O ônibus 110 Rodoviária-Leblon, sempre ele, pára num ponto na Lagoa Rodrigo de Freitas, em frente a um prédio de fachada de granito caramelo e vidros verdes. Na última varanda, com vista para o espelho d'água, uma faixa anuncia: "Vendo cobertura duplex - 4 suítes - 4 garagens - piscina - primeiro dono". E informava um número de celular. No banco atrás do meu, o casal conversa:
ELE: Olha aí, anota aí o número.
ELA: Tá fácil, hein? Isso aí deve ser muito caro.
ELE: Com certeza, nesse lugar...
ELA: Quatro suítes, quatro garagens, piscina...
ELE: Deve custar uns R$ 500 mil.
ELA: O preço de uma casa boa.
Para informação dos pombinhos (que desceram num ponto da Estácio), nas áreas mais baratas do bairro, o metro quadrado não sai por menos de R$ 7 mil. Naquele ponto deve estar em torno de R$ 9 mil. Se o imóvel em questão tiver, por exemplo, 400 metros quadrados, já sai de R$ 3,6 milhões. Mas, com aquela vista, deve valer mais.
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sábado, novembro 24, 2007
segunda-feira, abril 09, 2007
Monólogo Furtado
Linha 157 Central-Gávea, sentido bairro. A porta de trás abre e o homem carregado de caixas sobe, caminha até a catraca, e desembesta a falar:
- Em primeiro lugar, desculpe por incomodar o silêncio da sua viagem. É que eu estou aqui hoje para oferecer as deliciosas barrinhas Maxi Goiabinha. A qualidade é da Bauduco, que o senhor e a senhora já conhecem, não preciso explicar. Temos aqui para oferecer a barrinha nos sabores Maxi Goiabinha, que é tradicional, Maxi Chocolate e a última novidade, Maxi Chococo, que é uma barra de chocolate com recheio de coco. Nas Lojas Americanas ou em qualquer outro lugar o senhor, a senhora vai pagar oitenta centavos ou um real. Aqui na minha mão, uma barrinha sai por sessenta centavos, dua por um real. Está dentro da validade, pode olhar no verso, é outubro de 2007. Vocês devem estar se perguntando como o preço pode ser tão baixo, não é mesmo? Não tem segredo não, tá gente. É carga tombada mesmo. Quem vai querer? Uma é sessenta, duas por um real...
- Em primeiro lugar, desculpe por incomodar o silêncio da sua viagem. É que eu estou aqui hoje para oferecer as deliciosas barrinhas Maxi Goiabinha. A qualidade é da Bauduco, que o senhor e a senhora já conhecem, não preciso explicar. Temos aqui para oferecer a barrinha nos sabores Maxi Goiabinha, que é tradicional, Maxi Chocolate e a última novidade, Maxi Chococo, que é uma barra de chocolate com recheio de coco. Nas Lojas Americanas ou em qualquer outro lugar o senhor, a senhora vai pagar oitenta centavos ou um real. Aqui na minha mão, uma barrinha sai por sessenta centavos, dua por um real. Está dentro da validade, pode olhar no verso, é outubro de 2007. Vocês devem estar se perguntando como o preço pode ser tão baixo, não é mesmo? Não tem segredo não, tá gente. É carga tombada mesmo. Quem vai querer? Uma é sessenta, duas por um real...
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Tão perto, tão longe
A mulher gorda vê nas páginas da revista um mundo fora do alcance de sua vista.
Pela janela desfila a paisagem suja do Estácio. Com seus camelôs barulhentos esgoelando o pão que vai matar a fome das boquinhas desdentadas em casa; com suas peruas envoltas em névoas de óleo queimado; com seus letreiros de plástico gordurento nas portas dos bares desbotados; com suas calçadas esburacadas carentes de verde.
A cabeça da mulher balança para cima e para baixo no ritmo das sacudidelas do ônibus; move-se da esquerda para a direita conforme ela avança nas linhas.
Na página, um enorme caranguejo rosado sobre um fundo azul profundo de Photoshop ilustra um título discreto em letras brancas: "A natureza vista de perto".
Pela janela desfila a paisagem suja do Estácio. Com seus camelôs barulhentos esgoelando o pão que vai matar a fome das boquinhas desdentadas em casa; com suas peruas envoltas em névoas de óleo queimado; com seus letreiros de plástico gordurento nas portas dos bares desbotados; com suas calçadas esburacadas carentes de verde.
A cabeça da mulher balança para cima e para baixo no ritmo das sacudidelas do ônibus; move-se da esquerda para a direita conforme ela avança nas linhas.
Na página, um enorme caranguejo rosado sobre um fundo azul profundo de Photoshop ilustra um título discreto em letras brancas: "A natureza vista de perto".
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Herói urbano
O 110 Rodoviária-Leblon parece escolher a dedo os dias em que resolve atrasar: aqueles em que o sol derrete a paisagem no horizonte. Depois de 40 minutos de espera, já embarcado, o vento quente soprando calor pelos vidros abertos, o ônibus pára num ponto e um senhor de muletas, pele toda empipocada, sobe pela porta traseira.
O motorista começa a gritar. O senhor aí, tem subir pela frente, não pode entrar por trás. O velhinho nem aí. O motorista insiste. Tem de subir pela frente, meu senhor. O velhinho fingindo de surdo, o sol aquecendo a estufa sobre rodas. O motorista pede uma terceira vez e um passageiro se irrita. Toca aí, motorista. O homem é velho, tá doente. Vambora.
O motorista não se satisfaz com o início de revolta dentro do ônibus - alguns pelo absurdo de exigir passagem a um idoso doente, outros pela demora sob o sol escaldante -, desce e vai até a porta traseira. Sobe para tirar o ancião explicando que o ônibus agora tem câmera. Fica tudo registrado. Por ele, deixava o velhinho entrar por trás; mas, flagrado pela câmera, vai perder o emprego. O passageiro mais exaltado tira os dois reais do bolso e paga a passagem. Onde fica essa câmera? Lá na frente, aquela caixinha alí, respondeo motorista, apontando para um minúsculo quadrado sobre o retrovisor central.
O passageiro move seu 1,90 em direção à lente e começa um discurso. Pra fazer BBB no ônibus vocês têm dinheiro? Deviam era colocar mais carro na rua, que essa linha demora muito, grita o herói urbano, enquanto o ônibus arranca, sacudido pelos aplausos dos demais passageiros.
O motorista começa a gritar. O senhor aí, tem subir pela frente, não pode entrar por trás. O velhinho nem aí. O motorista insiste. Tem de subir pela frente, meu senhor. O velhinho fingindo de surdo, o sol aquecendo a estufa sobre rodas. O motorista pede uma terceira vez e um passageiro se irrita. Toca aí, motorista. O homem é velho, tá doente. Vambora.
O motorista não se satisfaz com o início de revolta dentro do ônibus - alguns pelo absurdo de exigir passagem a um idoso doente, outros pela demora sob o sol escaldante -, desce e vai até a porta traseira. Sobe para tirar o ancião explicando que o ônibus agora tem câmera. Fica tudo registrado. Por ele, deixava o velhinho entrar por trás; mas, flagrado pela câmera, vai perder o emprego. O passageiro mais exaltado tira os dois reais do bolso e paga a passagem. Onde fica essa câmera? Lá na frente, aquela caixinha alí, respondeo motorista, apontando para um minúsculo quadrado sobre o retrovisor central.
O passageiro move seu 1,90 em direção à lente e começa um discurso. Pra fazer BBB no ônibus vocês têm dinheiro? Deviam era colocar mais carro na rua, que essa linha demora muito, grita o herói urbano, enquanto o ônibus arranca, sacudido pelos aplausos dos demais passageiros.
terça-feira, outubro 24, 2006
Incompreensão
Foi de cortar o coração.
Eles embarcaram no primeiro ponto depois do Túnel Rebouças, sentido centro, sob o Viaduto Paulo de Frontein. Pai, mãe, dois filhos. Todos bem vestidos, arrumadinhos, os garotos de boné enterrado na cabeça. Ônibus já em movimento, o pai foi erguendo um dos garotos para passar sobre a roleta. O cobrador invocou:
- Quantos anos ele tem?
O pai pressentiu a humilhação. Olhos baixos, tenso, disse a verdade:
- Sete anos.
- Sete anos tem que pagar passagem. Tá na lei. Olha o papel aí na sua frente - apontava um adesivo colado num dos vidros.
- Tem de pagar? - o pai perguntou, rosto carregado, depois de um breve silêncio constrangedor.
Não regateou, não esbravejou, não tentou o jeitinho.
- Pede pro motorista parar e abrir aí na frente - tentou dizer no tom mais baixo que conseguiu, com vergonha de que todos percebessem o que estava acontecendo.
O ônibus encostou, a família desceu pela frente. Fiquei olhando aquele pai de família, cabeça baixa, olhando para o chão, humilhado por não ter dois reais para pagar uma passagem para o filho. Não era um espertalhão tentando dar um golpe na companhia. Era apenas um pai de família, desempregado provavelmente, sem dois reais para pagar a passagem do filho. No rosto dos meninos, estava estampada a incompreensão. O que estava acontecendo? Pareciam não entender o que estava acontecendo.
O ônibus arrancou, deixando a família a pé, sob o viaduto.
Eles embarcaram no primeiro ponto depois do Túnel Rebouças, sentido centro, sob o Viaduto Paulo de Frontein. Pai, mãe, dois filhos. Todos bem vestidos, arrumadinhos, os garotos de boné enterrado na cabeça. Ônibus já em movimento, o pai foi erguendo um dos garotos para passar sobre a roleta. O cobrador invocou:
- Quantos anos ele tem?
O pai pressentiu a humilhação. Olhos baixos, tenso, disse a verdade:
- Sete anos.
- Sete anos tem que pagar passagem. Tá na lei. Olha o papel aí na sua frente - apontava um adesivo colado num dos vidros.
- Tem de pagar? - o pai perguntou, rosto carregado, depois de um breve silêncio constrangedor.
Não regateou, não esbravejou, não tentou o jeitinho.
- Pede pro motorista parar e abrir aí na frente - tentou dizer no tom mais baixo que conseguiu, com vergonha de que todos percebessem o que estava acontecendo.
O ônibus encostou, a família desceu pela frente. Fiquei olhando aquele pai de família, cabeça baixa, olhando para o chão, humilhado por não ter dois reais para pagar uma passagem para o filho. Não era um espertalhão tentando dar um golpe na companhia. Era apenas um pai de família, desempregado provavelmente, sem dois reais para pagar a passagem do filho. No rosto dos meninos, estava estampada a incompreensão. O que estava acontecendo? Pareciam não entender o que estava acontecendo.
O ônibus arrancou, deixando a família a pé, sob o viaduto.
domingo, julho 02, 2006
110 Rodoviária-Leblon
Sentada sobre a mala de barbie, com puxador e rodinhas, a menina conversa animada com a coleguinha. Uniforme branco e laranja da rede pública do Rio, cabelos de molinha à altura dos ombros, presos por um laço frouxo atrás, eriçados pelo vento da janela. Deve ter seus 7 anos, talvez mais. Lábios grossos, dentes à Gaúcho, ela se enquadra no que a sociologia de Pindorama convencionou chamar mestiço, ou pardo. A luz da manhã no rosto mostra que está mais pra branca do que negra. Fiquei ali observando a luz no olhar, o sorriso aberto, as mãos dançando no ar no mesmo ritmo frenético dos casos inaudíveis que contava. E imaginando quanto tempo vai demorar para que ela se transforme na adolescente sentada três bancos atrás, 16 anos no máximo, unhas roídas brilhando numa confusão de cores berrantes, sandália de dedo com 10 cm de sola, barriga lutando com a miniblusa que defintivamente não foi cortada para vestir o bebê de 6 ou 7 meses que se forma. Olhar perdido, embaçado, talvez a gravidez tenha chegado antes dos diplomas, dos empregos e das viagens com que a cabelos de molinhas ainda sonha... Em que momento da vida será que perdemos a inocência, a espontaneidade da cabelos de molinha? Essa não-preocupação com o que não devemos nos preocupar? O que será que podemos fazer para evitar que a cabelos de molinha troque os volteios animados de mão no ar pelo olhar embaçado? O quê?
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