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quarta-feira, dezembro 05, 2007

Os feriadões da Justiça

O caso aconteceu no último feriado de novembro, mas só chegou ao conhecimento da Casa da Lagoa esta semana, numa conversa de borda de piscina com a mesma juíza que é coleguinha de natação do diálogos roubados IV. Ela contou que, durante o longo feriadão, a polícia do Rio interceptou um grande carregamento de armas que saía do Morro do Alemão com destino a Niterói.
O flagrante foi enviado ao plantão criminal do TJ, mas o plantonista, desacostumado com assuntos dessa natureza, leu o ofício e achou de encaminhá-lo à uma vara de Niterói. O certo teria sido enviá-la para a vara que abrange a área de Ramos, na qual atua a coleguinha. Resultado: o juiz de Niterói devolveu o processo, mas nesse caminho todo de idas e vindas, passaram três dias.
Como a lei diz que a polícia deve informar ao juiz sobre o flagrante em até 24 horas para manter o criminoso preso, o bandidão que transportava fuzis, pistolas e munição para Niterói durante o feriado foi solto.
A coleguinha jura que, embora lamentável, foi um engano do funcionário. Afinal, ele não era da área, porque os da área estavam no feriadão.
Coincidentemente, um engano providencial para uma das partes.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Tropa de Elite


Assistir ao filme título deste post no Rio é diferente de assisti-lo em qualquer outro lugar da cidade. Aqui, a platéia se reconhece em cada esquina de Copacabana, em cada desleixo das personagens policiais, em cada viatura esculachada que aparece na oficina do Aspira. Tropa de Elite, antes de ser um filme brasileiro, é um filme carioca.
Aconteceram por aqui casos em que a platéia aplaudia cenas de tortura e de assassinato de bandidos. E aplaudia ferozmente a cena em que o estudante playboy, traficante da faculdade, apanha de um dos policiais. Na sala em que eu assisti, a platéia era silenciosa.
Já ouvi todo tipo de comentário e o mais comum é de que o filme é facista, defensor da violência policial. Acho que quem chegou a essa conclusão caiu na armadilha mais óbvia do filme: ele é narrado por um policial que, portanto, não tem uma visão tão crítica da instituição. O cara faz parte dela.
O que as pessoas não percebem é que, embora diga o tempo todo que o Bope é a melhor polícia do mundo, com critérios de seleção mais rigorosos que o do Exército de Israel, um batalhão onde não existe corrupção, o capitão Nascimento quer deixar a tropa. E o filme mostra, nas cenas cruas de assassinato e tortura de inocentes, porque ele quer sair da corporação. Nascimento vai ter um filho e quer voltar a ser humano.
A impressão que dá é que, embora adotem o discurso de que as atitudes do Bope são um absurdo, as pessoas não conseguem enxergar a crítica velada que o filme faz a elas porque, inconscientemente, concordam com esse modo de operação. São vítimas de uma herança do modelo punitivo de estado colonial, onde os ricos podiam tudo e aos pobres restavam os chicotes da senzala.
A mensagem principal que o filme deixou para mim foi de que nunca vamos resolver a questão da violência, no Rio ou no Brasil, se continuarmos apelando para mais violência. Esse caminho, adotado pelos homens de preto, expulsa da instituição todos que ainda têm algum sentimento humano dentro de si, mesmo que pequeno. Só restam os brutos e os selvagens dentro das fardas. E esses não servem para resolver nada.
*****
O mais triste de tudo foi constatar que, nos Estados Unidos, os roteiristas quebram a cabeça inventando perseguições mirabolantes, terroristas caricatos e toda sorte de maluquices para criar cenas de ação. Aqui, a gente só usa a realidade.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Quando a gente menos espera...

Dá de cara com a violência dos noticiários. O meu encontro foi só um susto, uma fração de segundos. Saía de táxi do local onde trabalho com destino à rodoviária. Passavam dez minutos das onze da noite. O táxi dobrou a esquina, eu notei um carro de polícia parado, todo apagado, um policial militar de cada lado da rua, fuzis nas mãos.
Vi quando o PM à minha direita abanou o braço direito dando sinal para o táxi parar, notei o motorista começando a acelerar, sem perceber o sinal. O PM se assustou e já começou a apontar o fuzil. Eu gritei:
- Pára aí, irmão, ele tá mandando parar.
O motorista, que estava desatento, meteu o pé no freio e acendeu a luz interna do carro, bem a tempo de parar a minha cabeça na mira do cano do PM.
- Que é isso irmão? Tá maluco? - mandou o meganha.
- É do diário LANCE!, foi mal. Não tinha visto você aí.
- Precisa colaborar com o trabalho da gente, irmão. Quer tomar um tiro?
E nos liberou. Fiquei imaginando o que teria acontecido se eu estivesse cochilando no banco direito, como quase sempre acontece quando volto do fechamento.

quinta-feira, julho 26, 2007

A chama apagou

A ilha da fantasia a que se referia o primeiro post deste blog virou ainda mais fantástica desde que chegou ao Maracanã a tocha com a chama pan-americana. De repente, os cariocas redescobriram que o Rio também é legal à noite. Voltaram a caminhar pelos calçadões depois do pôr-do-sol, a correr na ciclovia da lagoa, a sair de seus bunkers fortificados onde se protegem da violência (real ou imaginária) quando não existem Jogos internacionais na cidade. Nem Força Nacional de Segurança armada em cada esquina.
Os crimes sumiram dos noticiários; os repórteres de polícia do maior jornal da cidade puderam guardar seus coletes à prova de bala nos armários por duas semanas; e o carro blindado da reportagem ficou na garagem da redação. Até parecia uma cidade normal de novo.
Mas aí, como nada é perfeito, o tempo virou. E a chuva chegou apagando a chama no Maracanã. Foram só 15 minutos sem pira acesa, na manhã de terça-feira, mas foi suficiente. No final do dia, o som dos tiroteios voltou a encher o ar da Cidade Nova. Só para lembrar que está próximo o fim do Pan de R$ 4 bilhões do Rio e, como sempre acontece, tudo vai voltar ao normal.

sexta-feira, junho 29, 2007

Gente invisível

Você já parou para pensar na quantidade de gente invisível que atravessa o seu caminho durante um dia? Essas pessoas com quem cruzamos na rua, dividimos o banco do ônibus ou o ambiente do trabalho e nem notamos? Há casos extremos em que elas freqüentam nossas casas (para fazer serviços que nossos bacharelados rejeitam) sem que lhes dispensemos dois minutos de conversa. É uma forma de violência.
Eu procuro sempre notar as pessoas invisíveis. Os seguranças da rua onde moram, por exemplo, espantavam-se quando eu passava por eles dando bom dia. Agora já se acostumaram e quando me vêem, cumprimentam antes. Os motoristas da linha 110, que tomo todos os dias, me olhavam como um ET no começo, quando eu subia no ônibus cumprimentando. Agora também já me conhecem e algumas vezes esperam no ponto, quando vêem que estou chegando.
Quanto mais gentileza genuína distribuímos, mais gentileza recebemos de volta. É um círculo virtuoso. Aprendi isso com os meus pais, que sempre valorizaram as pessoas pelo que elas são e não pelo que têm ou pela grife que usam. E eles nunca precisaram me dar uma aula sobre o assunto. Aprendi pelo exemplo, porque eles agiam assim.
Todo mundo, por mais simples que seja, tem uma história para contar e algo de sua experiência de vida para ensinar. Precisamos recuperar a capacidade de valorizar isso. Para evitar, no futuro, que mais monstros bem nascidos se achem no direito de espancar outro ser humano (que para eles não significava nada, era apenas uma empregada doméstica) num ponto de ônibus na Barra da Tijuca.

segunda-feira, junho 11, 2007

Tá tudo dominado

Meu sonho era usar este espaço para textos saborosos, divagações sentimentais, mas minha veia jornalística não resiste... Dados de um estudo do ex-secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho revelam que, em 2006, a polícia do Rio de Janeiro efetuou 16.543 prisões em todo o Estado.
O que vocês acham? É muito, pouco, mais ou menos? Então vamos lá.
Segundo o mesmo estudo, a polícia de São Paulo, onde a violência atinge níveis semelhantes aos do Rio (quem não concordar pode deixar comentário espinafrando), foram efetuadas, no mesmo período, 128.135 prisões.
Gostaram do número? Já estão tentados a rasgar elogios à corporação paulista? Calma.
Em Nova York, onde a violência é infintamente menor, foram efetuadas 340 mil prisões em 2006. Isso mesmo, os meganhas yankees prenderam 20 vezes mais que seus colegas da Guanabara.
Alguém ainda quer saber por que a criminalidade está fora de controle há duas décadas no Brasil?
Agora sim eu entendo a razão de, em um ano meio morando no Rio, nunca ter visto uma viatura de polícia com a sirene aberta no trânsito. Como dizem por aqui, "tá tudo dominado".

quarta-feira, maio 30, 2007

Balas e frases perdidas

Amanhã (quinta) faz um mês que a guerra estourou no Complexo do Alemão. A polícia ocupou o conglomerado de favelas por causa do assassinato de dois PMs e desde então já morreram 17 pessoas e outras 79 foram feridas pelas perdidas. Ontem, o secretário de Segurança Pública do Rio, saiu-se com a seguinte frase para explicar as dificuldades que a polícia vem enfrentando no local:
- Não é possível que num local onde moram 130 mil pessoas não chegue uma informação para a ouvidoria, para o Disque-denúncia, enfim, para qualquer órgão, com alguma estratégia do tráfico.
Será que ninguém denuncia nada porque a lei do morro manda matar X-9, 'dedos-de-seta' e colaboradores da polícia em geral? Se a polícia do secretário garantisse a segurança da população, ninguém se furtaria a colaborar. Mas aí viveríamos numa cidade onde a polícia seria eficiente e, nesse caso, ela nem precisaria de delações. Teria inteligência suficiente para descobrir sozinha as estratégias do tráfico.
Não sei o que é pior nessa guerra: a quantidade de balas ou a de asneiras perdidas.

segunda-feira, maio 28, 2007

Telegolpe

Dia desses o telefone toca logo cedo na casa de um amigo. A mãe dele atende:
- Alô.
- Aí, a gente pegou teu filho. Se você não fizer o que a gente mandar ele vai morrer, tá entendendo?
Ela desliga. Levanta da cama e vai até o quarto do filho. Ele dorme profundo, depois da night de sábado. O telefone começa a tocar de novo, ela o acorda, explica o que está acontecendo, ele atende:
- Alô.
- Por que essa vaca desligou? Tá querendo ver o filhinho morto? A gente não tá de brincadeira não.
- Amigo, eu sou o filho dela.
- Aí vacilão, é o outro, é o outro. A gente tá com o outro.
- Ela não tem outro filho...
- Tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu

terça-feira, maio 08, 2007

Santuário ameaçado

O seqüestro de um jovem estudante, desvendado na semana passada pela políca, está chocando os moradores da Barra da Tijuca. Não por ter sido seqüestrado mais um jovem de classe média-alta, isso já é comum no Brasil todo, mas pelo fato de o crime ter sido cometido por quatro porteiros de condomínios do Jardim Oceânico, um dos bairros pioneiros do santuário contra a violência em que foi transformada a Barra.
De repente, os moradores dos condomínios descobriram que, além de passarem o dia expostos à violência banal das ruas em que transitam para ir ao trabalho, também podem estar dormindo com o inimigo do lado de dentro de seus portões inexpugnáveis. Para piorar a situação, a polícia diz que os porteiros seqüestradores iriam executar a vítima assim que o resgate fosse pago. Um dos integrantes da quadrilha trabalhava no condomínio onde o estudante morava e havia sido reconhecido.
Pra mim o episódio é emblemático do que as pseudo-intelectualidade da sociologia gosta de chamar de "esgarçamento do tecido social". Os seqüestradores não eram traficantes ou assaltantes favelados, os vilões tradicionais que a sociedade carioca já se acostumou a tolerar. Eram trabalhadores, empregados com carteira assinada, moradores de casas nas cercânias, que recebiam seus salários religiosamente no fim do mês. Todos eles tinham carros próprios, um inclusive tinha também moto, e ninguém ali estava passando necessidade extrema para imaginar um seqüestro, crime hediondo e inafiançável, que ainda por cima terminaria em homicídio.
Os simplistas dirão que eles eram monstros sem coração, movidos pela ganância. É o caminho mais fácil para virar a página do jornal sem fazer nada. Porque o caso, claramente, é produto da desigualdade de renda insuportável deste país. Os mais ricos não querem dividir nada, mas não percebem que já pagam um preço alto, seja em aparatos de segurança, seja em vidas de parentes e amigos assassinados, pela riqueza que só querem acumular.

sábado, maio 05, 2007

Proibido Proibir

O título do mais recente filme do chileno Jorge Durán remete a uma produção de época, ambientada nos tempos duros da ditadura militar. Talvez tenha sido proposital. A história de Proibido Proibir retrata abusos de autoridades policiais corruptas contra jovens, mas desta vez no Rio de Janeiro conflagrado dos dias de hoje. Os jovens também não são tão idealistas como os da luta armada dos anos 70.
Pra quem se interessar, faço abaixo uma longa resenha. Mas a razão principal deste post não é falar dos erros e acertos do filme e sim de uma situação emblemática que surge na tela (e que está exposta na foto acima). Num determinado momento da trama, policiais matadores perseguem inocentes numa favela. Os atores contracenam vestidos com fardas oficiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro e usam, inclusive, uma viatura real no momento em que levam as vítimas para uma execução num lixão.
Pode ser que eu esteja enganado, mas não me lembro da Polícia Militar de algum outro Estado permitir o uso de fardas ou viaturas oficiais em sets de filmagens, nem quando a trama, em tese, era neutra à corporação. Muito menos quando retratava situações desfavoráveis à imagem da instituição, como é o caso em Proibido Proibir.
O fato de a PM do Rio permitir isso mostra que nem a alta cúpula se preocupa com a imagem da corporação. O que ajuda a entender a situação de descalabro em que se encontra a polícia carioca, sempre envolvida em escândalos de corrupção, e cuja tropa é acusada de liderar mílicias justiceiras nos morros da cidade. Por coincidência, assisti ao filme no mesmo dia em que o tiroteio entre policiais e traficantes cessou na Vila Cruzeiro, favela da Penha. E para desmoralização da tropa, o cessar fogo foi ordenado por chefões do crime encarcerados no presídio de segurança máxima de Bangu.

A RESENHA
O drama principal de Proibido Proibir se desenrola em torno da relação entre Paulo (Caio Blat), Letícia (Maria Flor) e León (Alexandre Rodrigues). Paulo é um estudante de medicina talentoso e porra-louca, que vive drogado a maior parte do tempo. Ele divide apartamento na periferia do Rio com León, estudante de sociologia, negro, o certinho da dupla, que namora Letícia, uma linda estudante de arquitetura de classe abastada. Por quem Paulo obviamente se apaixona. Pra piorar, ele começa a ser correspondido por Letícia.
O filme estaria bem resolvido se Durán tivesse se contentado em trabalhar esse trio amoroso. Mas o cacoete da denúncia social (pra quem não lembra, são dele os roteiros de Lúcio Flábio, Passageiro da Agonia e Pixote, entre outros) o fez colocar a história do trio num drama paralelo que expõe as chagas do caos social do Rio.
No Hospital Universitário, Paulo conhece Rosalina (Edyr Duqui, em maravilhosa interpretação), uma paciente terminal. E promete a ela encontrar seus filhos. O problema é que um deles foi assassinado por policiais corruptos e o outro está jurado de morte. O trio então resolve tirá-lo da favela e é aí que o roteiro se perde numa profusão de pontas soltas e tentativas de soluções quase infantis.
Nada disso, porém, me faria desaconselhar os amigos a assistir o filme. Os 100 minutos da fita passam em ritmo acelerado. Só os muito exigentes sairão realmente desapontados da sala.

terça-feira, abril 03, 2007

Pequenas provas de que o mundo está perdido

(Garimpadas em colunas recentes do Ancelmo Góis, em O Globo)

- A Assembléia Legislativa do Rio decidiu reformar a fachada do prédio anexo. Vai trocar as placas de alumínio do projeto original por pedras. Motivo: gatunos roubaram as placas para vender como sucata. Em pleno centro da cidade.
- Os 1.200 alunos de uma escola municipal da Rocinha ficaram sem aulas o mês de março inteiro. Motivo: um vazamento de esgoto das moradias em volta desembocava dentro das salas de aula, tornando insuportável a permanência no local. Como a prefeitura demorava a tomar providências, os traficantes baixaram a ordem: os moradores tinham um fim de semana para desentupir os canos e limpar a escola, ou seriam mortos. Na segunda-feira seguinte, as aulas recomeçaram.
- Uma passageira da linha 464 Leblon-Maracanã foi assaltada dentro do ônibus na última sexta-feira, por volta de 14h. Os ladrões eram três velhinhos bem vestidos, aparentando por volta de 70 anos de idade.
- Uma aluna da UniverCidade, no Rio, fez a seguinte pergunta durante uma aula de história do Brasil: "Professora, por que o Tancredo Neves deu o golpe de 1964?"

domingo, março 18, 2007

Plantão dos famintos

Todo fim de semana a história se repete. Como a lanchonete não abre e não tem nada por perto da Cidade Nova, os condenados ao plantão ficam sem ter o que comer o dia todo. A solução sempre foi apelar para os deliverys das redes de hamburgueres.
A novidade é que esta semana, ambas deixaram de entregar comida na região. A atendente informa que, devido ao grande número de assaltos, os entregadores não trazem mais comida no bairro. Segundo ela, os bandidos não levam dinheiro; pedem o lanche e, quando o motoqueiro chega, mostram a pistola em lugar de pagar o pedido.
Um colega sugeriu que explicássemos a ela que esses roubos acontecem na vizinhança, mas que nós, aqui na empresa, não roubamos ninguém. Eles podem entregar sossegados que pagamos nossos pedidos. Boa essa.
Claro que ninguém pensou em chamar a polícia. Nem nós, nem as redes de hambúrgueres. Vai ver ficaram com medo de os guardas pedirem um lanchinho de graça também.

segunda-feira, março 12, 2007

Lições da Floresta da Tijuca

A descrição choca logo na quinta palavra: "É a maior floresta artificial do mundo", diz o texto num site turístico. Artificial? Como assim? Estamos falando da Floresta da Tijuca, com seus 39 km² de extensão sobre a Serra da Carioca. Em outras palavras: todo aquele verde ancorado na paisagem da Zona Sul do Rio, sob os pés do Cristo Redentor, cobrindo o Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, a Pedra Bonita, o Pico da Tijuca...
O termo 'artificial' talvez não seja o mais correto, já que as espécimes de Mata Atlântica são verdadeiras. Mas o fato é que nem sempre a floresta foi assim. Descobri isso ontem, numa longa caminhada de 15 km pelo Parque Nacional e pelo caminho das Paineiras.
Para explicar a história, é preciso voltar ao Brasil colonial. A chegada da família Real Portuguessa ao Rio (199 anos completados no dia 8 de março) impulsionou o crescimento da cidade e os morros da Serra da Carioca começaram a ser desmatados. A madeira era usada como lenha e, em seu lugar, surgiram lavouras de café.
Todos os rios que abasteciam a cidade nasciam naquelas montanhas e o desmatamento indiscriminado reduziu drasticamente o fluxo de água. Como conseqüência, já no Império, a capital começou a sofrer estiagens. D. Pedro II ordenou, então, o reflorestamento do local, numa atitude pioneira no mundo.
As desapropriações das terras começaram em 1854 e o reflorestamento em 1861, sob o comando do Major Gomes Archer, primeiro administrador da Floresta, que trabalhava com seis escravos. O replantio era feito com espécimes nativas da Mata Atlântica. Em 13 anos, Archer e seus escravos (mais tarde a equipe incorporou 22 trabalhadores assalariados) plantaram 100 mil mudas. De 1874 a 1888, o Barão Gastão d'Escragnolle, segundo administrador da Floresta, introduziu mais 30 mil mudas e começou a transformar o local numa área de lazer. Quem caminha hoje pelas montanhas da Serra da Carioca não é capaz de encontrar diferenças para uma reserva original de Mata Atlântica. A paisagem tem cachoeiras, micos, tudo o que se espera encontrar numa floresta original.
Se você já chegou até aqui, deve estar se perguntando por que é que não coloquei uma foto sequer de toda esta exuberância. É simples. Fui impedido de fazer fotos. Pela violência. No dia anterior à minha visita, 40 pessoas foram assaltadas numa das trilhas do parque. E não foi a primeira vez este ano. Amedrontado, deixei a câmera em casa.
A Floresta da Tijuca é uma prova de que, com vontade política, é possível transformar uma realidade desfavorável e de que negligenciar os problemas não ajuda a resolvê-los. Se nossos governantes se inspirassem no estilo do velho imperador das barbas brancas, talvez vocês pudessem ver as fotos da floresta plantada por ele, em lugar de ler tantos posts sobre mortes e barbaridades, que surgem neste blog com mais freqüência do que eu gostaria.

sexta-feira, março 09, 2007

A banalização das balas perdidas

- Qual era o sonho da sua filha? - perguntou o repórter.
- Moço, quem mora no morro, não tem direito a sonho - respondeu a mãe.
Esse foi o lide de uma reportagem de O Globo desta semana, sobre a morte de Alana Ezequiel, 13 anos, vítima de uma bala perdida numa favela de Vila Isabel. Alana havia acabado de deixar a irmã menor, de 2 anos, numa creche, quando traficantes do Morro dos Macacos começaram a atirar contra o Caveirão, o carro blindado que a Polícia Militar do Rio usa para subir favelas. Os policiais revidaram e Alana ficou no meio do fogo cruzado. Uma bala de fuziu perfurou seus dois pulmões, fígado e a coluna.
A doméstica Edna Ezequiel, mãe de Alana, enterrou a filha no Cemitério do Caju, graças à ajuda da Santa Casa de Misericórdia, que pagou as despesas. No funeral de Alana não tinha governador nem secretário de Segurança Pública chorando. Talvez porque morrer de bala perdida, nesta cidade, já não seja considerado tão trágico quanto ser arrastado por sete quilômetros preso a um cinto de segurança, como sucedeu ao pequeno João Hélio. Segundo um levantamento do Fantástico, a cada dois dias um carioca é ferido por bala perdida. Das vítimas, 20% seriam crianças com menos de 13 anos. Os casos mais recentes:

* Adriele Medeiros Nobre, 9 anos, morta por bala perdida na Favela do Jacarezinho em novembro do ano passado;
* Jessé Veríssimo Arivaldo, 6 anos, morto por bala perdida em Vigário Geral no mesmo mês;
* Rennan da Costa Ribeiro, 3 anos, morto nos braços da avó durante um tiroteio em bandidos e PMs na Favela Nova Holanda, em outubro de 2006;

Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara, olhai por nós.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Tapa na cara

Christian Pierre Doupes, de 38 anos, Delphine Douyère, de 36, e Jérôme Faure, de 42, franceses, moravam no Brasil há mais de 12 anos. Fundadores da ONG Tarr'Ativa, dedicavam suas vidas a ajudar menores de rua. Tinham programas que usavam o esporte e a cultura para tirar as crianças do caminho das drogas e do crime. Um dos maiores orgulhos da ONG era Társio Wilson Ramirez, de 25 anos.
Társio vivia nas ruas de Copacabana quando Delphine o conheceu. Incluído nos programas do grupo, conseguiu se recuperar e começou a trabalhar para a ONG, na Rua Ronald de Carvalho, no mesmo bairro. Ontem, Társio assassinou os três franceses a facadas, com requintes de crueldade, no escritório que dividia com eles. Matou porque havia sido descoberto por Jérôme desviando fundos da entidade que o tirara das ruas. Havia roubado R$ 80 mil. A vida de cada um dos franceses valia menos de R$ 27 mil para Társio.
Delphine era casada com Christian e os dois deixaram um filho, Max, que havia completado dois anos no domingo.
Mais um crime que choca a cidade e o mundo. E que coloca mais lenha na fogueira dos debates sobre pena de morte, redução da maioridade, capacidade de recuperação de infratores e etc. Os franceses são apenas mais três no incrível número acumulado pelo Rio Body Count no curto mês de fevereiro. Confira:

domingo, fevereiro 25, 2007

Mais sobre milícias

Em dezembro do ano passado, a deputada federal Marina Magessi, então inspetora de polícia do Rio, deu a seguinte declaração ao jornal O Globo:
- Todo rico tem segurança privada. E o dono da segurança é um coronel ou delegado que subcontrata os praças. A segurança dos pobres é a milícia.
De fato, as milícias que tomam os morros e sobre as quais versa o post anterior são uma versão mais agressiva das empresas clandestinas de segurança que se popularizaram nas ruas das classes média e alta nos anos 90. A rua onde ficam as instalaçãoes físicas desta Casa da Lagoa, por exemplo, é guardada 24 horas por seguranças contratados por uma empresa chefiada por um major da PM que quase todo dia passa, fardado, para dar orientações aos seus funcionários. Sem o menor constrangimento.
A diferença: no bairro dos ricos, eles não ameaçam diretamente quem não paga. Mas quem vai ter coragem de cancelar o serviço? Afinal, os praças (que durante a noite tiram profundos cochilos nas guaritas, incapazes de guardar a si próprios) conhecem a rotina dos moradores.
Recebendo pagamento por fora, os policiais conseguem fazer o trabalho que são incapazes de realizar como agentes pagos pelo Estado: manter a violência afastada. Se eles conseguissem cumprir a missão como agentes do Estado, não poderiam cobrar por fora.
A violência só aumenta porque se transformou num grande negócio, explorado até por quem deveria combatê-la por ideal. Será que é por isso que a gente fica com aquela impressão de que a polícia não faz nada quando somos obrigados a registrar uma ocorrência na delegacia?

sábado, fevereiro 24, 2007

Bogotá-Rio

A caminhonete preta Hillux, 4X4, foi intercepetada por um astra também preto numa rua calma do Recreio dos Bandeirantes no meio da tarde da última quinta-feira. Quatro homens desceram armados de pistolas e fuzis (FAL e AR-15, provavelmente) e despejaram 46 tiros sem pronunciar palavra. Ao volante, o inspetor Félix dos Santos Tostes, 49 anos, 18 deles dedicados à Polícia, morreu com 40 tiros.
Tostes havia sido afastado no dia 30 de janeiro, sob a acusação de chefiar a milícia que vende segurança na Favela de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, zona Oeste da cidade.
No governo passado, ele servira no gabinete do chefe da Polícia Civil. Em setembro de 2006, inclusive, fora condecorado pelo delegado-chefe à época, Ricardo Hallak, com a medalha de Honra, Fidelidade e Devotamento da corporação. Governo novo no poder, o discurso na Secretaria de Segurança mudou. Agora é preciso combater as milícias como a que, segundo as denúncias, era chefiada por Tostes e o condecorado inspetor foi afastado.
O crime é mais uma prova da proporção que estão tomando as milícias no Rio de Janeiro. Verdadeiras organizações paramilitares, elas se propõem a fazer o papel que caberia à Polícia: acabar com o tráfico e o consumo de drogas nas comunidades pobres. Com a conivência da corporação, os grupos armados invadem as favelas e expulsam os traficantes. Depois, passam a cobrar dos moradores pela segurança que oferecem.
Os milicianos impõem-se pelo terror. Executam pessoas acusadas de colaboração com traficantes em julgamentos sumários e ameaçam pais de menores flagrados com drogas. Além da segurança, cobram taxas extras pelas instalações de TV a gato e pelo comércio de gás.
Repletas de policiais civis, militares e bombeiros, as milícias já dominam 92 favelas na cidade, segundo levantamento da subsecretaria de inteligência da Secretaria de Segurança. Garantem rendimento extra aos mesmos policiais que deveriam combatê-las. Por isso, encontram caminho livre. Quando traficantes tentam retomar as favelas, a polícia aparece para combatê-los; mas jamais tentou impedir a tomada dos morros pelos milicianos.
Milícias e empresas clandestinas fazem parte do movimento de privatização da segurança que não é novo, nem apenas um fenômeno carioca. No Rio, porém, a coisa começa a tomar forma de guerrilha. As milícias crescem e se fortalecem com a conivência do Estado; quando as autoridades decidirem combatê-las, corremos o risco de mergulhar numa guerra civil.
Foi exatamente assim com as Autodefensas Unidas de Colômbia, há exatos 40 anos. Basta olhar para a situação atual do país para entender do que eu estou falando.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Rio Body Count

A morte do menino João Hélio, tema do post anterior, continua monopolizando as emoções no Rio. Com justa razão. Os requintes de crueldade narrados pela mãe na entrevista à Rede Globo só aumentam a indignação em todo o país. Mas, o que poucos sabem, é que João Hélio é apenas um das 119 pesssoas assinadas no Rio de Janeiro. Este ano? Não, apenas desde o dia 1º de fevereiro. Nesse mesmo período, outras 55 foram feridas por arma de fogo.
Eu sei que vocês não têm mais paciência para ler sobre esse lado sombrio da sociedade em que vivemos. Mas é acho que dificilmente ele se resolverá se não olharmos para ele. Os responsáveis por essa estatística pensam como eu. São dois jovens cariocas que, cansados de ver a banalização da violência nas páginas de jornal, criaram o Rio Body Count, inspirado no Iraq Body Count.
O site internacional reporta as mortes de civis causadas pela intervenção americana; a versão nacional reporta todos as vítimas da violência no Rio de Janeiro. No lema, eles cravam: "Não acreditamos em paz vigiada, queremos inclusão social". Quem quiser conferir, pode clicar no selo abaixo.



P.S. - Assim que acabei de publicar este post, cliquei no link para testá-lo e os números já haviam mudado: 120 mortos e 59 feridos. É triste, mas é verdade.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Indignação e esquecimento

O caso aconteceu na noite de segunda-feira e chocou o Brasil inteiro pelos requintes de barbaridade. Dois bandidos abordaram uma família num carro em Oswaldo Cruz, zona Norte do Rio. A mãe de 41 anos estava ao volante, a filha de 13 anos no banco do carona e o filho de 6 no banco de trás. As duas desceram e, quando tentavam tirar o menino pela porta traseira, os bandidos arrancaram com o carro. A criança ficou presa pelo cinto de segurança do lado de fora.
Os bandidos rodaram 7 km por quatro bairros, até abandonar o carro em Cascadura. No caminho, foram seguidos por motoqueiros e outros motoristas que viam a criança presa do lado de fora, sendo dilacerada pelo asfalto. Não pararam. O menino morreu de politraumatismo. Mesmo habituados a ver as piores cenas de horror ao vivo, os primeiros policiais que chegaram ao local choraram.
Presos no dia seguinte, os bandidos alegaram não ter visto que o menino estava preso pelo cinto; pensaram que estavam sendo perseguidos pelos carros e motos que tentavam avisá-los. Testemunhas dizem, porém, que eles dirigiam em zig-zag, como se tentassem fazer com que a vítima se soltasse. Eles só foram localizados pela polícia porque o pai de um deles, ao saber o que o filho havia feito, o denunciou.
Um dos bandidos é maior de idade, não tem passagem pela polícia. Deve ser condenado a 30 anos por homicídio mas vai cumprir no máximo 5. Isso se não for autorizado para pagar sua dívida com a sociedade em liberdade por ser primário. O outro, menor de idade, deve puxar no máximo 3 anos num reformatório, protegido pelo Estatudo da Criança e do Adolescente (que, infelizmente, não foi capaz de proteger a vítima de 6 anos)
O Rio inteiro chora a morte do jovem João Hélio e demonstra sua indignação com a violência. O Globo Online recebeu 2.500 e-mails ontem sobre o caso, recorde absoluto. Mas quanto tempo vai durar essa indignação? Que efeitos práticos a morte de João Hélio terá na melhoria das condições em que vivemos? Provavelmente, ela terá o mesmo fim da morte de 5 pessoas (entre elas uma criança de 1 ano), num ônibus queimado por traficantes em novembro de 2005; que foi o mesmo destino da morte de uma empresária, cujo corpo foi serrado ao meio por um vigia em Botafogo, em agosto do ano passado; e da morte de sete pessoas em outro ônibus incendiado em dezembro passado.
Com exceção dos pais, irmã e familiares de João Hélio, ninguém mais se lembrará de sua morte quando as rainhas de baterias começarem rebolar suas peles queimadas ao som dos tamborins.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Respeitável público

Minha companheira de blog odeia quando volto ao tema. Queixa-se de que falo muito de violência. Talvez esteja certa. Mas, às vezes, não consigo evitar. O tema da vez é a tão Força Nacional de Segurança, panacéia para todos os males da segurança.
O governo federal gastou milhões treinando a elite de policiais para compor a tal força. E quando o Rio foi atacado, às vésperas do Revéillon, acertou com o novo governador o envio de sua tropa para a cidade. Nós, moradores, enchemo-nos de esperança. Depois de oito anos de esquizofrênia fundamentalista no Palácio da Guanabara, o Rio voltava a admitir seus problemas e a aceitar ajuda externa - primeiro passo para solucioná-los.
Os Boinas Vermelhas do presidente chegaram e foram subordinados ao comando da segurança Estadual. Ato contínuo, os melhores e mais bem treinados policiais de todo o território nacional foram enviados para o patrulhamento das divisas do Estado.
Enquanto a guerra evolui na capital, lenta e gradualmente, a elite da tropa brinca de vigilante rodoviário nas estradas. Só falta o cão Lobo, daquele antigo seriado, para a pantomima ficar completa.
E o governador Sérgio "Jânio Quadros" Cabral? Depois de começar o governo no melhor estilo populista, invadindo de supetão os plantões dos hosptiais públicos e demitindo diretores recém-empossados, recolheu-se à insignificância do seu gabinete, onde o ar refrigerado o livra de entrar em contato com o calor viscoso das ruas da Guanabara.
Será que os Boinas Vermelhas foram enviados para bem longe justamente para não atrapalhar os lucrativos negócios escusos que beneficiam a estrutura de segurança do Estado, a mesma que assumiu o comando da elite da tropa federal?
Mudam governos, mudam políticos, mas o Rio continua sendo transformado num enorme picadeiro de circo, onde os palhaços, infelizmente, somos nós.