).
Será o caso de comemorar?

sexta-feira, junho 29, 2007

Gente invisível

Você já parou para pensar na quantidade de gente invisível que atravessa o seu caminho durante um dia? Essas pessoas com quem cruzamos na rua, dividimos o banco do ônibus ou o ambiente do trabalho e nem notamos? Há casos extremos em que elas freqüentam nossas casas (para fazer serviços que nossos bacharelados rejeitam) sem que lhes dispensemos dois minutos de conversa. É uma forma de violência.
Eu procuro sempre notar as pessoas invisíveis. Os seguranças da rua onde moram, por exemplo, espantavam-se quando eu passava por eles dando bom dia. Agora já se acostumaram e quando me vêem, cumprimentam antes. Os motoristas da linha 110, que tomo todos os dias, me olhavam como um ET no começo, quando eu subia no ônibus cumprimentando. Agora também já me conhecem e algumas vezes esperam no ponto, quando vêem que estou chegando.
Quanto mais gentileza genuína distribuímos, mais gentileza recebemos de volta. É um círculo virtuoso. Aprendi isso com os meus pais, que sempre valorizaram as pessoas pelo que elas são e não pelo que têm ou pela grife que usam. E eles nunca precisaram me dar uma aula sobre o assunto. Aprendi pelo exemplo, porque eles agiam assim.
Todo mundo, por mais simples que seja, tem uma história para contar e algo de sua experiência de vida para ensinar. Precisamos recuperar a capacidade de valorizar isso. Para evitar, no futuro, que mais monstros bem nascidos se achem no direito de espancar outro ser humano (que para eles não significava nada, era apenas uma empregada doméstica) num ponto de ônibus na Barra da Tijuca.

sexta-feira, junho 22, 2007

Essa eu nunca tinha visto

Lá estava eu na plataforma da estação Botafogo, um olho no relógio e outro no trilho que se perde na curva do túnel (a luz do farol chega antes do som do trem), quando percebi que estava vindo uma composição. Fiquei contente, já achando que poderia desmentir a verdade incontestável de que, quando a gente está atrasado, o metrô sempre demora mais pra passar. Mas aí percebi que não se tratava de um trem comum. O treco que estava chegando era apenas uma locomotiva com uma cabine para o condutor e uma carroceria, provavelmente um carro de manutenção. Quando entrou na estação, ele diminuiu a velocidade ao mínimo e passou lentamente, para exibir, pasmem, um painel em forma de garrafa de Coca-Cola Zero. Eu com pressa na plataforma e a Coca-Cola Zero lá, desfilando calmamente, atrasando o meu próximo trem... Jurei só beber Pepsi pelos próximos seis meses!

terça-feira, junho 19, 2007

Tava escrito na fita...

Como nem todos os meus cinco leitores virtuais estavam no arraial junino da Lagoa, vale uma explicação. No começo, ainda antes da chuva (que era de verdade), teve dança das fitas. Todos os presentes eram convidados a escrever mensagens aos noivos na fitas coloridas que, depois, viraram adereços de pescoço... Então, vou começar a publicar, aos poucos, algumas dessas mensagens. A primeira, como não poderia deixar de ser, justamente da minha leitora número 1, M.:

"Que o alto astral e os ideais da Casa da Lagoa se espalhem pelo mundo e que vocês se realizem, sejam felizes e tenham muita saúde e paz. O relacionamento de vocês e o sentimento que têm um pelo outro são inspiradores. Beijos da amiga que torce o tempo todo por vocês."

Estranho

De repente todos os blogs que costumo visitar silenciaram juntos. Meus amigos virtuais sumiram. Terá este mundo virtual se acabado e o meu plug virtual foi o úncio que Matrix esqueceu de desligar? Estranho...

O gol número 1.500

Este site está perto de completar um ano de vida, mas eu só descobri a maravilha do Sitemeeter em março passado... Por isso, a contagem de visitantes não reflete a realidade. Mesmo assim, quero agradecer aos meus cinco leitores fiéis porque a Casa da Lagoa atingiu hoje, às 11h05, a marca de 1.500 visitas desde que o sitemeter foi instalado. O visitante de número 1.500, um desavisado morador de Columbia, Washington D.C., chegou à esta Casa depois de digitar no site de buscas do Google a sentença "braz pizzaria rio", que o enviou diretamente para este post de 22 de abril. Obrigado a todos pela presença.

segunda-feira, junho 18, 2007

Festa na Lagoa

Falta menos de um mês para esta Casa virtual completar um ano, mas a festa já rolou na noite sem lua de junho, à beira da Lagoa, como não poderia deixar de ser. Não teve cobra nem fogueira, mas a chuva e os noivos, pelo menos esses, eram de verdade. E a quadrilha, toda vestida de branco, dançou até o último acorde do sambinha dos carolas de Niterói, tomando caipirinhas malabares, sucos verdes e degustando comidinhas vivas e nem tanto... Obrigado a todos os que prestigiaram o arrial!

terça-feira, junho 12, 2007



Foi com muito orgulho que descobri que esta Casa da Lagoa foi triplamente indicada, pela M., pela Vivi e pelo Don Rodrigone, para o "Thinking Blogger Award", uma premiação simbólica proposta pelo The Tinking Blogger para blogs que fazem pensar. Pelas regras do prêmio, eu agora devo indicar outro cinco blogs que fazem pensar. Como a lista extensa, vou roubar criando a categoria hors concours, na qual enquadro desde já os sítios Le Bal Masqué, Tudo a Declarar e Como se Fosse Sábado, devidamente premiados por clamor popular. E faço cinco novas indicações:



1. Revelando - Espaço onde a imprevisível Sharon verde poesia em letras e imagens cotidianas.

2. Terapia Zero - O sítio especial de uma amiga freudiana que odeia divãs (será?).

3. Diz que fui por aí - É muito mais que um blog. Na verdade, é uma Kombi (ou era, se visitarem vocês vão entender) que está redescobrindo o Brasil.

4. Jornal das Pequenas Coisas - O delicioso espaço onde Rita Apoena, como diz a Sharon do Revelando, "sempre sabe como tornar doce a vida tantas vezes sem açúcar".

5. Crônicas de Guardanapo - André Debevc vai com tanta precisão ao ponto certo que até parece que ele nos conhece e sabe o que passa pela nossa cabeça.

Miniconto: Amor idealizado

Talvez fosse, talvez não... Mas depois que morte a impediu de viver a história, ela passou a ter certeza de que fora ele o grande amor da sua vida.

segunda-feira, junho 11, 2007

Tá tudo dominado

Meu sonho era usar este espaço para textos saborosos, divagações sentimentais, mas minha veia jornalística não resiste... Dados de um estudo do ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho revelam que, em 2006, a polícia do Rio de Janeiro efetuou 16.543 prisões em todo o Estado.
O que vocês acham? É muito, pouco, mais ou menos? Então vamos lá.
Segundo o mesmo estudo, a polícia de São Paulo, onde a violência atinge níveis semelhantes aos do Rio (quem não concordar pode deixar comentário espinafrando), foram efetuadas, no mesmo período, 128.135 prisões.
Gostaram do número? Já estão tentados a rasgar elogios à corporação paulista? Calma.
Em Nova York, onde a violência é infintamente menor, foram efetuadas 340 mil prisões em 2006. Isso mesmo, os meganhas yankees prenderam 20 vezes mais que seus colegas da Guanabara.
Alguém ainda quer saber por que a criminalidade está fora de controle há duas décadas no Brasil?
Agora sim eu entendo a razão de, em um ano meio morando no Rio, nunca ter visto uma viatura de polícia com a sirene aberta no trânsito. Como dizem por aqui, "tá tudo dominado".

domingo, junho 10, 2007

Carnaval dos Bicheiros

Desde fevereiro não era novidade para os poucos (mas fiéis) leitores desta Casa da Lagoa a febre que representa o Carnaval no Rio de Janeiro. As críticas feitas naquele post chamavam atenção para o fato de que a festa era patrocinada pela contravenção. Hoje, a intervenção "heterodoxa" dos bicheiros estampa o alto da primeira página d'O Globo. Quase com o mesmo destaque das falcatruas do irmão e do compadre do presidente da República.
Para quem não teve a chance de ver, um breve resumo: grampos feitos pela Polícia Federal flagraram três dos "empresários do jogo" oferecendo propinas a jurados para que dessem a vitória à Beija-Flor. Os que se ousaram se recusar a pegar a caixinha, foram ameaçados de morte por um pistoleiro a serviço da máfia.
Como dizem por aqui, todo mundo já sabia que isso acontecia. Até hoje, porém, ninguém tinha gravado.

sábado, junho 02, 2007

Miniconto: Férias na Casa da Lagoa

Perdia cabelos de sol a sol, estressado no trabalho. Um dia fez as contas, comprou passagens, botou a mochila nas costas e foi-se embora pra Itacaré.

sexta-feira, junho 01, 2007

Na vitrola, Caetano canta Nature Boy

Assim como havia chegado (sem anúncios), ele hoje partiu. Abrindo as portas dos armários do esquecimento para os casacos paulistas. E na noite morna, já agora venta uma brisa fresca. Que limpa a cena para a lua cheia azulando o céu no recorte com o morro negro que fecha a minha rua. Uma lua daquelas, que de tão linda, já faz sentir saudade antes mesmo de partir. Ainda vou sentir falta disso tudo... eu sei.

O Brasil dos cartórios

Quando minha mãe nasceu, meu avô decidiu homenager a mãe dele batizando a filha de Casemira Augusta. Preocupada com o futuro da inocente, minha tia mais velha sugeriu que ele transferisse a homenagem, batizando a caçula de dez filhos com o nome da minha avó. Para mostrar que era um homem flexível, meu avô cedeu. E minha virou Beatriz Casemira.
Foi assim que Casemira, esse nome português fora de uso, foi parar na minha certidão de nascimento. E logo esse nome, que ela sempre abonimou, acaba de nos fazer descobrir que eu e meus irmãos não somos filhos da mesma mãe. Eu e minha irmã mais velha somos filhos de Beatriz Casemira. Meus dois irmãos mais novos descobriram há pouco que são filhos de Beatriz Casimira. Não notou diferença? Nem você, nem o escrevente desatento do cartório que grafou errado o nome da minha mãe na certidão deles, com I em lugar de E.
Quem descobriu o erro foi minha irmã mais nova, tentando tirar uma nova cédula de identidade, com o nome de casada. Quando compareceu ao Poupatempo, a funcionária percebeu que na certidão de nascimento que ela portava, o nome grafado era Casemira. Mas na de casamento, era Casimira.
Foi investigar e descobriu que no livro do cartório de registro, o registro é com I. Apesar de ela ter uma cópia original da certidão com E. E agora vai ter de entrar na Justiça para pedir a um juiz o direito de corrigir o nome nas certidões de nascimento e casamento dela e nas certidões de nascimento das filhas dela, para poder renovar o Passaporte e o RG.
Parece piada? Não é. É grave. Vai gastar um dinheiro e um tempo enorme. Porque no Brasil dos Cartórios, uma certdião de papel com selos holográficos e carimbos vale mais do que a sua palavra. E enquanto ela não fizer isso, não terá mais direito a documentos de identificação.

quarta-feira, maio 30, 2007

Balas e frases perdidas

Amanhã (quinta) faz um mês que a guerra estourou no Complexo do Alemão. A polícia ocupou o conglomerado de favelas por causa do assassinato de dois PMs e desde então já morreram 17 pessoas e outras 79 foram feridas pelas perdidas. Ontem, o secretário de Segurança Pública do Rio, saiu-se com a seguinte frase para explicar as dificuldades que a polícia vem enfrentando no local:
- Não é possível que num local onde moram 130 mil pessoas não chegue uma informação para a ouvidoria, para o Disque-denúncia, enfim, para qualquer órgão, com alguma estratégia do tráfico.
Será que ninguém denuncia nada porque a lei do morro manda matar X-9, 'dedos-de-seta' e colaboradores da polícia em geral? Se a polícia do secretário garantisse a segurança da população, ninguém se furtaria a colaborar. Mas aí viveríamos numa cidade onde a polícia seria eficiente e, nesse caso, ela nem precisaria de delações. Teria inteligência suficiente para descobrir sozinha as estratégias do tráfico.
Não sei o que é pior nessa guerra: a quantidade de balas ou a de asneiras perdidas.

segunda-feira, maio 28, 2007

Telegolpe

Dia desses o telefone toca logo cedo na casa de um amigo. A mãe dele atende:
- Alô.
- Aí, a gente pegou teu filho. Se você não fizer o que a gente mandar ele vai morrer, tá entendendo?
Ela desliga. Levanta da cama e vai até o quarto do filho. Ele dorme profundo, depois da night de sábado. O telefone começa a tocar de novo, ela o acorda, explica o que está acontecendo, ele atende:
- Alô.
- Por que essa vaca desligou? Tá querendo ver o filhinho morto? A gente não tá de brincadeira não.
- Amigo, eu sou o filho dela.
- Aí vacilão, é o outro, é o outro. A gente tá com o outro.
- Ela não tem outro filho...
- Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu

sexta-feira, maio 25, 2007

Telemarketing

O telefone toca logo cedo no trabalho. Eu atendo:
- Alô?
- Bom dia, com quem eu falo?
- Ferdinando.
- Bom dia, senhor Ferdinando. Tudo bem com o senhor?
- Tudo.
- Meu nome é Marcia e estou ligando hoje para o pessoal aí do diário pra estar divulgando o lar de velhinhos H..., do Catumbi. O senhor já conhece?
- Não.
- Pois é, senhor Ferdinando. É um lar que abriga 50 velhinhos, vovozinhos e vovozinhas, que não têm família e também não têm onde morar. Eles precisam muito da sua ajuda. Por isso eu estou ligando para o pessoal aí do diário...
- Olha, infelizmente eu não posso ajudar nesse momento.
- Mas não precisa fazer nenhuma doação grande, qualquer quantia em dinheiro já é suficiente...
- Realmente não posso ajudar nesse momento...
- É muito difícil pra mim, senhor Ferdinando, estar acreditando que o senhor, trabalhando no diário, não possa estar tendo nem um real pra nos ajudar.
- Você tem razão, Márcia. A verdade é que eu não dou dinheiro para quem eu não conheço.
- Ah, senhor Ferdinando. Logo se vê que o senhor não conhece o nosso lar de velhinhos, não sabe a tristeza que é um velhinho abandonado fazendo suas necessidades na própria roupa por falta de fraldas...
- Olha Márcia, eu entendo que o seu trabalho seja justamente esse, de ser insistente, mas eu não vou dar um centavo. Porque odeio essas ligações com texto decorado que vocês fazem e todos esses gerundios errados...
- Ah, senhor Ferdinando. Quer dizer que o senhor preferia que as empresas de telemarketing estivessem fechando, desempregando milhares de pessoas? O senhor sabia que esse setor hoje em dia é um dos que mais esta empregando no país? Se o senhor nunca fizer doações, nós ficaremos todas desempregadas.
- Não acredito nisso! Chega! Vou desligar este telefone!
- O senhor não seria capaz de estar fazendo uma falta de educação dessas, não é mesmo....
- Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu....

quarta-feira, maio 23, 2007

Miniconto: Relâmpago

Quando tudo parou, duas janelas os separavam. Trocaram olhares por alguns segundos. Os sinos soaram, as portas fecharam, e cada trem foi pra um lado.

segunda-feira, maio 21, 2007

A orquestra do 17º

As flautas soavam doce, os violões e cavaquinhos solavam em conjunto macio e os tambores e bumbos marcavam presença suave ao fundo, como alguém que anda pisando nas pontas dos pés. Sentado atrás de uma mesinha acanhada, o professor regia a pequena orquestra na sala de janelas grandes do 17º andar, por onde entrava um sol tímido de inverno. Entre as estantes com as partituras da música, chinelos de dedo marcavam o ritmo do andamento. Em todos os rostos, alguns mais adolescentes, outros já mais adultos, uma luz especial denunciava a satisfação por estar ali, vivendo aquele momento, criando aqueles sons. Construindo presentes e futuros com instrumentos de sopro, corda e percussão.
Do lado de fora das grandes janelas, a realidade daqueles músicos estava bem concretizada em milhares de casinhas, casões e até prédios feitos de tijolos aparentes. Construções precárias que trepam morro acima de forma desordenada formando aquele gigante que nos acostumamos a ver pela tevê como um câncer crônico enraizado na beira da estrada Lagoa-Barra. Um problema sem dono e sem rosto, mas com nome famoso: Rocinha.
Eu nunca tinha chegado tão perto de uma favela. E embora tenha passado ao largo (eu não entrei lá, só fui do outro lado da rua, no prédio da Prefeitura, onde funciona a Escola de Música da Rocinha), senti pela primeira vez que ela tem vida, tem alma. Porque conheci naquela sala, os verdadeiros guerreiros da Rocinha, gente que luta batalhas diárias para viver com dignidade, sem fazer mal a ninguém. Guerreiros que usam seus intrumentos para dispara acordes de harmonias que alimentam a vida.

sexta-feira, maio 18, 2007

Detalhes (como diria o Rei)

Então eu acordo às oito da manhã e passo o dia preenchendo planilhas do projeto que estou liderando, logo eu que só queria escrever boas histórias quando fui fazer jornalismo, às voltas com a avalanche de idiossincrasias do excel, e nem percebo que já escureceu lá fora, tenho de sair correndo para não perder a natação, onde descubro, ao chegar, que esqueci de levar os óculos, mas mesmo assim caio na piscina, e dois mil metros de braçadas depois chego em casa, sento no chão para retalhar a canga africana que vai servir de forro para os convites da festa, e quando meu indicador começa a reclamar da relação sufocante com o anel da tesoura, percebo que já é uma e meia da manhã, mas ela decide me contar sobre as aulas do curso de alimentação viva que está fazendo na PUC, onde ao final de cada aula ela tem de escrever sobre o dia, e hoje a professora devolveu os textos, porque o curso está no fim, quer que eu leia pra você?, por que não?, e ela então me sai com esta pérola, escrita na aula do dia 18 de abril:
- Agradeço ao aipim, ao pimentão, ao coentro, à salsa, à cebolinha, à lentilha, à pimenta, ao suco de limão e ao azeite de oliva, pela riqueza de cores, sabores e aromas que deram aos nossos bolinhos.
Não consigo mais parar de rir e isso me faz esquecer o excel, as planilhas, o óculos da natação, a tesoura matando meu indicador. Dá pra entender agora, por que eu quero me casar com ela?

quinta-feira, maio 17, 2007

Maldito vício

A responsável por me apresentar a novidade foi M., e eu a usei pela primeira vez na festa de um ano do Estado de Circo. Como sempre acontece nesses casos, ninguém me alertou para os riscos que corria. Quando menos esperava, já estava viciado. Não sei se o inventor dessa maravilha é o Borges (o dono do Estado de Circo), mas se for, ele merece reconhecimento mundial. O negócio é tão simples quanto genial.
A primeira a admitir o vício foi a M., e agora sigo pelo mesmo caminho. Descontrolado, vou começar a usar também na Casa da Lagoa. O nome da droga? Miniconto. Proposta: escrever uma história com começo, meio e fim em, no máximo, 150 toques. Aos meus poucos leitores, fica a promessa de que tentarei não abusar da fórmula. Lá vai o primeiro.

Miniconto: Romeu e Julieta

Aprendera a vida toda que aquilo, sim, era poder. Mas agora, com a faca e o queijo na mão, era incapaz de realizar seu desejo. Faltava-lhe a goiabada.

quarta-feira, maio 16, 2007

Como nascem as piadas

Assim como vários amigos já registraram em seus blogs, eu também não dou a mínima para o que pensa, se é que pensa, o papa Bento XVI. Mas confesso que me surpreendi com o fato do alemão de saia falar português, e ainda por cima com bom sotaque. Comentei com uns amigos e deu-se o seguinte diálogo:
(Eu) - Você viu que o papa fala português? E fala bem.
(Amigo1) - Fala bem mesmo. Melhor que o Lula.
(Silêncio. Gargalhada).
(Amigo2) - Deixa de zoeira. Ele não fala, só lê aquilo tudo.
(Amigo1) - Lê? Papa 2, Lula 0.
(Gargalhada geral.)

terça-feira, maio 08, 2007

Santuário ameaçado

O seqüestro de um jovem estudante, desvendado na semana passada pela políca, está chocando os moradores da Barra da Tijuca. Não por ter sido seqüestrado mais um jovem de classe média-alta, isso já é comum no Brasil todo, mas pelo fato de o crime ter sido cometido por quatro porteiros de condomínios do Jardim Oceânico, um dos bairros pioneiros do santuário contra a violência em que foi transformada a Barra.
De repente, os moradores dos condomínios descobriram que, além de passarem o dia expostos à violência banal das ruas em que transitam para ir ao trabalho, também podem estar dormindo com o inimigo do lado de dentro de seus portões inexpugnáveis. Para piorar a situação, a polícia diz que os porteiros seqüestradores iriam executar a vítima assim que o resgate fosse pago. Um dos integrantes da quadrilha trabalhava no condomínio onde o estudante morava e havia sido reconhecido.
Pra mim o episódio é emblemático do que as pseudo-intelectualidade da sociologia gosta de chamar de "esgarçamento do tecido social". Os seqüestradores não eram traficantes ou assaltantes favelados, os vilões tradicionais que a sociedade carioca já se acostumou a tolerar. Eram trabalhadores, empregados com carteira assinada, moradores de casas nas cercânias, que recebiam seus salários religiosamente no fim do mês. Todos eles tinham carros próprios, um inclusive tinha também moto, e ninguém ali estava passando necessidade extrema para imaginar um seqüestro, crime hediondo e inafiançável, que ainda por cima terminaria em homicídio.
Os simplistas dirão que eles eram monstros sem coração, movidos pela ganância. É o caminho mais fácil para virar a página do jornal sem fazer nada. Porque o caso, claramente, é produto da desigualdade de renda insuportável deste país. Os mais ricos não querem dividir nada, mas não percebem que já pagam um preço alto, seja em aparatos de segurança, seja em vidas de parentes e amigos assassinados, pela riqueza que só querem acumular.

sábado, maio 05, 2007

Proibido Proibir

O título do mais recente filme do chileno Jorge Durán remete a uma produção de época, ambientada nos tempos duros da ditadura militar. Talvez tenha sido proposital. A história de Proibido Proibir retrata abusos de autoridades policiais corruptas contra jovens, mas desta vez no Rio de Janeiro conflagrado dos dias de hoje. Os jovens também não são tão idealistas como os da luta armada dos anos 70.
Pra quem se interessar, faço abaixo uma longa resenha. Mas a razão principal deste post não é falar dos erros e acertos do filme e sim de uma situação emblemática que surge na tela (e que está exposta na foto acima). Num determinado momento da trama, policiais matadores perseguem inocentes numa favela. Os atores contracenam vestidos com fardas oficiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro e usam, inclusive, uma viatura real no momento em que levam as vítimas para uma execução num lixão.
Pode ser que eu esteja enganado, mas não me lembro da Polícia Militar de algum outro Estado permitir o uso de fardas ou viaturas oficiais em sets de filmagens, nem quando a trama, em tese, era neutra à corporação. Muito menos quando retratava situações desfavoráveis à imagem da instituição, como é o caso em Proibido Proibir.
O fato de a PM do Rio permitir isso mostra que nem a alta cúpula se preocupa com a imagem da corporação. O que ajuda a entender a situação de descalabro em que se encontra a polícia carioca, sempre envolvida em escândalos de corrupção, e cuja tropa é acusada de liderar mílicias justiceiras nos morros da cidade. Por coincidência, assisti ao filme no mesmo dia em que o tiroteio entre policiais e traficantes cessou na Vila Cruzeiro, favela da Penha. E para desmoralização da tropa, o cessar fogo foi ordenado por chefões do crime encarcerados no presídio de segurança máxima de Bangu.

A RESENHA
O drama principal de Proibido Proibir se desenrola em torno da relação entre Paulo (Caio Blat), Letícia (Maria Flor) e León (Alexandre Rodrigues). Paulo é um estudante de medicina talentoso e porra-louca, que vive drogado a maior parte do tempo. Ele divide apartamento na periferia do Rio com León, estudante de sociologia, negro, o certinho da dupla, que namora Letícia, uma linda estudante de arquitetura de classe abastada. Por quem Paulo obviamente se apaixona. Pra piorar, ele começa a ser correspondido por Letícia.
O filme estaria bem resolvido se Durán tivesse se contentado em trabalhar esse trio amoroso. Mas o cacoete da denúncia social (pra quem não lembra, são dele os roteiros de Lúcio Flábio, Passageiro da Agonia e Pixote, entre outros) o fez colocar a história do trio num drama paralelo que expõe as chagas do caos social do Rio.
No Hospital Universitário, Paulo conhece Rosalina (Edyr Duqui, em maravilhosa interpretação), uma paciente terminal. E promete a ela encontrar seus filhos. O problema é que um deles foi assassinado por policiais corruptos e o outro está jurado de morte. O trio então resolve tirá-lo da favela e é aí que o roteiro se perde numa profusão de pontas soltas e tentativas de soluções quase infantis.
Nada disso, porém, me faria desaconselhar os amigos a assistir o filme. Os 100 minutos da fita passam em ritmo acelerado. Só os muito exigentes sairão realmente desapontados da sala.

quinta-feira, maio 03, 2007

Coisa séria mesmo

Eles se consideram os Maiores do Mundo, time Mais Querido, chamam a camisa de Manto Sagrado... Lá onde eu trabalho, os flamenguistas são maioria. E são os que mais azucrinam a vida de todos os torcedores de qualquer outro time. Vasco perde? Eles arrebentam na tiração de sarro. Fluminense empata? Chupa Fluzão, gritam em coro. Botafogo escorrega? Ah, Fogão não é grande, ironizam. E não ficam só nos times do Rio não. Se Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Portuguesa (!) tropeçam, lá vem gozação dos rubro-negros. Até quando o Milan faz gol no Manchester eles azucrinam o garoto que um dia disse gostar de futebol inglês. Em resumo, além de serem os maiores, são também os mais chatos do mundo.
Mas aí, aconteceu essa tragédia na quarta-feira. O Defensor, um time de segunda divisão do Uruguai, que até hoje só ganhou três campeonatos nacionais na nossa ex-colônia (até o River Plate uruguaio, que deixou de existir em 1930 tem mais títulos) ignorou o Manto Sagrado e enfiou três gols no Maior do Mundo, no Mais Querido. Clima tenso na redação. Que quase explodiu em selvageria quando um tricolor carioca ameaçou fazer uma graça....
É, além de serem os maiores e mais chatos do mundo, eles também são os piores esportistas. Pelo menos lá onde eu trabalho.... Talvez na Geral do Maracanã sejam mais civilizados.

quarta-feira, maio 02, 2007

segunda-feira, abril 30, 2007

Tradução no metrô

Debaixo da terra, viajando em direção aos deliciosos doces da Colombo, minha cunhada e meu irmão (ambos paulistas em visita de feriado), pedem ajuda:
- Traduz pra gente, por favor: "Pancadão faz a Barra rebolar até o chão".
A frase estapmpava um jornal popular que um velhinho folheava. Alguém se aventura a traduzir?

sábado, abril 28, 2007

Poluição companheira

No meio do caminho entre o meu trabalho e o meu local preferido de almoço ficam os Correios. Não uma agência qualquer, mas a central, aquele prédio imenso na Avenida Presidente Vargas por onde passam todas as cartas postadas no Brasil. Por mais estranho que pareça, é verdade. Se um morador de Salvador escreve para um parente em Recife, a carta vem para o Rio e volta para Recife. Mistérios do Brasil...
Por conta desse volume gigantesco de envelopes, o prédio é enorme, cheio de funcionários e ponto obrigatório para todas as chapas quando tem eleição no sindicato. Desde o fim de março, com os carteiros em campanha sindical, todos os dias tinha um carro de som poluindo o caminho entre o meu trabalho e o meu almoço. Era a companheirada apontando erros e desmandos da companheirada nem tão companheira assim, que competia pela outra chapa. Como eram três chapas, não havia um dia sequer em que eu pudesse ir para o almoço livre da gritaria.
Esta semana, porém, quando passava pela calçada vi a companheirada reunida na frente do carro de som, posando para uma foto de confraternização. Aproveitei a oportunidade:
- Já foi a eleição?
- Já companheiro, terminou. Ganhamos! - respondeu efusivo um senhor de meia idade, adesivo da Chapa 2 no peito, que foi logo me abraçando.
- Poxa companheiro, estou muito feliz por vocês. Muito mesmo. E também porque agora vou passar dois anos podendo ir para o meu almoço0 sem ficar surdo com os caminhões de som de vocês - respondi, sem tirar o sorisso do rosto. O companheiro também não perdeu o rebolado:
- É companheiro, campanha é fogo, né. Mas acabou, companheiro, acabou! Vencemos!

domingo, abril 22, 2007

Agora o Rio está perfeito

Logo na minha primeira semana no Rio inventei uma piada que usava para provocar os naturais da Guanabara. Dizia que havia sido exposto à primeira situação de violência carioca: um rodízio de pizzas. A piada era baseada em fatos reais. Na minha primeira semana, sem conhecer nada da cidade, inventei de comer uma pizza no Largo do Machado. Fui bater numa pizzaria, 10 da noite, e na porta o garçom foi logo perguntando:
- Rodízio ou quilo?
Eu só queria comer uma pizza, de preferência uma média.
- Não temos essa opção. Ou o senhor vai no rodízio, ou vai na comida a quilo do buffet.
Buffet às 10 noite? Achei arriscado. Seria melhor encarar o rodízio, pensei. Errei feio. As pizzas, que já não são uma especialidade nesta parte tropical do país, pioram muito nos vários rodízios em que são servidas em quantidade inversamente proporcional à qualidade.
Era um tal de pizza de carne moída, pizza de jabá com jerimum, pizza mexicana, numa lista pra lá de heterodoxa que incluía ainda, entre os sabores doces, pizza de brigadeiro, de prestígio, de confete, de mousse de maracujá!!!! Definitivamente, uma violência.
Os cariocas não gostavam muito da minha piada e acabei por aponsetá-la. Agora, porém, eles podem entender o meu mau humor com aqueles discos de massa do Largo do Machado. Porque abriu no Rio, bem ao lado da minha casa, no Jardim Botânico, uma filial da Bráz. Provei ontem. Que maravilha. Agora, o Rio está perfeito. Já tem a velha e saborosa pizza paulistana.

terça-feira, abril 17, 2007

O órfão do Pé de Maracujá

Voltando da natação agora há pouco, parei para olhar o morimbundo pé de maracujá do post anterior e, para minha surpresa, notei um filhote órfão da planta, menorzinho, crescendo no fio parelelo àquele onde a planta maior já está completamente morta. Fiquei ali parado, imaginando como os agentes com licença para podar da companhia de luz haviam deixado aquele menor escapar. Notando meu interesse, um taxista do ponto explicou:
- Esse aí tá no fio de telefone.
Como?
- Esse aí, menorzinho, tá no fio de telefone. O pessoal da Light não mexeu com ele porque é problema da Telemar.
Nessas pequenas bobagens a gente entende por que o Brasil não consegue decolar. Apesar de criativo, o povo se deixa emparedar pela burocracia, prima-irmão da preguiça. Tá certo. Se as ordens eram para podar apenas o pé de maracujá da fiação de luz, porque ele mexeria com o da rede de telefone, não é mesmo?

sexta-feira, abril 13, 2007

O pé de maracujá

Ele começou tímido, insinuando-se por um poste. Como ninguém o notava, ganhou confiança e se desenvolveu. Quando finalmente perceberam sua existência, já fazia a alegria dos taxistas da rua Sacopã, na Fonte da Saudade, com seus frutos doces. Emoldurava a entrada da rua, garbosamente pendurado nos fios da rede elétrica que a cruzavam. Foi esse seu erro.
Depois de um verão extremamente seco, veio uma chuva forte. Molhado, mais pesado e sacudido pelo vento, ele provocou panes que alertaram a central. A Light, então, enviou seus agentes com licença para podar. Impiedosos, eles o cortaram pela raiz.
Desde então, o pé de maracujá da Rua Sacopã agoniza lentamente, secando aos poucos, em plena praça pública.

quarta-feira, abril 11, 2007

Outono tropical

Então o tempo passou, o clima mudou e as árvores choram suas primeiras folhas ( lágrimas de cobre de pura manha, pois sabem que jamais chorarão todas). Malhas finas desfilam pelas ruas, abrindo as portas dos armários para pesados casacos novaiorquinos/londrinos/parisienses que em breve serão libertados dos cabides (mais pela saudade das viagens do que por necessidade).
As noites já não são mais tão quentes (pelo menos as longas pernas estão de volta, aquecendo-me sob a mantinha etíope, em suas batalhas noturnas inconscientes para me expulsar da enseada tranquila da cama) e quando amanhece, o céu é de um azul contido. O sol, esse continua brilhando pendurado em algum canto. E me faz lembrar de que já não me lembro da última vez em que vi o mar.

segunda-feira, abril 09, 2007

Monólogo Furtado

Linha 157 Central-Gávea, sentido bairro. A porta de trás abre e o homem carregado de caixas sobe, caminha até a catraca, e desembesta a falar:

- Em primeiro lugar, desculpe por incomodar o silêncio da sua viagem. É que eu estou aqui hoje para oferecer as deliciosas barrinhas Maxi Goiabinha. A qualidade é da Bauduco, que o senhor e a senhora já conhecem, não preciso explicar. Temos aqui para oferecer a barrinha nos sabores Maxi Goiabinha, que é tradicional, Maxi Chocolate e a última novidade, Maxi Chococo, que é uma barra de chocolate com recheio de coco. Nas Lojas Americanas ou em qualquer outro lugar o senhor, a senhora vai pagar oitenta centavos ou um real. Aqui na minha mão, uma barrinha sai por sessenta centavos, dua por um real. Está dentro da validade, pode olhar no verso, é outubro de 2007. Vocês devem estar se perguntando como o preço pode ser tão baixo, não é mesmo? Não tem segredo não, tá gente. É carga tombada mesmo. Quem vai querer? Uma é sessenta, duas por um real...

terça-feira, abril 03, 2007

Diálogos furtados

Na Praça dos Bebês, na Lagoa, enquanto espero o ônibus para o trabalho:

(Babá 1) - Óxente, não agüento mais correr atrás dele. Não tem sussego esse muleque!
(Babá 2) - Tu vai embora, Lucinéte?
(Babá 1) - Vô não, vô só dá água a ele. (Dirigindo-se ao menino de uns 3 anos). Vem cá Gordo, toma água, que é pra vê se passa o soluço, toma.
(Babá 3, cuidando de uma menininha num carrinho, possivelmente irmã do "Gordo") - Óh Lucinéte, acho que já deu a hora de ir.
(Babá 1) - Óxente, Deia. Que horas são?
(Babá 3) - Já é quase onze, já.
(Babá 1) - E tu sabe como? Num tem relógio?
(Eu) - Dez e vinte.
(Babá 3) - Comé?
(Eu) - São dez e vinte. As horas.
(Babá 1) - Vixe, Deia, que aperreio. Olhe, já pensou se nós chega antes da hora lá? Patroa dá a luz!
(Babá 3) - Deus me livre, Lucinéte. Vai ser mais um pra gente cuidar!

Gargalhada geral. Chega o ônibus.

Pequenas provas de que o mundo está perdido

(Garimpadas em colunas recentes do Ancelmo Góis, em O Globo)

- A Assembléia Legislativa do Rio decidiu reformar a fachada do prédio anexo. Vai trocar as placas de alumínio do projeto original por pedras. Motivo: gatunos roubaram as placas para vender como sucata. Em pleno centro da cidade.
- Os 1.200 alunos de uma escola municipal da Rocinha ficaram sem aulas o mês de março inteiro. Motivo: um vazamento de esgoto das moradias em volta desembocava dentro das salas de aula, tornando insuportável a permanência no local. Como a prefeitura demorava a tomar providências, os traficantes baixaram a ordem: os moradores tinham um fim de semana para desentupir os canos e limpar a escola, ou seriam mortos. Na segunda-feira seguinte, as aulas recomeçaram.
- Uma passageira da linha 464 Leblon-Maracanã foi assaltada dentro do ônibus na última sexta-feira, por volta de 14h. Os ladrões eram três velhinhos bem vestidos, aparentando por volta de 70 anos de idade.
- Uma aluna da UniverCidade, no Rio, fez a seguinte pergunta durante uma aula de história do Brasil: "Professora, por que o Tancredo Neves deu o golpe de 1964?"

quinta-feira, março 29, 2007

Flagrante social

Antes das oito da manhã, elas pintam a Fonte da Saudade de xadrez com seus uniformes de novela. Entediadas, algumas com cigarros acesos, passeiam cockers, bassets, poodles, schnauzers... Toda sorte de miniaturas caninas que certamente custam, em cuidados mensais (banhos, tosas, rações, medicamentos, vacinas e consultas veterinárias), mais do que o salário que elas recebem para lavar, passar, limpar, fazer cama, cozinhar e ainda levar o lulu ao banheiro logo cedo... É possível ainda que muitos desses patrões e patroas conversem mais com seus pets (naquela vozinha infatilóide irritante) do que com elas durante o dia. Mas pelo menos elas têm uma vantagem: podem ser abatidas do imposto de renda na maior democracia racial do mundo.

terça-feira, março 27, 2007

Passeio sonoro

Se vivo fosse e resolvesse passear por algumas quadras da rua nomeada para homenageá-lo, o que ouviria o Ouvidor?

Na quadra entre a 1º de Março e a Rua do Carmo:
- Misto mais um copo de refrigerante, só R$ 1,50...
(No carrinho da 'Rainha do Misto Quente', onde além de comer queijo com banana é possível converter VHS para DVD e fita k7 e lp para CD. Um adesivo ameaça os invejosos: "Sapo tem olho grande, mas vive na lama".)
- Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta...
(Dos pregadores evangélicos, engravatados sob o sol da Guanabara, lendo o capítulo 1, versículo 10 do... Apocalipse, claro. Sempre o Apocalipse.)

Na quadra entre as ruas do Carmo e da Quitanda:
- Vale refeição, ticket restaurante, pago 86%...
(Na camiseta do homem gordo distribuindo panfletos.)
- Você que está precisando de dinheiro, não perca tempo. Na Mesquita o seu crédito já está aprovado, apenas à sua espera...
(Gritado no megafone por um homem vestido numa roupa de pierrô azul acetinada, com sapatilhas de Aladim brancas e turbante amarelo na cabeça.)

Na quadra seguinte, onde ele descobriria, depois de percorrê-la, que além de rua tem também a Travessa do Ouvidor a homenageá-lo:
- Dez é um real, um real. Você leva dez e só paga um real...
(Do vendedor de guloseimas, anunciando o pingo de leite, num carrinho onde também é possível comprar 40 balas por um real.)
- Carregador, baterias, chip e carcaça...
(Do vendedor de bugigangas para celular que negocia também aparelhos de origem suspeita.)
Finalmente, na esquina com Avenida Rio Branco, ele ouviria:
- Cinqüenta por um real...
(De um vendedor de biscoitos de sequilho, antes do sinal abrir e sua voz ser sufocada pelo ruído de centenas de carros e ônibus arrancando pela Rio Branco.)

Depois do passeio, o Ouvidor sairia com uma certeza. Sorte mesmo tiveram o Desvio do Mar (1568), Aleixo Manoel (1590) e Padre Homem da Costa (1659), cujos nomes um dia já batizaram a estreita rua de paralelepípedos, definitivamente batizada como do Ouvidor em 1780.

segunda-feira, março 26, 2007

O vilão que não estava no roteiro original

O roteiro era perfeito. Tinha emoção, com 40 mil pessoas enfileiradas na platéia, ansiosas pelo grande momento; tinha suspense, com o tempo passando rápido; tinha o herói, lutando pra vencer no final; tinha o clímax, dentro da área, de frente para o gol, aos 43 minutos do segundo tempo. Mas aí apareceu o vilão que não estava no roteiro original: o pé do goleiro Bruno, do Flamengo, que atendendo ao seu cacoete de defensor ficou pra trás, no meio do caminho entre Romário e o seu milésimo gol.
O Maracanã quase morreu do coração, mas não teve jeito. A festa do baixinho ficou pra depois.

quinta-feira, março 22, 2007

Instituições cariocas 5: Mate com limão


A notícia está nos jornais do dia. O Mate Leão, que há 96 anos mata a sede dos habitantes nos tórridos verões da Guanabara, foi vendido para a Coca-Cola. Agora, a gigante dos refrigerantes pretende ampliar a distribuição da bebida preferida dos cariocas para todo o território nacional.
Embora seja possível, hoje é bastante raro encontrar em outras cidades do Brasil o copinho de plástico laranja com a estampa de um leão no rótulo. Aqui, eles estão por toda a parte. Os cariocas consomem 60% de toda a produção das três fábricas da Leão Júnior, que faturou no ano passado R$ 156 milhões. É uma instituição carioca.
Além dos copinhos plásticos, nos sabores natural e diet, com ou sem limão, o mate também faz sucesso na praia, em sua versão do latão. Vendedores com jaleco laranja da marca circulam pela praia carregando dois latões de metal de 25 litros cada, um em cada ombro. Num deles, o mate; no outro, o limão com muito açúcar. Tudo bem gelado.
Você escolhe a proporção da mistura e, por R$ 2, toma um copão refrescante. Muita gente torce o nariz. O vendedor faz o mate em casa sabe-se lá com que água e também não há como averiguar a higiene da lata. Mas todos são obrigados a admitir: é gostos demais!

quarta-feira, março 21, 2007

Os mil gols do Baixinho

No Rio não se fala de outra coisa. De repente, a campanha de Romário pelo recorde de mil gols virou uma bandeira da cidade, unindo torcedores de todos os clubes. E não é pra menos.
Dentro de campo, Romário sempre foi um gênio. Ninguém pode negar. Independentemente da conta que se faça dos seus gols – sejam os mil de seus fãs, ou os 900 dos que tentam diminuir a marca –, o Baixinho já escreveu seu nome na história do futebol. Afinal, ninguém mais no mundo, além de Pelé e do alemão Gerd Müller, conseguiu chegar perto dos 900.
A marca do Baixinho, portanto, mostra mais uma vez a força do nosso futebol. Por isso, essa festa é de todos os brasileiros.
Escrevo isso com tranquilidade, pois Romário nunca fez meu tipo de ídolo. Polêmico e arrogante, às vezes até grosseiro, inventou aquelas camisetas ridículas com mensagens, que usava sob o uniforme nos anos 90 e exibia a cada gol marcado. Ídolo verdadeiro conquista empatia com o público pelas atitudes no dia-a-dia. De que adianta mal-tratar o próximo todos os dias e depois escrever mensagens na camiseta? Ayrton Senna, por exemplo, nunca precisou abrir o macacão para mandar recado.
Hoje, porém, Romário está mudado. Muita gente jamais teria tido coragem de abraçar com franqueza a causa dos portadores da Síndrome de Down, como ele fez desde o nascimento da filha Ivy. Essa atitude, um gol do Baixinho que não entra na lista, mas que talvez seja o mais especial de todos, mudou minha opinião a respeito dele. Por isso, e pelas alegrias que nos deus na grande área, ele merece ser reverenciado.

domingo, março 18, 2007

Plantão dos famintos

Todo fim de semana a história se repete. Como a lanchonete não abre e não tem nada por perto da Cidade Nova, os condenados ao plantão ficam sem ter o que comer o dia todo. A solução sempre foi apelar para os deliverys das redes de hamburgueres.
A novidade é que esta semana, ambas deixaram de entregar comida na região. A atendente informa que, devido ao grande número de assaltos, os entregadores não trazem mais comida no bairro. Segundo ela, os bandidos não levam dinheiro; pedem o lanche e, quando o motoqueiro chega, mostram a pistola em lugar de pagar o pedido.
Um colega sugeriu que explicássemos a ela que esses roubos acontecem na vizinhança, mas que nós, aqui na empresa, não roubamos ninguém. Eles podem entregar sossegados que pagamos nossos pedidos. Boa essa.
Claro que ninguém pensou em chamar a polícia. Nem nós, nem as redes de hambúrgueres. Vai ver ficaram com medo de os guardas pedirem um lanchinho de graça também.

sexta-feira, março 16, 2007

Cheiro de chuva...

Depois de 33 dias de seca, começaram a cair agora pouco uns pinguinhos de chuva no Rio de Janeiro... Finalmente. Não é nada forte, ainda, só uma chuvinha de leve. Mas o suficiente para fazer subir do chão aquele cheiro gostoso de chuva fresca na pedra quente.

segunda-feira, março 12, 2007

Lições da Floresta da Tijuca

A descrição choca logo na quinta palavra: "É a maior floresta artificial do mundo", diz o texto num site turístico. Artificial? Como assim? Estamos falando da Floresta da Tijuca, com seus 39 km² de extensão sobre a Serra da Carioca. Em outras palavras: todo aquele verde ancorado na paisagem da Zona Sul do Rio, sob os pés do Cristo Redentor, cobrindo o Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, a Pedra Bonita, o Pico da Tijuca...
O termo 'artificial' talvez não seja o mais correto, já que as espécimes de Mata Atlântica são verdadeiras. Mas o fato é que nem sempre a floresta foi assim. Descobri isso ontem, numa longa caminhada de 15 km pelo Parque Nacional e pelo caminho das Paineiras.
Para explicar a história, é preciso voltar ao Brasil colonial. A chegada da família Real Portuguessa ao Rio (199 anos completados no dia 8 de março) impulsionou o crescimento da cidade e os morros da Serra da Carioca começaram a ser desmatados. A madeira era usada como lenha e, em seu lugar, surgiram lavouras de café.
Todos os rios que abasteciam a cidade nasciam naquelas montanhas e o desmatamento indiscriminado reduziu drasticamente o fluxo de água. Como conseqüência, já no Império, a capital começou a sofrer estiagens. D. Pedro II ordenou, então, o reflorestamento do local, numa atitude pioneira no mundo.
As desapropriações das terras começaram em 1854 e o reflorestamento em 1861, sob o comando do Major Gomes Archer, primeiro administrador da Floresta, que trabalhava com seis escravos. O replantio era feito com espécimes nativas da Mata Atlântica. Em 13 anos, Archer e seus escravos (mais tarde a equipe incorporou 22 trabalhadores assalariados) plantaram 100 mil mudas. De 1874 a 1888, o Barão Gastão d'Escragnolle, segundo administrador da Floresta, introduziu mais 30 mil mudas e começou a transformar o local numa área de lazer. Quem caminha hoje pelas montanhas da Serra da Carioca não é capaz de encontrar diferenças para uma reserva original de Mata Atlântica. A paisagem tem cachoeiras, micos, tudo o que se espera encontrar numa floresta original.
Se você já chegou até aqui, deve estar se perguntando por que é que não coloquei uma foto sequer de toda esta exuberância. É simples. Fui impedido de fazer fotos. Pela violência. No dia anterior à minha visita, 40 pessoas foram assaltadas numa das trilhas do parque. E não foi a primeira vez este ano. Amedrontado, deixei a câmera em casa.
A Floresta da Tijuca é uma prova de que, com vontade política, é possível transformar uma realidade desfavorável e de que negligenciar os problemas não ajuda a resolvê-los. Se nossos governantes se inspirassem no estilo do velho imperador das barbas brancas, talvez vocês pudessem ver as fotos da floresta plantada por ele, em lugar de ler tantos posts sobre mortes e barbaridades, que surgem neste blog com mais freqüência do que eu gostaria.

sexta-feira, março 09, 2007

A banalização das balas perdidas

- Qual era o sonho da sua filha? - perguntou o repórter.
- Moço, quem mora no morro, não tem direito a sonho - respondeu a mãe.
Esse foi o lide de uma reportagem de O Globo desta semana, sobre a morte de Alana Ezequiel, 13 anos, vítima de uma bala perdida numa favela de Vila Isabel. Alana havia acabado de deixar a irmã menor, de 2 anos, numa creche, quando traficantes do Morro dos Macacos começaram a atirar contra o Caveirão, o carro blindado que a Polícia Militar do Rio usa para subir favelas. Os policiais revidaram e Alana ficou no meio do fogo cruzado. Uma bala de fuziu perfurou seus dois pulmões, fígado e a coluna.
A doméstica Edna Ezequiel, mãe de Alana, enterrou a filha no Cemitério do Caju, graças à ajuda da Santa Casa de Misericórdia, que pagou as despesas. No funeral de Alana não tinha governador nem secretário de Segurança Pública chorando. Talvez porque morrer de bala perdida, nesta cidade, já não seja considerado tão trágico quanto ser arrastado por sete quilômetros preso a um cinto de segurança, como sucedeu ao pequeno João Hélio. Segundo um levantamento do Fantástico, a cada dois dias um carioca é ferido por bala perdida. Das vítimas, 20% seriam crianças com menos de 13 anos. Os casos mais recentes:

* Adriele Medeiros Nobre, 9 anos, morta por bala perdida na Favela do Jacarezinho em novembro do ano passado;
* Jessé Veríssimo Arivaldo, 6 anos, morto por bala perdida em Vigário Geral no mesmo mês;
* Rennan da Costa Ribeiro, 3 anos, morto nos braços da avó durante um tiroteio em bandidos e PMs na Favela Nova Holanda, em outubro de 2006;

Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, olhai por nós.

quinta-feira, março 01, 2007

Alguma coisa em comum

Tudo começou na Ilha de Serigipe, na Baía de Guanabara. Foi ali que corsários franceses fundaram a França Antártica, em 1555, de olho no lucrativo comércio de pau-brasil. Aliados aos índios tupinambá, guerreavam contra os portugueses que, a bem da verdade, só passavam de vez em quando por aqui.
Em 1560, o governador geral Mem de Sá resolveu tomar providências e enviou soldados sob o comando de seu sobrinho, Estácio de Sá, para expulsar os franceses. Começou a guerra que duraria sete anos. Em 1565, Estácio de Sá já havia recuperado parte das terras e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, no dia 1º de março. No local onde hoje fica a Urca, Estácio ergueu um fortim.
A guerra, porém, não estava terminada. Só acabaria quase dois anos depois, com a batalha final vencida pelos portugueses, no outeiro (que passou a se chamar da Glória). Era o dia 20 de janeiro de 1567, Dia de São Sebastião, que até hoje é o feriado da cidade (e não o dia 1º de março). Na batalha da Glória, Estácio de Sá foi ferido no rosto por uma flecha envenenada. Morreu um mês depois, em decorrência de infecção causada pelo veneno.
Essa história toda sobre a fundação da cidade talvez ajude a explicar por que me adaptei tão bem ao Rio de Janeiro, a ponto de todos os meus amigos dizerem que sou o paulista mais carioca que conhecem. Deve ser empatia de piscianos. Eu e o Rio comemoramos aniversário no mesmo dia. Ele é bem mais velho (406 anos a mais), mas o azar é só dele.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Tapa na cara

Christian Pierre Doupes, de 38 anos, Delphine Douyère, de 36, e Jérôme Faure, de 42, franceses, moravam no Brasil há mais de 12 anos. Fundadores da ONG Tarr'Ativa, dedicavam suas vidas a ajudar menores de rua. Tinham programas que usavam o esporte e a cultura para tirar as crianças do caminho das drogas e do crime. Um dos maiores orgulhos da ONG era Társio Wilson Ramirez, de 25 anos.
Társio vivia nas ruas de Copacabana quando Delphine o conheceu. Incluído nos programas do grupo, conseguiu se recuperar e começou a trabalhar para a ONG, na Rua Ronald de Carvalho, no mesmo bairro. Ontem, Társio assassinou os três franceses a facadas, com requintes de crueldade, no escritório que dividia com eles. Matou porque havia sido descoberto por Jérôme desviando fundos da entidade que o tirara das ruas. Havia roubado R$ 80 mil. A vida de cada um dos franceses valia menos de R$ 27 mil para Társio.
Delphine era casada com Christian e os dois deixaram um filho, Max, que havia completado dois anos no domingo.
Mais um crime que choca a cidade e o mundo. E que coloca mais lenha na fogueira dos debates sobre pena de morte, redução da maioridade, capacidade de recuperação de infratores e etc. Os franceses são apenas mais três no incrível número acumulado pelo Rio Body Count no curto mês de fevereiro. Confira:

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Tão perto, tão longe

A mulher gorda vê nas páginas da revista um mundo fora do alcance de sua vista.
Pela janela desfila a paisagem suja do Estácio. Com seus camelôs barulhentos esgoelando o pão que vai matar a fome das boquinhas desdentadas em casa; com suas peruas envoltas em névoas de óleo queimado; com seus letreiros de plástico gordurento nas portas dos bares desbotados; com suas calçadas esburacadas carentes de verde.
A cabeça da mulher balança para cima e para baixo no ritmo das sacudidelas do ônibus; move-se da esquerda para a direita conforme ela avança nas linhas.
Na página, um enorme caranguejo rosado sobre um fundo azul profundo de Photoshop ilustra um título discreto em letras brancas: "A natureza vista de perto".

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

A Inevitável História de Letícia Diniz

Acabo de ler o livro cujo título emprestei para nomear este blog. Escrito por Marcelo Pedreira e editado pela Nova Fronteira, se passa na Lapa carioca e Letícia Diniz é um travesti que faz programas na boca do lixo. Para escrevê-lo, o autor internou-se durante quase um ano no bairro, entrevistando dezenas de bonecas. Além de muito bem escrito, o livro tem o inquestionável mérito de enxergar heróis onde a moral estabelecida só vê repugnância; seres humanos onde a sociedade só vê lixo. Perfeito para um mundo que precisa aprender com urgência a aceitar todos os tipos de diferenças.

domingo, fevereiro 25, 2007

Mais sobre milícias

Em dezembro do ano passado, a deputada federal Marina Magessi, então inspetora de polícia do Rio, deu a seguinte declaração ao jornal O Globo:
- Todo rico tem segurança privada. E o dono da segurança é um coronel ou delegado que subcontrata os praças. A segurança dos pobres é a milícia.
De fato, as milícias que tomam os morros e sobre as quais versa o post anterior são uma versão mais agressiva das empresas clandestinas de segurança que se popularizaram nas ruas das classes média e alta nos anos 90. A rua onde ficam as instalaçãoes físicas desta Casa da Lagoa, por exemplo, é guardada 24 horas por seguranças contratados por uma empresa chefiada por um major da PM que quase todo dia passa, fardado, para dar orientações aos seus funcionários. Sem o menor constrangimento.
A diferença: no bairro dos ricos, eles não ameaçam diretamente quem não paga. Mas quem vai ter coragem de cancelar o serviço? Afinal, os praças (que durante a noite tiram profundos cochilos nas guaritas, incapazes de guardar a si próprios) conhecem a rotina dos moradores.
Recebendo pagamento por fora, os policiais conseguem fazer o trabalho que são incapazes de realizar como agentes pagos pelo Estado: manter a violência afastada. Se eles conseguissem cumprir a missão como agentes do Estado, não poderiam cobrar por fora.
A violência só aumenta porque se transformou num grande negócio, explorado até por quem deveria combatê-la por ideal. Será que é por isso que a gente fica com aquela impressão de que a polícia não faz nada quando somos obrigados a registrar uma ocorrência na delegacia?

sábado, fevereiro 24, 2007

Bogotá-Rio

A caminhonete preta Hillux, 4X4, foi intercepetada por um astra também preto numa rua calma do Recreio dos Bandeirantes no meio da tarde da última quinta-feira. Quatro homens desceram armados de pistolas e fuzis (FAL e AR-15, provavelmente) e despejaram 46 tiros sem pronunciar palavra. Ao volante, o inspetor Félix dos Santos Tostes, 49 anos, 18 deles dedicados à Polícia, morreu com 40 tiros.
Tostes havia sido afastado no dia 30 de janeiro, sob a acusação de chefiar a milícia que vende segurança na Favela de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, zona Oeste da cidade.
No governo passado, ele servira no gabinete do chefe da Polícia Civil. Em setembro de 2006, inclusive, fora condecorado pelo delegado-chefe à época, Ricardo Hallak, com a medalha de Honra, Fidelidade e Devotamento da corporação. Governo novo no poder, o discurso na Secretaria de Segurança mudou. Agora é preciso combater as milícias como a que, segundo as denúncias, era chefiada por Tostes e o condecorado inspetor foi afastado.
O crime é mais uma prova da proporção que estão tomando as milícias no Rio de Janeiro. Verdadeiras organizações paramilitares, elas se propõem a fazer o papel que caberia à Polícia: acabar com o tráfico e o consumo de drogas nas comunidades pobres. Com a conivência da corporação, os grupos armados invadem as favelas e expulsam os traficantes. Depois, passam a cobrar dos moradores pela segurança que oferecem.
Os milicianos impõem-se pelo terror. Executam pessoas acusadas de colaboração com traficantes em julgamentos sumários e ameaçam pais de menores flagrados com drogas. Além da segurança, cobram taxas extras pelas instalações de TV a gato e pelo comércio de gás.
Repletas de policiais civis, militares e bombeiros, as milícias já dominam 92 favelas na cidade, segundo levantamento da subsecretaria de inteligência da Secretaria de Segurança. Garantem rendimento extra aos mesmos policiais que deveriam combatê-las. Por isso, encontram caminho livre. Quando traficantes tentam retomar as favelas, a polícia aparece para combatê-los; mas jamais tentou impedir a tomada dos morros pelos milicianos.
Milícias e empresas clandestinas fazem parte do movimento de privatização da segurança que não é novo, nem apenas um fenômeno carioca. No Rio, porém, a coisa começa a tomar forma de guerrilha. As milícias crescem e se fortalecem com a conivência do Estado; quando as autoridades decidirem combatê-las, corremos o risco de mergulhar numa guerra civil.
Foi exatamente assim com as Autodefensas Unidas de Colômbia, há exatos 40 anos. Basta olhar para a situação atual do país para entender do que eu estou falando.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Na Corte de Momo - Parte II

A quarta-feira de cinzas no Rio teve um quê de final de Copa do Mundo. Cheguei para trabalhar com as ruas desertas, um ou outro resto de carro alegórico pelos cantos. Na redação, os maravilhados (adjetivo para quem nasce na Cidade Maravilhosa) pararam de trabalhar pontualmente às 15h45, para vibrar e discutir, eufóricos ou exaltados, a cada "DEZ, NOTA DEZ!" anunciado pela voz grave do locutor oficial das apurações do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio. No fim, ganhou a Beija-Flor, presidida pelo empresário do jogo Aniz Abrão David, o Anísio.
Só para registrar: o carnaval dos bicheiros na Sapucaí custou R$ 58, 5 milhões. Mais do que o Governo Federal gastou em 2006 para combater a malária e a dengue (R$ 51,9 milhões); o triplo do que foi gasto com inteligência de segurança (R$ 19,1 milhões) e mais do que o dobro do que foi gasto por Lula com a Educação Infantil (R$ 26,5 milhões).
As informações são da coluna de Ancelmo Gois n'O Globo.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Na Corte de Momo

Em 2005 eles fizeram um breve ensaio de caixas e bumbos. No ano passado, já mostraram força de bateria, mas ainda um pouco acanhados. Esvaziados, talvez, pela desconfiança escaldada do carioca. Este ano, porém, mostraram que o projeto de retomada do carnaval do Rio como festa popular veio para ficar. Mais de 40 desfilaram nos quatro dias de carnaval, sem contar os que saíram antes do início oficial da festa. 2007 foi o ano dos blocos de rua.
O fenômeno é antigo, mas caiu em desuso com a escalada da violência nas décadas de 80 e 90. Nos anos tristes, apenas os tradicionais saíam, mas poucos foliões venciam o medo de se expor numa festa gratuita, aberta a qualquer um. O resto dos cariocas, sem ter como pagar algumas centenas de reais pelos ingressos do Sambódromo, assistia ao carnaval luxuoso dos bicheiros pela televisão.
Os blocos representam a antítese da Sapucaí, onde só se divertem os turistas que podem pagar caro por fantasias exorbitantes; nos blocos, qualquer um participa. Basta ter animação. Nem fantasias, nem samba no pé são exigidos. Tampouco é preciso muito dinheiro ou talento para organizar um bloco. O princípio é simples: um grupo de amigos com alguns instrumentos de percussão se apropria de um pedaço do espaço público e toca velhas marchinhas de carnaval (daquelas que, por alguma decadência criativa, não são mais compostas no Brasil); ninguém paga nada pra ouvir velhas músicas e logo surge um grupo de foliões despreocupados sambando na frente dos músicos. Alguém inventa um nome engraçado e está formado o bloco.
Os nomes dão o toque de irreverência da festa. Alguns tradicionais são o Imprensa que Eu Gamo, o Cordão do Boitatá (que reuniu 6 mil pessoas este ano na Praça XV), o Bola Preta (puxou 200 mil pessoas pela Avenida Rio Branco, da Cinelândia à Presidente Vargas) e a Banda de Ipanema; outros são conhecidos mais pelos cariocas como o Simpatia É Quase Amor, o Que Merda é Essa?, o Bangalafumenga, o Carmelitas e o Céu na Terra.
Com tanta variedade, vários desfilaram de manhã para impedir superlotação. Mas se enganaram. Mesmo os que desafiaram o sol no carnaval mais quente dos últimos anos ficaram lotados. (Mereceram até atenção da querida M., do Le Bal Masqué, que honrou a Casa da Lagoa com sua visita).
Um belo sucesso para um movimento que renasceu tímido no início desta década e, carnaval após carnaval, ganha espaço. As pessoas foram percebendo, nos últimos anos, que não aconteciam arrastões, confusões, brigas ou mortes. Impera uma espécie de armistício informal na guerra urbana: onde soam os tambores, ninguém faz ataques organizados. No máximo um punguista ou um ladrãozinho barato, nada que nunca tenha existido em qualquer aglomeração de gente.
No mais, a divisão social na Corte de Momo segue à risca a regra das praias: pretos e pobres, em geral, garantem a sua fatia raquítica do PIB nacional debruçados sobre geladeiras de isopor repletas até a boca com o gelo e a cerveja que rega festa dos brancos fantasiados. Quem pode gastar algum se diverte; quem não pode fatura.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Rio Body Count

A morte do menino João Hélio, tema do post anterior, continua monopolizando as emoções no Rio. Com justa razão. Os requintes de crueldade narrados pela mãe na entrevista à Rede Globo só aumentam a indignação em todo o país. Mas, o que poucos sabem, é que João Hélio é apenas um das 119 pesssoas assinadas no Rio de Janeiro. Este ano? Não, apenas desde o dia 1º de fevereiro. Nesse mesmo período, outras 55 foram feridas por arma de fogo.
Eu sei que vocês não têm mais paciência para ler sobre esse lado sombrio da sociedade em que vivemos. Mas é acho que dificilmente ele se resolverá se não olharmos para ele. Os responsáveis por essa estatística pensam como eu. São dois jovens cariocas que, cansados de ver a banalização da violência nas páginas de jornal, criaram o Rio Body Count, inspirado no Iraq Body Count.
O site internacional reporta as mortes de civis causadas pela intervenção americana; a versão nacional reporta todos as vítimas da violência no Rio de Janeiro. No lema, eles cravam: "Não acreditamos em paz vigiada, queremos inclusão social". Quem quiser conferir, pode clicar no selo abaixo.



P.S. - Assim que acabei de publicar este post, cliquei no link para testá-lo e os números já haviam mudado: 120 mortos e 59 feridos. É triste, mas é verdade.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Indignação e esquecimento

O caso aconteceu na noite de segunda-feira e chocou o Brasil inteiro pelos requintes de barbaridade. Dois bandidos abordaram uma família num carro em Oswaldo Cruz, zona Norte do Rio. A mãe de 41 anos estava ao volante, a filha de 13 anos no banco do carona e o filho de 6 no banco de trás. As duas desceram e, quando tentavam tirar o menino pela porta traseira, os bandidos arrancaram com o carro. A criança ficou presa pelo cinto de segurança do lado de fora.
Os bandidos rodaram 7 km por quatro bairros, até abandonar o carro em Cascadura. No caminho, foram seguidos por motoqueiros e outros motoristas que viam a criança presa do lado de fora, sendo dilacerada pelo asfalto. Não pararam. O menino morreu de politraumatismo. Mesmo habituados a ver as piores cenas de horror ao vivo, os primeiros policiais que chegaram ao local choraram.
Presos no dia seguinte, os bandidos alegaram não ter visto que o menino estava preso pelo cinto; pensaram que estavam sendo perseguidos pelos carros e motos que tentavam avisá-los. Testemunhas dizem, porém, que eles dirigiam em zig-zag, como se tentassem fazer com que a vítima se soltasse. Eles só foram localizados pela polícia porque o pai de um deles, ao saber o que o filho havia feito, o denunciou.
Um dos bandidos é maior de idade, não tem passagem pela polícia. Deve ser condenado a 30 anos por homicídio mas vai cumprir no máximo 5. Isso se não for autorizado para pagar sua dívida com a sociedade em liberdade por ser primário. O outro, menor de idade, deve puxar no máximo 3 anos num reformatório, protegido pelo Estatudo da Criança e do Adolescente (que, infelizmente, não foi capaz de proteger a vítima de 6 anos)
O Rio inteiro chora a morte do jovem João Hélio e demonstra sua indignação com a violência. O Globo Online recebeu 2.500 e-mails ontem sobre o caso, recorde absoluto. Mas quanto tempo vai durar essa indignação? Que efeitos práticos a morte de João Hélio terá na melhoria das condições em que vivemos? Provavelmente, ela terá o mesmo fim da morte de 5 pessoas (entre elas uma criança de 1 ano), num ônibus queimado por traficantes em novembro de 2005; que foi o mesmo destino da morte de uma empresária, cujo corpo foi serrado ao meio por um vigia em Botafogo, em agosto do ano passado; e da morte de sete pessoas em outro ônibus incendiado em dezembro passado.
Com exceção dos pais, irmã e familiares de João Hélio, ninguém mais se lembrará de sua morte quando as rainhas de baterias começarem rebolar suas peles queimadas ao som dos tamborins.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Instituições Cariocas 4: Miguel Couto


O nome se tornou famoso no Brasil todo graças ao noticiário viciado em tiros e barracos de tijolos aparentes da TV Globo. Sempre que tem invasão ou guerra em favela, lá aparece Miguel Couto como destino dos baleados, já que esse é o nome do hospital municipal instalado na Gávea que é referência mundial no atendimento de vítimas de PAF (sigla para perfuração de arma de fogo). Só no ano passado, seus 452 médicos atenderam 225 vítimas de tiros e 76 esfaqueados (fora os outros doentes em geral que lotam os 400 leitos disponíveis).
Além do hospital, Miguel Couto também dá nome a uma ruazinha fininha que começa na Avenida Rio Branco e termina na Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio, a um bairro inteiro em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e ao Esporte Clube Miguel Couto, time da 3ª divisão do Rio de Janeiro sediado justamente no bairro iguaçuano.
Com direito a tantas honras, Miguel Couto é famoso quem? É aí que entra a série Instituições Cariocas d'A Casa da Lagoa (devidamente amparada pelo google).
Nasido no Rio de Janeiro em 1º de maio de 1865 (quando esse dia ainda nem era do trabalho), Miguel Couto diplomou-se médico pela Academia Imperial de Medicina em 1883. Estudioso da influenza e da febre amarela, virou professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. E suas teses lhe valeram uma vaguinha na casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras. Apesar de toda a erudição, o velhinho assumiu umas bandeiras meio estranhas: foi ferrenho opositor da imigração japonesa para o Brasil, por exemplo.
Como presidente honorário da Associação Brasileira de Educação, soltou, em 1927, a seguinte frase: "Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobleva em importância e gravidade o da educação". E escreveu um livro intitulado "Só há um problema: a educação". Mais atual impossível. Ironia do destino, o bairro Miguel Couto foi o primeiro de Nova Iguaçu a testar um novo modelo de educação, chamado Bairro Escola, que tenta implantar o período integral e melhorar a qualidade da escola pública.
Por essas e outras, Miguel Couto virou nome fácil em logradouros depois que partiu para a vida eterna, em 6 de junho de 1934.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Herói urbano

O 110 Rodoviária-Leblon parece escolher a dedo os dias em que resolve atrasar: aqueles em que o sol derrete a paisagem no horizonte. Depois de 40 minutos de espera, já embarcado, o vento quente soprando calor pelos vidros abertos, o ônibus pára num ponto e um senhor de muletas, pele toda empipocada, sobe pela porta traseira.
O motorista começa a gritar. O senhor aí, tem subir pela frente, não pode entrar por trás. O velhinho nem aí. O motorista insiste. Tem de subir pela frente, meu senhor. O velhinho fingindo de surdo, o sol aquecendo a estufa sobre rodas. O motorista pede uma terceira vez e um passageiro se irrita. Toca aí, motorista. O homem é velho, tá doente. Vambora.
O motorista não se satisfaz com o início de revolta dentro do ônibus - alguns pelo absurdo de exigir passagem a um idoso doente, outros pela demora sob o sol escaldante -, desce e vai até a porta traseira. Sobe para tirar o ancião explicando que o ônibus agora tem câmera. Fica tudo registrado. Por ele, deixava o velhinho entrar por trás; mas, flagrado pela câmera, vai perder o emprego. O passageiro mais exaltado tira os dois reais do bolso e paga a passagem. Onde fica essa câmera? Lá na frente, aquela caixinha alí, respondeo motorista, apontando para um minúsculo quadrado sobre o retrovisor central.
O passageiro move seu 1,90 em direção à lente e começa um discurso. Pra fazer BBB no ônibus vocês têm dinheiro? Deviam era colocar mais carro na rua, que essa linha demora muito, grita o herói urbano, enquanto o ônibus arranca, sacudido pelos aplausos dos demais passageiros.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Instituições cariocas 3: Ponta do Calabouço

Agora ele enlouqueceu de vez, você deve estar pensando. Quem já ouviu falar nesse lugar? Acredite ou não, se você já esteve no Rio, tem grandes chances de ter pisado exatamente em cima da Ponta do Calabouço. Pois ali, onde pousavam os primeiros hidroaviões que vinham de todo o Brasil e até do exterior, começou a nascer, em 1934, a instituição carioca sobre a qual versa este post: o Aeroporto Santos Dumont.
Para que todos nós pudessemos chegar de São Paulo bem no centro do Rio, o governo federal jogou mais de 2,7 milhões de metros cúbicos de terra sobre 370 mil metros quadrados da Baía de Guanabara. Em 1936, com uma pista de 700 metros de comprimento, ele se tornou o primeiro aeroporto civil a ser inaugurado no Brasil.
Agora, aos 71 anos, esse velho aviador está passando por uma recauchutagem. As autoridades decidiram que ele precisava da plástica para dar conta de receber 8,5 milhões de passageiros por ano. Do jeito que está hoje, recebe 3,5 milhões - gente que passa por um de seus quatro portões na acanhada salinha de embarque ou desembarca a pé, pelo único gate de saída. Oficialmente, porém, ele só tem capacidade para 1,8 milhão de viajantes por ano.
As obras começaram em 2004 e deveriam ter ficado prontas em janeiro. Não ficaram e estão agora, prometendo aprontar até abril o novo terminal de embarque.
Maravilha da engenharia aeroportuária moderna, a nova sala será toda envidraçada. Inclusive no teto (para que os viajantes não percam a vista de outras instituições cariocas como o Corcovado e o Pão de Açúcar). E terá nove pontes que vão despejar os passageiros diretamente dentro das aeronaves, à moda das linhas de produção em massa.
O que é uma pena. Sem a romântica caminhadinha pela pista, não vai mais ser possível contemplar um nascente como esse aí de baixo, que fotografia manhã dessas, a caminho de São Paulo.


quinta-feira, janeiro 25, 2007

Respeitável público

Minha companheira de blog odeia quando volto ao tema. Queixa-se de que falo muito de violência. Talvez esteja certa. Mas, às vezes, não consigo evitar. O tema da vez é a tão Força Nacional de Segurança, panacéia para todos os males da segurança.
O governo federal gastou milhões treinando a elite de policiais para compor a tal força. E quando o Rio foi atacado, às vésperas do Revéillon, acertou com o novo governador o envio de sua tropa para a cidade. Nós, moradores, enchemo-nos de esperança. Depois de oito anos de esquizofrênia fundamentalista no Palácio da Guanabara, o Rio voltava a admitir seus problemas e a aceitar ajuda externa - primeiro passo para solucioná-los.
Os Boinas Vermelhas do presidente chegaram e foram subordinados ao comando da segurança Estadual. Ato contínuo, os melhores e mais bem treinados policiais de todo o território nacional foram enviados para o patrulhamento das divisas do Estado.
Enquanto a guerra evolui na capital, lenta e gradualmente, a elite da tropa brinca de vigilante rodoviário nas estradas. Só falta o cão Lobo, daquele antigo seriado, para a pantomima ficar completa.
E o governador Sérgio "Jânio Quadros" Cabral? Depois de começar o governo no melhor estilo populista, invadindo de supetão os plantões dos hosptiais públicos e demitindo diretores recém-empossados, recolheu-se à insignificância do seu gabinete, onde o ar refrigerado o livra de entrar em contato com o calor viscoso das ruas da Guanabara.
Será que os Boinas Vermelhas foram enviados para bem longe justamente para não atrapalhar os lucrativos negócios escusos que beneficiam a estrutura de segurança do Estado, a mesma que assumiu o comando da elite da tropa federal?
Mudam governos, mudam políticos, mas o Rio continua sendo transformado num enorme picadeiro de circo, onde os palhaços, infelizmente, somos nós.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Instituições Cariocas 2: Biscoito Globo

Ele combina com a areia branca tanto quanto o sol e a água salgada do mar. Na hora daquela fominha, preenche na medida exata a gula. Alimentar, não alimenta; mas é bom demais. E barato. Dois reais compram um saquinho de papel-manteiga encerado, enrolado nas pontas, com 30 gramas da guloseima. Disponível em dois sabores: salgado ou doce.
É verdade que existem biscoitos de polvilho em qualquer lugar. Mas o "bixcoito Globo", como anuncia o sotaque do ambulante, é um clássico carioca. Motivo de orgulho para os locais (quase tanto quanto o Pão de Açúcar e o Cristo Rendetor), embala lembranças de infância ensolarada para quem tinha por rotina visitar a brisa da tarde no mar de domingo.
Acreditem os cariocas ou não, esse cinquentão de que tanto gostam nasceu em... São Paulo. Mais precisamente no bairro do Ipiranga, em 1953, quando três irmãos (Milton, Jaime e João Ponce) se mudaram para a padaria de um primo depois da separação dos pais.
Eles começaram ali a fabricar a receita que mistura água, polvilho, sal e gordura vegetal (até hoje orgulham-se de não usar qualquer tipo de corante, conservante ou antioxidante). Em 1954, vieram ao Rio para vender a guloseima durante um Congresso Eucarístico. Foi um sucesso e eles perceberam que iam fazer mais sucesso na areia do que no asfalto. Mudaram-se, então, para uma panificação em Botafogo, chamada Globo.
O biscoito caiu no gosto dos cariocas e virou mito. Até hoje é disputadíssimo e não só pelos banhistas glutões. Os vendedores ambulantes também sofrem para consegui-lo na Panificação Mandarino, que os fabrica na Rua do Senado, Centro do Rio.
Formam filas enormes desde as onze da noite e dormem na calçada para conseguir um fardo, com 50 saquinhos. Um único por vendedor. Quando chove, a fila diminui e é possível levar dois ou, com sorte, até três.
Percebendo a demanda reprimida -, uma panificação de Olaria lançou o biscoito Extra (alusão ao jornal popular do grupo Globo). Com distribuição descentralizada, tenta ganhar o mercado do concorrente. Também pratica preços mais baixos nos cruzamentos (um real), embora na praia, em geral, custe o mesmo.
Os consumidores mais puristas, porém, garantem que o Extra não é tão bom quanto o Globo. Confesso que ainda não provei.


domingo, janeiro 14, 2007

Instituições cariocas 1: pôr-do-sol na lagoa

Há muitos lugares no Rio de onde se pode admirar o pôr-do-sol. No arpoador, o pessoal até bate palmas quando o último pedacinho de sol desaparece atrás do Dois Irmãos. Mas o pôr-do-sol que está mais presente na minha vida carioca é mesmo o da Lagoa.

Agradeço aos Deuses toda vez que desço do ônibus, chegando do trabalho, e vejo aquele céu rosa-dourado atrás da Pedra da Gávea. Na boa, parece meu suco de maracujá com repolho roxo, onde o amarelo e o rosa parecem ter sido feitos um pro outro (claro que meu suco não tem o brilho do céu, nem aqueles fiozinhos de ouro que se formam no contorno das nuvens). Acho que no Rio os Deuses têm photoshop. Só pode ser... Pra pintar o céu naquelas cores, naquela intensidade, com uma tonalidade diferente a cada dia. Nada mais sábio como a natureza para recriar a rotina em tantas versões originais.

Ontem, saí apressada para pegar um filme na locadora dez minutos antes dela fechar. Mas quando cheguei na rua, vi aquele céu cor de suco-de-maracuja-com-repolho-roxo-mais-os-fios-dourados. É paralisante, um insulto resistir. Voltei correndo e peguei a câmera pra compartilhar com vocês esse momento. Taí embaixo:

(Detalhe: cheguei na locadora meia-hora depois e ela ainda estava aberta. Acho que eles também pararam o relógio para se despedir do sol).

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Pombas e poemas

Novo ano, nova esperança de paz. Era mais ou menos assim que começava a última frase do meu último post, sobre o réveillon em Copacabana. Exatamente num início de ano violento no Rio, cenário e razão da existência deste blog. A esperança, coitada, deve andar gasta de tanto rolar na caixa de nossas bocas sempre que queremos empurrar aos outros um problema.
Todo ano é igual. Cheios de esperança, ficamos à espera de que a paz apareça e se instale por milagre. No máximo, vestimos uma roupa branca e fazemos um pedido a Yemanjá no dia 31 de dezembro. No dia seguinte, farda despida, já estamos de volta à guerra diária. Nas discussões em família, nas brigas no trânsito, nos destemperos cotidianos.
Aprendi tudo isso com um velhinho. Testa avançada sobre a cabeleira branca, óculos de aro grosso, ele é figura fácil na Cobal de Humaitá. Carrega uma pastinha cinza debaixo do braço e, dentro dela, folhas A4 com um texto impresso, que distribui às pessoas com a recomendação:
- Espalhe. O mundo está precisando de paz.
Foi exatamente assim que ele nos abordou outro dia, na mesa do Rio Vegetariano. O texto, atribuído a Gandhi, fala em nos doarmos para ajudar a transformar o outro. Termina assim:
"Retome a bondade. E doe-a a quem não sabe doar.
Descubra o amor e faça o mundo conhecê-lo."
Assim que levantei os olhos do papel, dei com o velhinho ralhando com a garçonete que demorava a atendê-lo. A paz que ele pretendia espalhar pelo mundo, pelo visto, estava só na pastinha cinza. Paz não se espera; se pratica.

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Quem terá sido o gênio que atribuiu à pomba branca o símbolo da paz? Logo a pomba, tão pequena e difícil de pegar (quem nunca correu, criança, atrás de uma pomba?).
Será por isso que a humanidade nunca encontra a paz? Será que ela pode ser comprada por um punhado de euros na Piazza San Marco, em Veneza? Lá, com milho nas mãos, qualquer um vira poleiro de dezenas de pombas.
O que a humanidade conseguiu com esse simbolismo ridículo foi exportar o preconceito para o mundo das aves. Em qualquer pet shop, uma pomba branca custa o dobro de uma pomba mesclada ou de uma cinza. Afinal, ela é da paz.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Feliz Ano Novo

Elas começaram a chegar no final da tarde, vindas do mundo todo. Acotovelavam-se na estreita faixa de areia branca. Vinham em busca de luzes, mas não as do sol. E, sob os guarda-sóis, abrigavam-se de uma fina garoa na derradeira noite de 2006. Quando o relógio deu meia-noite, começaram os tiros, explosões. A fumaça subiu. Mas ninguém correu na cidade, que havia três dias vivia aterrorizada pela violência de arruaceiros organizados. Aqueles 20 minutos de estouros luminosos anunciavam 2007. Um novo ano, uma nova esperança de paz para um milhão de pessoas que foram assistir à famosa queima de fogos do Réveillon de Copacabana.

O filminho abaixo é para quem quiser ter um gostinho (em um minuto) do que foi o show de fogos.