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quarta-feira, dezembro 12, 2007

Respostas que podem mudar o mundo

A Árvore de Natal da Lagoa, sobre a qual escrevi no ano passado, está de volta, atraindo milhares de pessoas e tumultuando o trânsito do bairro. Este ano ela vem com 85 metros de altura, três a mais do que no passado. Com isso, pretende entrar para o Guinness, o famigerado livro dos recordes.
A resposta que poderia mudar o mundo é: por que os brasileiros têm tanta fixação por entrar para esse livro chulé que não serve para nada? Se tivéssemos a mesma disposição para produzir vencedores de prêmios Nobel, nossa educação estaria muito melhor, nossa pesquisa científica idem e, conseqüentemente o país teria um futuro mais promissor.
É, mas aí daria muito mais trabalho...

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Não jogue lixo na rua

Quando meus pais me ensinaram, ainda na infância, que eu não deveria jogar lixo na rua, eles se referiam a papéis de bala, pirulitos, chicletes e outras miudezas do gênero. Pois aqui no Rio de Janeiro, jogar lixo na rua significa um problema bem mais sério.
Lá no bairro onde eu trabalho, algumas esquinas se transformam em mini-lixões, onde se acumulam detritos durante dias até que passe um caminhão da Comlurb, ou que alguém coloque fogo na montanha fedida.
Hoje, quando chegava ao trabalho e passava por uma dessas esquinas, sofri um ataque aéreo de um saco de lixo. Ele caiu bem minha frente. Um passo a mais, e eu teria sido atingido em cheio. Atônitos, alguns dos 17 Ferdizinhos que costumam debater entre si dentro da minha cabeça diziam que era melhor seguir em frente; outros sugeriram que eu batesse na casa, calmamente, para explicar que não deveriam fazer aquilo, que poderia machucar alguém... Tudo isso em meio segundo, que foi o tempo que o Ferdizinho estourado levou para comandar o cérebro a jogar o saco de lixo de volta por cima do muro. Ataque revidado, o Ferdizinho furioso deu-se por contente e eu segui o meu caminho calmamente.

sábado, novembro 24, 2007

Diálogos roubados V - Valores da Cidade

O ônibus 110 Rodoviária-Leblon, sempre ele, pára num ponto na Lagoa Rodrigo de Freitas, em frente a um prédio de fachada de granito caramelo e vidros verdes. Na última varanda, com vista para o espelho d'água, uma faixa anuncia: "Vendo cobertura duplex - 4 suítes - 4 garagens - piscina - primeiro dono". E informava um número de celular. No banco atrás do meu, o casal conversa:

ELE: Olha aí, anota aí o número.
ELA: Tá fácil, hein? Isso aí deve ser muito caro.
ELE: Com certeza, nesse lugar...
ELA: Quatro suítes, quatro garagens, piscina...
ELE: Deve custar uns R$ 500 mil.
ELA: O preço de uma casa boa.

Para informação dos pombinhos (que desceram num ponto da Estácio), nas áreas mais baratas do bairro, o metro quadrado não sai por menos de R$ 7 mil. Naquele ponto deve estar em torno de R$ 9 mil. Se o imóvel em questão tiver, por exemplo, 400 metros quadrados, já sai de R$ 3,6 milhões. Mas, com aquela vista, deve valer mais.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Feriado na Serra

A pracinha é pequena. Tem um coreto no meio e está cercada por casas antigas, algumas no estilo alemão que marcou a colonização daquelas serras na região de Nova Friburgo. Lumiar, onde fica a praça, é um distrito dessa cidade marcada pela produção de calçados e de lingerie, no interior do Rio. Tem algumas ruas e uma infinidade de trilhas na mata e de cachoeiras. Os rios que a cortam, o Macaé e o Bonito, são caudalosos e barulhentos.
Tudo é muito diferente do Rio de Janeiro das praias ensolaradas. Os horizontes são estreitos, limitados por montanhas verdes, o ar é fresco, muitas ruas ainda são de terra. De todas as diferenças, porém, o que realmente me chamou a atenção foi a grande quantidade de crianças que brincam na praça, na noite de sábado. Nas grandes cidades nós perdemos essa espontaneidade. Criança na rua virou sinônimo de flagelo. Mas Lumiar ainda vive a inocência dos tempos em que a molecada se reunia para brincar. Eu mesmo passei bons anos nas ruas em São Paulo, sem prejuízo dos estudos ou da boa conduta. Não existia play, não existiam videogames e a gente era feliz assim mesmo.
Hoje, nas grandes cidades, criança de família está devidamente trancada em casa, na frente de uma televisão.
Ainda bem que ainda existe Lumiar.

terça-feira, novembro 13, 2007

Ah se o Aspira visse essa cena

Praça Onze, Cidade Nova, ao lado do internacionalmente famoso Sambódromo do Rio de Janeiro. Saio da estação do metrô ao som insistente de marteladas furiosas. Não chegaria a ser novidade. A viela cheia de cortiços e biroscas é conhecida como rua das oficinas, tamanho é o número de lanternagens e mecânicas ali instaladas. Há quem diga que são fachadas para bocas de fumo, mas o fato é que todas são muito freqüentadas por taxistas. Os mecânicos, em sua maioria negros de bermudas baixas e sandálias havainas, desfilam suas costelas pela via. Camisa é artigo desconhecido para essa turma.
Quando chove muito, transborda ali uma água cinza, leitosa, que dizem ser o esgoto do bairro. Tudo fede, mas as crianças brincam em volta mesmo assim.
Pois nesse cenário que nem Dante seria capaz de imaginar, as marteladas me chamam a atenção. São muitas, devem ser muitos braços a marretar algum carro. Dobro a esquina e lá está a cena: uns oito mecânicos, mais ou menos, desmontando a marretadas uma viatura de polícia. Isso mesmo. Um carro da gloriosa corporação sendo desmanchado, em plena luz do dia.
Prova de que as mazelas da oficina do Aspira, em "Tropa de Elite", não são mero produto da imaginação do roteirista.

terça-feira, outubro 30, 2007

O desabamento do Rebouças

Ele estava na origem deste blog, citado no post de inauguração como caminho mágico que separa o Rio dos sonhos do Rio da miséria. Mas acho que quando o mencionei, eu não tinha me dado conta da importância real do túnel Rebouças para a ligação da cidade partida. Desde que um vazamento misterioso fechou com terra a boca das duas galerias entre o Cosme Velho e a Lagoa, o trânsito do Rio virou um caos só comparável à rotina do trânsito de São Paulo. (Os amigos paulistas me desculpem, mas como nativo da Terra da Garoa, dou-me o direito de criticá-la no que tem de pior.)
Os 190 mil veículos que diariamente cruzavam pelos 5.600 metros de galerias escavadas na rocha do Maciço da Carioca tentaram achar caminho pelas ruas estreitas e já afogadas de Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, etc. A cidade entupiu e até a aprazível Fonte da Saudade, que passa aqui na porta, enfrentou congestionamentos que duravam até 22h.
Felizmente, as autoridades prometem reabrir totalmente, amanhã, o velho túnel mandado construir por Carlos Lacerda, que este mês, curiosamente, completou 40 anos de existência.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Segredos Cariocas: Doces Portugueses

Quem vê a fachada de azulejos não imagina as delícias por trás da porta de vidro canelado. Lá dentro Don Rodrigos dividem uma minúscula estufa com Toucinhos do Céu, Fatias de Braga, Bem Casados, Camafeus e Trouxas d'Ovos. Todos em bandeijas recém-saídas dos fornos na cozinha ensolarada que a porta atrás do balcão esconde. A responsável por esta maravilha feita com açúcar orgânico é dona Alda Maria Talavera Campos, uma doceira de mão cheia que há 12 anos deixou Pelotas, no Rio Grande do Sul, para difundir as receitas de família de doces portuguesas no casarão de Santa Tereza. Ela mesma nunca esteve em Portugal. Mas nem precisava. Seus doces deixam qualquer Confeitaria Colombo na saudade. Bom, como já contei o milagre, aí vai o santo: o endereço da dona Alda é Rua Almirante Alexandrino 1.116. E ela tem site também: http://www.aldadocesportugueses.com.br/.

terça-feira, julho 31, 2007

Monalisa sem sorriso

Ela está longe do ideal de beleza que eternizou a musa do gênio renascentista. Usa camiseta preta, cabelo sarará espichado para trás; não olha para o retratista, mas para o filho que carrega no colo. No fundo da foto colorida publicada pelo "O Globo", uma parede descascada ocupa o lugar da paisagem imaginária de Da Vinci. Monalisa Soares Nogueira tem 19 anos e nenhum motivo para sorrir. Moradora da Cidade de Deus, ela já teve de internar cinco vezes o filho.
Jonathan, de 1 ano e dois meses, é a personificação de uma estatística aterradora: 10,1% das crianças de Cidade de Deus estão desnutridas. Isso em plena Zona Oeste do Rio. É um número percentualmente maior do que o da desnutrição no Polígono da Seca, onde a Unicef encontrou, em 2005, 6,6% de desnutridos.
Enquanto os governos federal, estadual e municipal corriam para gastar 4 bilhões de reais nas obras do Pan-Maravilha, o filho de Monalisa corria risco de vida por falta de comida. Ainda corre, na verdade. Ele não está totalmente recuperado.
O levantamento da fome na Cidade de Deus foi feito pelo Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania, uma ONG da própria comunidade, e pela ONG internacional ActionAid. Eles passaram seis meses entrevistando 2.420 crianças da comunidade. Usaram os parâmetros da Organização Mundial da Saúde para concluir que 31,6% das crianças daquela favela têm algum tipo de comprometimento alimentar.
Tudo isso a apenas dois quilômetros da Vila Pan-Americana.

domingo, julho 08, 2007

Cristo Maravilha


Há alguns meses, quando começou a campanha Vote Cristo, eu torci o nariz. Achei ufanista e exagerado comparar a estátua com lugares como a muralha da China ou as cidades de Petra e Machu Pichu.

Nas últimas semanas, porém, meu coração foi amolecendo. O tempo todo, de lugares e momentos diferentes da minha rotina, ele estava lá, braços abertos, me acolhendo. Uma onipresença quase divina.

Foi aí que, de coração aberto, consegui enxergar a maravilha do Cristo: mais que uma obra gigante (o que sem dúvida ele é), o Cristo é grandioso em sua proeza. Que outro monumento religioso participa de maneira tão presente no dia-a-dia de tanta gente? Ele entra na casa das pessoas, no almoço de pé no balcão da casa de sucos, na janelinha gelada do avião (e no janelão suado do ônibus), no jogo de futebol e até no desfile carnaval. Sério: você consegue vê-lo ao cruzar o sambódromo, sem falar nos blocos de bairro que surgiram bem debaixo dos seus braços (o mais famoso é o Sovaco de Cristo - amo esse nome!).

Voto Cristo, portanto, porque não tem melhor símbolo da fé brasileira: acolhedora, de braços abertos, irreverente, distante das igrejas e perto da natureza. E, acima de tudo, absolutamente cotidiana. A espiritualidade ia passar direto pela vida de muito carioca não fosse o Cristo ali no alto, lembrando-o que o buraco é mais em cima! Isso, pra mim, já valeria o voto no redentor.

PS: Numa boa, os chineses são invejáveis em sua genialidade e determinação para fazer uma muralha daquelas. Mas não sei se chamaria de "maravilha do mundo moderno" a um muro com tantas motivações militares e segregacionistas. Não é desse tipo de símbolo que a civilização precisa. Sou mais o meu Cristo cabeludo abrindo os braços para o mundo todo.

quarta-feira, maio 02, 2007

sábado, abril 28, 2007

Poluição companheira

No meio do caminho entre o meu trabalho e o meu local preferido de almoço ficam os Correios. Não uma agência qualquer, mas a central, aquele prédio imenso na Avenida Presidente Vargas por onde passam todas as cartas postadas no Brasil. Por mais estranho que pareça, é verdade. Se um morador de Salvador escreve para um parente em Recife, a carta vem para o Rio e volta para Recife. Mistérios do Brasil...
Por conta desse volume gigantesco de envelopes, o prédio é enorme, cheio de funcionários e ponto obrigatório para todas as chapas quando tem eleição no sindicato. Desde o fim de março, com os carteiros em campanha sindical, todos os dias tinha um carro de som poluindo o caminho entre o meu trabalho e o meu almoço. Era a companheirada apontando erros e desmandos da companheirada nem tão companheira assim, que competia pela outra chapa. Como eram três chapas, não havia um dia sequer em que eu pudesse ir para o almoço livre da gritaria.
Esta semana, porém, quando passava pela calçada vi a companheirada reunida na frente do carro de som, posando para uma foto de confraternização. Aproveitei a oportunidade:
- Já foi a eleição?
- Já companheiro, terminou. Ganhamos! - respondeu efusivo um senhor de meia idade, adesivo da Chapa 2 no peito, que foi logo me abraçando.
- Poxa companheiro, estou muito feliz por vocês. Muito mesmo. E também porque agora vou passar dois anos podendo ir para o meu almoço0 sem ficar surdo com os caminhões de som de vocês - respondi, sem tirar o sorisso do rosto. O companheiro também não perdeu o rebolado:
- É companheiro, campanha é fogo, né. Mas acabou, companheiro, acabou! Vencemos!

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Tão perto, tão longe

A mulher gorda vê nas páginas da revista um mundo fora do alcance de sua vista.
Pela janela desfila a paisagem suja do Estácio. Com seus camelôs barulhentos esgoelando o pão que vai matar a fome das boquinhas desdentadas em casa; com suas peruas envoltas em névoas de óleo queimado; com seus letreiros de plástico gordurento nas portas dos bares desbotados; com suas calçadas esburacadas carentes de verde.
A cabeça da mulher balança para cima e para baixo no ritmo das sacudidelas do ônibus; move-se da esquerda para a direita conforme ela avança nas linhas.
Na página, um enorme caranguejo rosado sobre um fundo azul profundo de Photoshop ilustra um título discreto em letras brancas: "A natureza vista de perto".

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Instituições Cariocas 4: Miguel Couto


O nome se tornou famoso no Brasil todo graças ao noticiário viciado em tiros e barracos de tijolos aparentes da TV Globo. Sempre que tem invasão ou guerra em favela, lá aparece Miguel Couto como destino dos baleados, já que esse é o nome do hospital municipal instalado na Gávea que é referência mundial no atendimento de vítimas de PAF (sigla para perfuração de arma de fogo). Só no ano passado, seus 452 médicos atenderam 225 vítimas de tiros e 76 esfaqueados (fora os outros doentes em geral que lotam os 400 leitos disponíveis).
Além do hospital, Miguel Couto também dá nome a uma ruazinha fininha que começa na Avenida Rio Branco e termina na Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio, a um bairro inteiro em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e ao Esporte Clube Miguel Couto, time da 3ª divisão do Rio de Janeiro sediado justamente no bairro iguaçuano.
Com direito a tantas honras, Miguel Couto é famoso quem? É aí que entra a série Instituições Cariocas d'A Casa da Lagoa (devidamente amparada pelo google).
Nasido no Rio de Janeiro em 1º de maio de 1865 (quando esse dia ainda nem era do trabalho), Miguel Couto diplomou-se médico pela Academia Imperial de Medicina em 1883. Estudioso da influenza e da febre amarela, virou professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. E suas teses lhe valeram uma vaguinha na casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras. Apesar de toda a erudição, o velhinho assumiu umas bandeiras meio estranhas: foi ferrenho opositor da imigração japonesa para o Brasil, por exemplo.
Como presidente honorário da Associação Brasileira de Educação, soltou, em 1927, a seguinte frase: "Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobleva em importância e gravidade o da educação". E escreveu um livro intitulado "Só há um problema: a educação". Mais atual impossível. Ironia do destino, o bairro Miguel Couto foi o primeiro de Nova Iguaçu a testar um novo modelo de educação, chamado Bairro Escola, que tenta implantar o período integral e melhorar a qualidade da escola pública.
Por essas e outras, Miguel Couto virou nome fácil em logradouros depois que partiu para a vida eterna, em 6 de junho de 1934.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Instituições cariocas 3: Ponta do Calabouço

Agora ele enlouqueceu de vez, você deve estar pensando. Quem já ouviu falar nesse lugar? Acredite ou não, se você já esteve no Rio, tem grandes chances de ter pisado exatamente em cima da Ponta do Calabouço. Pois ali, onde pousavam os primeiros hidroaviões que vinham de todo o Brasil e até do exterior, começou a nascer, em 1934, a instituição carioca sobre a qual versa este post: o Aeroporto Santos Dumont.
Para que todos nós pudessemos chegar de São Paulo bem no centro do Rio, o governo federal jogou mais de 2,7 milhões de metros cúbicos de terra sobre 370 mil metros quadrados da Baía de Guanabara. Em 1936, com uma pista de 700 metros de comprimento, ele se tornou o primeiro aeroporto civil a ser inaugurado no Brasil.
Agora, aos 71 anos, esse velho aviador está passando por uma recauchutagem. As autoridades decidiram que ele precisava da plástica para dar conta de receber 8,5 milhões de passageiros por ano. Do jeito que está hoje, recebe 3,5 milhões - gente que passa por um de seus quatro portões na acanhada salinha de embarque ou desembarca a pé, pelo único gate de saída. Oficialmente, porém, ele só tem capacidade para 1,8 milhão de viajantes por ano.
As obras começaram em 2004 e deveriam ter ficado prontas em janeiro. Não ficaram e estão agora, prometendo aprontar até abril o novo terminal de embarque.
Maravilha da engenharia aeroportuária moderna, a nova sala será toda envidraçada. Inclusive no teto (para que os viajantes não percam a vista de outras instituições cariocas como o Corcovado e o Pão de Açúcar). E terá nove pontes que vão despejar os passageiros diretamente dentro das aeronaves, à moda das linhas de produção em massa.
O que é uma pena. Sem a romântica caminhadinha pela pista, não vai mais ser possível contemplar um nascente como esse aí de baixo, que fotografia manhã dessas, a caminho de São Paulo.


domingo, janeiro 14, 2007

Instituições cariocas 1: pôr-do-sol na lagoa

Há muitos lugares no Rio de onde se pode admirar o pôr-do-sol. No arpoador, o pessoal até bate palmas quando o último pedacinho de sol desaparece atrás do Dois Irmãos. Mas o pôr-do-sol que está mais presente na minha vida carioca é mesmo o da Lagoa.

Agradeço aos Deuses toda vez que desço do ônibus, chegando do trabalho, e vejo aquele céu rosa-dourado atrás da Pedra da Gávea. Na boa, parece meu suco de maracujá com repolho roxo, onde o amarelo e o rosa parecem ter sido feitos um pro outro (claro que meu suco não tem o brilho do céu, nem aqueles fiozinhos de ouro que se formam no contorno das nuvens). Acho que no Rio os Deuses têm photoshop. Só pode ser... Pra pintar o céu naquelas cores, naquela intensidade, com uma tonalidade diferente a cada dia. Nada mais sábio como a natureza para recriar a rotina em tantas versões originais.

Ontem, saí apressada para pegar um filme na locadora dez minutos antes dela fechar. Mas quando cheguei na rua, vi aquele céu cor de suco-de-maracuja-com-repolho-roxo-mais-os-fios-dourados. É paralisante, um insulto resistir. Voltei correndo e peguei a câmera pra compartilhar com vocês esse momento. Taí embaixo:

(Detalhe: cheguei na locadora meia-hora depois e ela ainda estava aberta. Acho que eles também pararam o relógio para se despedir do sol).

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Feliz Ano Novo

Elas começaram a chegar no final da tarde, vindas do mundo todo. Acotovelavam-se na estreita faixa de areia branca. Vinham em busca de luzes, mas não as do sol. E, sob os guarda-sóis, abrigavam-se de uma fina garoa na derradeira noite de 2006. Quando o relógio deu meia-noite, começaram os tiros, explosões. A fumaça subiu. Mas ninguém correu na cidade, que havia três dias vivia aterrorizada pela violência de arruaceiros organizados. Aqueles 20 minutos de estouros luminosos anunciavam 2007. Um novo ano, uma nova esperança de paz para um milhão de pessoas que foram assistir à famosa queima de fogos do Réveillon de Copacabana.

O filminho abaixo é para quem quiser ter um gostinho (em um minuto) do que foi o show de fogos.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Entrevista com o Cristo Redentor

Pouca gente sabe, mas o dia 12 de outubro, além ser das crianças e da Padroeira do Brasil, também marca o nascimento de um dos maiores ícones da fé em todo o mundo: o Cristo Redentor. Este ano ele completou 75 anos e, para comemorar, recebeu o blog A Casa da Lagoa com exclusividade para a seguinte entrevista.

A CASA DA LAGOA - O senhor está completando 75 anos de braços abertos. Como foi passar esse período todo aí sobre o Corcovado?
CRISTO REDENTOR - É irmão, não foi fácil não...

CL - "Irmão"? Como assim, o senhor também aderiu à gíria dos bandidos?
CR - Que gíria? Somos irmãos, todos filhos de Deus, esqueceu?

CL - Ah, entendi. Mas o senhor estava dizendo que não foi fácil...
CR - Exatamente. Você acha que é brincadeira passar todos esses anos de braços abertos? Sabe quanto pesa cada braço meu? 57 toneladas. E cada mão mais 8 toneladas! É um esforço e tanto. E nunca posso descansar um segundo, porque isso aqui tá sempre cheio de gente, helicóptero voando em volta com turistas tirando fotos... Não dá pra abaixar os braços nunca.

CL - O senhor recebe muitos cariocas todos os dias?
CR - Vamos esclarecer. Eu recebo muitos visitantes todos os dias, mas cariocas são poucos. Quase não vem carioca aqui não.

CL - Como assim?
CR - Você já viu quanto estão cobrando para subir até aqui? R$ 36 por pessoas. Ainda bem que eu nunca desço, ou na volta teria de levantar ainda mais os braços. Esse preço é um assalto! Cobrando tudo isso, só aparece estrangeiro por aqui.

CL - O senhor está no Morro do Corcovado, a 710 metros de altitude, com a melhor vista da cidade. Isso tem um preço, certo?
CR - Tem mesmo. Você conhece bem o Rio de Janeiro? Se conhece, sabe que aquela história de que aqui não faz frio não é bem assim. No inverno, este morro é o lugar mais gelado da cidade. Já no verão, é um calor insuportável, um verdadeiro inferno aqui em cima, com o perdão da palavra. Fora as vezes em que eu fico com a visão encoberta pelas nuvens. Já virou até bordão entre os cariocas. Quer saber quando vai chover? Olha para o Cristo. Se estiver encoberto... Ou seja, aqui é o primeiro lugar em que começa a chover. Não é fácil ficar plantado aqui em cima...

CL - Bom, mas o senhor está de frente para uma das vistas mais lindas do mundo.
CR - A vista da Baía de Guanabara, com o Pão de Açúcar? Até já enjoei, pra dizer a verdade. Prefiro aqui do meu lado direito, com a Lagoa Rodrigo de Freitas, Ipanema e Leblon. À minha esquerda fica o centro com todas as suas favelas e misérias. É pra lá que eu deveria olhar mais.

CL - No Centro também tem o Sambódromo. O senhor consegue assistir ao Carnaval aí de cima? Ou não pode por causa da nudez feminina?
CR - Consigo sim. Esse negócio de mulher pelada é bobagem. Passa até na novela das oito, não vou ver no Sambódromo? Agora, vou te confessar uma coisa: lá pelas 4 da manhã, começa a encher um pouco essa batucada. Podia acabar um pouco mais cedo pra me dar um sossego. Carnaval é fogo, meu irmão. A cidade enche de turista, isso aqui não pára. Fica lotado o dia todo. E à noite, é só batucada. Não tem Cristo que agüente.

CL - Por falar em Carnaval, o senhor já foi motivo de polêmica no Sambódromo quando tentaram usar sua imagem e a sua igreja reclamou...
CR - Alto lá. Como assim "minha igreja"?

CL - A Igreja Católica Apostólica Romana...
CR - Essa igreja não é minha. Eu nasci e morri judeu. Quem mudou minha religião foi o Simão, depois que eu tinha morrido, sem nem me consultar...

CL - O senhor quer dizer Pedro? Foi Pedro quem fundou a Igreja...
CR - Viu só? Ele mudou até o nome dele. Tinha mania dessas coisas. Aí fundou essa Igreja nova e eles se apoderaram da minha imagem. Não concordo com nenhum tipo de censura.

CL - Já que o senhor é contra a censura, não vai se negar a nos dar suas medidas. Até que o senhor está bem para quem tem 75 anos...
CR - Vamos lá: tenho 30 metros de altura e estou sobre um pedestal de mais 8 metros. Mas não me venha com essa de salto alto. Meu peso total é de 1.145 toneladas. Tá bom, pra minha altura.

CL - Para encerrar, o senhor afinal vai ou não voltar à terra?
CR - Irmão, eu estou aqui parado há 75 anos, com toda essa altura que acabei de revelar, e as pessoas nem prestam atenção em mim. Pagam esse dinheiro todo para subir e ficam fotografando a vista. No máximo apareço na paisagem das fotos de uns turistas que imitam minha posição, de braços abertos. Agora, se aqui em cima, com todo esse tamanho, ninguém olha pra mim, imagina se eu voltar como algum deficiente desses que se arrastam pedindo ajuda nos trens do subúrbio, ou como um morador de rua maltrapilho? Ninguém vai acreditar que sou eu. Fala a verdade: se eu aparecesse no Largo da Carioca barbudo, de túnica, dizendo "sou Jesus Cristo, voltei para salvá-los", blá, blá, blá... Você ia acreditar em mim? Duvido. Melhor ficar quietinho aqui no meu Corcovado.

terça-feira, outubro 10, 2006

Uma questão de perspectiva

Conforme eu havia prometido há algumas semanas, segue a história por trás da foto. No caso, devidamente ilustrada. Uma prova de que beleza é uma questão de perspectiva.


1 - Favela do Vidigal - Com cerca de 10 mil moradores amontoados aos pés do Morro Dois Irmãos, é uma das favelas com vista mais bela do Rio de Janeiro. Ela começou a surgir na década de 40 e leva o nome do antigo proprietário das terras, o major de milícias e cavaleiro da ordem imperial Miguel Nunes Vidigal, que ganhou o terreno de monges beneditinos. A explosão demográfica aconteceu nos anos 60, junto com o crescimento do Leblon. Desde 2002, os bandidos que controlam o tráfico de drogas aqui estão em guerra com os rivais da Rocinha. As últimas batalhas aconteceram no início deste ano, em território da Rocinha (veja número 3).

2 - Morro dois Irmãos e Pedra da Gávea - Dois exemplos típicos da generosidade do Criador com esta cidade. A Pedra da Gávea é ponto turístico conhecido, base de lançamento de asas-delta. O Dois Irmãos também é famoso. Já deu nome à música de Chico Buarque (o compositor é morador de suas encostas, no Alto Leblon) e atualmente aparece na abertura da novela Páginas da Vida, de Manoel Carlos, outro morador ilustre da região. Aliás, na abertura, você só não vê o Vidigal (leia número 1) porque a emissora providenciou uma folhinha que cai bem daquele lado. Será que era para esconder a favela???

3 - Favela da Rocinha - Já foi vendida como a maior favela da América Latina, com 200 mil habitantes! Exagero. O Censo de 2000 do IBGE diz que ela tem em torno de 50 mil (ah, então tudo bem). Surgiu por volta de 1930, com a ocupação de terras que pertenceram a um antigo Engenho de Açúcar. Os invasores haviam sido expropriados pela crise do café, de 1929, e lotearam o espaço em pequenas chácaras. Ali fizeram roças, cuja produção vendiam aos moradores do Leblon. Daí a origem do nome. Sua explosão demográfica aconteceu nos anos 50 e 60, quando o boom imobiliário em Ipanema e Leblon abriu milhares de empregos na construção civil - e milhares de nordestinos se mudaram para o local mais próximo em busca desses empregos. Também é controlada pelo tráfico de drogas e perdeu 10 'soldados' no último confronto com o Vidigal.

4 - Lagoa Rodrigo de Freitas - O espelho d'água de 2,2 quilômetros quadrados é belíssimo e atrai milhares de pessoas à ciclovia que a circunda nos finais de semana. Gente correndo, andando, pedalando nos 7,8 quilômetros de sua circunferência. Infelizmente, seus 6.200.000 metros cúbicos de água recebem diariamente dejetos domésticos que chegam pelas águas dos seus três afluentes, os rios Cabeça, Rainha e dos Macacos. O Estado jura que interrompeu o despejo de esgotos, mas a proliferação de algas e a mortandade esporádica de peixes não deixam dúvidas de que, de alguma maneira, o esgoto ainda chega em natura às suas águas.

5 - Edifícios de alto padrão do Baixo Gávea - Um dos bairros mais valorizados do mundo, com belos prédios que abrigam o topo da pirâmide de renda do IBGE. O contra-luz esconde, mas estão logo abaixo da Rocinha. Aliás, o Rio de Janeiro desmente a expressão criada por Elio Gaspari: aqui, o 'andar de baixo' fica em cima.

6 - Turistas no pedalinho - Finalmente, um casal de turistas pedalando tranquilamente na Lagoa, assistindo ao romântico pôr-do-sol, curtindo a ilha da fantasia, indiferente à toda essa chatice aí de cima.

sábado, setembro 23, 2006

A foto é minha, a história é sua

Caros, a primeira história do desafio saiu no blog Le Bal Masqué, da nossa querida M. Não deixem de ler. Continuo esperando a participação de vocês. Vamos colocar a imaginação para funcionar!

quarta-feira, setembro 20, 2006

A foto é minha, a história é sua


Como os freqüentadores de blogs em geral gostam de escrever, o desafio é o seguinte: baseado na foto, crie uma historinha para a cena. Daqui a alguns dias eu conto a minha.