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quarta-feira, novembro 21, 2007

Feriado na Serra

A pracinha é pequena. Tem um coreto no meio e está cercada por casas antigas, algumas no estilo alemão que marcou a colonização daquelas serras na região de Nova Friburgo. Lumiar, onde fica a praça, é um distrito dessa cidade marcada pela produção de calçados e de lingerie, no interior do Rio. Tem algumas ruas e uma infinidade de trilhas na mata e de cachoeiras. Os rios que a cortam, o Macaé e o Bonito, são caudalosos e barulhentos.
Tudo é muito diferente do Rio de Janeiro das praias ensolaradas. Os horizontes são estreitos, limitados por montanhas verdes, o ar é fresco, muitas ruas ainda são de terra. De todas as diferenças, porém, o que realmente me chamou a atenção foi a grande quantidade de crianças que brincam na praça, na noite de sábado. Nas grandes cidades nós perdemos essa espontaneidade. Criança na rua virou sinônimo de flagelo. Mas Lumiar ainda vive a inocência dos tempos em que a molecada se reunia para brincar. Eu mesmo passei bons anos nas ruas em São Paulo, sem prejuízo dos estudos ou da boa conduta. Não existia play, não existiam videogames e a gente era feliz assim mesmo.
Hoje, nas grandes cidades, criança de família está devidamente trancada em casa, na frente de uma televisão.
Ainda bem que ainda existe Lumiar.

quarta-feira, agosto 15, 2007

O amor em três atos (e um entreato)

Primeiro ato
No início era a palavra. Escrita. Em frases curtas. Bem construídas. Concisas. Como mandam os manuais. Nos caminhos bem pavimentados por vírgulas, pontos e pausas, nos conhecemos. Ela escrevia; eu reescrevia. Nasceu a admiração.

Segundo ato
Depois veio a voz. Jovem, segura. Transportada por ondas eletromagnéticas que corriam em fios de uma rede enigmática. Eu perguntava; ela respondia. E novos textos nasciam. Mais mistério, mais admiração.

Entreatos
Longos cabelos ondulados flutuando numa sala envidraçada que não era minha. Eu estava de passagem, só a vi de relance, de costas ainda por cima. Mas já sabia sem saber. Só podia ser.

Terceiro [e último (ou seria primeiro?)] ato
Fulminante como... não achei palavra até hoje. O que seria? Meu espaço vital invadido por um olhar. Inocente. Sem intenção. Fazendo contato com a minha essência. Disparando adrenalina. Deixando marcas. Prazer. Todo meu. Não havia o que fazer. Nem pra onde correr.

Só depois de muito, muito tepo, viria o primeiro beijo.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Máscaras de oxigênio cairão sobre suas cabeças

Talvez porque tenha começado a voar muito cedo, com meu pai, jamais tive medo de avião. Monomotor em garimpo, bimotor em tempestade amazônica, turbo-hélice no interior do Paraná, Boeing, MD-11, A320... Só não voei de asa-delta até hoje, porque não tem motor. E sempre desdenhei a quem confessava insegurança, exibindos aqueles argumentos de prateleira: "atravessar a rua é mais perigoso, você tem mais chances de morrer de câncer de pele, etc.".
Na última terça, passei pelos escombros do prédio implodido quando chegava a Congonhas para tomar mais uma ponte-aérea. Fiquei lembrando daquela montanha de entulho no saguão vazio do aeroporto, onde fiz meu check-in sem fila pela primeira vez em anos. Embarquei no horário, sem atrasos, e já dentro do avião, tive vontade de perguntar à gentil comissária que exibia seus gestos ensaiados antes da decolagem:
- Pra que esse circo todo, com máscaras fictícias, portas de emergência sobre as asas e cinto de segurança? Nada disso vai funcionar se esta geringonça cair...
De repente, dei-me conta da fragilidade da situação. E pela primeira vez senti medo dentro de um avião.

domingo, julho 15, 2007

Juras de amor

Na hora das declarações de amor não tinha padre, nem alegria nem tristeza, nem saúde nem doença. Tirando um papelzinho amassado do bolso, ela leu:
- Se eu tivesse que prometer algo a você, o que seria? Não posso prometer que você estará sempre confortável... Porque o conforto trás tédio e desconforto. Não posso prometer que todos os seus desejos serão realizados... Porque desejos, sejam eles realizados ou não, trazem a frustração. Não posso prometer que sempre haverá bons momentos... Porque são os maus momentos que nos fazem apreciar a alegria. Não posso prometer que você será rico, famoso ou poderoso... Porque todos eles podem ser o caminho para a miséria. Não posso prometer que sempre estaremos juntos... Porque é a separação que torna a união tão maravilhosa. Entretanto, se você estiver disposto a caminhar comigo, se você estiver disposto a valorizar o amor acima de tudo, eu prometo que essa será a vida mais rica e plena possível. Eu prometo que sua vida será uma eterna celebração, se você estiver disposto a caminhar em direção aos meus braços, se você estiver disposto a morar dentro do meu coração, você encontrará aquele por quem esteve esperando para sempre...Você encontrará a si mesmo em meus braços... Eu prometo.
Ele, sem papelzinho na mão, respondeu mais ou menos assim:
- Minha vida é escrever, por isso não escrevi nada para te dizer. Queria espaço para a espontaneidade. Porque eu sabia que assim te visse entrando por aquele tapete, sentiria a mesma emoção que sempre senti a cada vez que nos reencontramos. (E olha que não foram poucas!). A emoção que me fez saber, desde a primeira vez em que te vi, que era ao seu lado o lugar em que eu queria estar; o lugar em que eu seria mais feliz.
E assim juraram seu amor um para outro, sem lugar para que a morte os separe.

quarta-feira, julho 04, 2007

Dezessete anos

Houve tempo em que eu me enchia de orgulho no 1º de julho. Desta vez, passou em branco, mas eu costumava estufar o peito porque nesse dia colocava mais uma marquinha na conta do tempo de profissão. Este ano, em que esqueci a data, completei dezessete anos de redação.
Dezessete anos perseguindo vírgulas e pontos fora de lugar; Dezessete anos atrás de acentos fujões e ignorâncias ortográficas e gramaticais infiltradas, agentes a serviço do mau texto; Dezessete anos vendo o mundo passar nas agências de notícias (pra vocês terem uma idéia de quanto tempo é isso, quando eu comecei elas ainda enviavam telex).
Será o caso de comemorar?

segunda-feira, julho 31, 2006

Sobre riquezas e memórias

A menina rasga e envelope e o aroma adocicado invade o ar. Vem com cheiro de infância. Muita coisa mudou na Varig, mas os lencinhos umidecidos continuam os mesmos. Quase posso ver o envelope azul escuro, de bordas brancas, com uma estrela também branca de oito pontas estampada bem no meio. Meu pai os trazia para mim e meus irmãos a cada nova viagem.
O cheiro da infância despertar nostalgias pouco antes da decolagem rumo ao Rio. Foi a mesma Varig quem me levou pela primeira vez à Cidade Maravilhosa, quando eu tinha 5 anos. Num domingo de inverno vi São Paulo entortar na janela do Elektra. Achei que o avião ia cair, mas não queria preocupar meu pai contando isso a ele. Meu segredo durou pouco, porque ele logo me tranquilizou. Era apenas fazendo uma curva.
Eu ia na janela, meu pai no meio e no outro canto o meu avô. A viagem, a minha primeira num avião, era um sonho do meu avô. Homem simples nascido na roça, ele criara oito filhos com a raça dos imigrantes italianos de que descendia. Meu pai crescera ouvindo-o dizer que não queria morrer sem voar. E naquele dia embarcamos, ele aos 75 anos, no nosso primeiro avião.
No Rio, o roteiro básico dos turistas de um dia. Bondinho para o Pão de Açúcar e visita ao Cristo. Lembro-me de que o bondinho parecia uma gigantesca bolha envidraçada de onde eu avistava a cidade lá embaixo. Não sei se foi criação da minha imaginação, mas lembro de como meu pai me erguia para olhar por uma abertura no teto. Será que existia tão abertura? Não sei. O Pão de Açúcar me parecia muito alto, naquele tempo e só voltei ao cartão postal mais uma vez, 20 anos depois. Pareceu-me bem mais baixo e não me lembro de ter procurado a tal janela no teto.
Do Cristo, trouxe na lembrança os personagens gigantes de Walt Disney que tocavam numa banda, especialmente o Pateta, o Dumbo e o Mickey. Pobres músicos, hoje eu sei, suando (literalmente) a pelúcia da fantasia para ganhar algum dinheiro.
Viajar de avião no Brasil daquele tempo não era tão fácil como hoje. Embora fosse o mais promissor entre os irmãos, meu pai estava longe da riqueza. Mesmo assim, ele realizou o sonho do meu avô, que morreria seis anos depois. Na minha primeira visita ao Rio, meu pai me ensinou, provavelmente sem notar, que a vida pode ser boa quando se acumula riquezas. Mas é muito melhor quando a usamos para acumular memórias.