Mostrando postagens com marcador carnaval. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador carnaval. Mostrar todas as postagens

domingo, junho 10, 2007

Carnaval dos Bicheiros

Desde fevereiro não era novidade para os poucos (mas fiéis) leitores desta Casa da Lagoa a febre que representa o Carnaval no Rio de Janeiro. As críticas feitas naquele post chamavam atenção para o fato de que a festa era patrocinada pela contravenção. Hoje, a intervenção "heterodoxa" dos bicheiros estampa o alto da primeira página d'O Globo. Quase com o mesmo destaque das falcatruas do irmão e do compadre do presidente da República.
Para quem não teve a chance de ver, um breve resumo: grampos feitos pela Polícia Federal flagraram três dos "empresários do jogo" oferecendo propinas a jurados para que dessem a vitória à Beija-Flor. Os que se ousaram se recusar a pegar a caixinha, foram ameaçados de morte por um pistoleiro a serviço da máfia.
Como dizem por aqui, todo mundo já sabia que isso acontecia. Até hoje, porém, ninguém tinha gravado.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Na Corte de Momo - Parte II

A quarta-feira de cinzas no Rio teve um quê de final de Copa do Mundo. Cheguei para trabalhar com as ruas desertas, um ou outro resto de carro alegórico pelos cantos. Na redação, os maravilhados (adjetivo para quem nasce na Cidade Maravilhosa) pararam de trabalhar pontualmente às 15h45, para vibrar e discutir, eufóricos ou exaltados, a cada "DEZ, NOTA DEZ!" anunciado pela voz grave do locutor oficial das apurações do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio. No fim, ganhou a Beija-Flor, presidida pelo empresário do jogo Aniz Abrão David, o Anísio.
Só para registrar: o carnaval dos bicheiros na Sapucaí custou R$ 58, 5 milhões. Mais do que o Governo Federal gastou em 2006 para combater a malária e a dengue (R$ 51,9 milhões); o triplo do que foi gasto com inteligência de segurança (R$ 19,1 milhões) e mais do que o dobro do que foi gasto por Lula com a Educação Infantil (R$ 26,5 milhões).
As informações são da coluna de Ancelmo Gois n'O Globo.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Na Corte de Momo

Em 2005 eles fizeram um breve ensaio de caixas e bumbos. No ano passado, já mostraram força de bateria, mas ainda um pouco acanhados. Esvaziados, talvez, pela desconfiança escaldada do carioca. Este ano, porém, mostraram que o projeto de retomada do carnaval do Rio como festa popular veio para ficar. Mais de 40 desfilaram nos quatro dias de carnaval, sem contar os que saíram antes do início oficial da festa. 2007 foi o ano dos blocos de rua.
O fenômeno é antigo, mas caiu em desuso com a escalada da violência nas décadas de 80 e 90. Nos anos tristes, apenas os tradicionais saíam, mas poucos foliões venciam o medo de se expor numa festa gratuita, aberta a qualquer um. O resto dos cariocas, sem ter como pagar algumas centenas de reais pelos ingressos do Sambódromo, assistia ao carnaval luxuoso dos bicheiros pela televisão.
Os blocos representam a antítese da Sapucaí, onde só se divertem os turistas que podem pagar caro por fantasias exorbitantes; nos blocos, qualquer um participa. Basta ter animação. Nem fantasias, nem samba no pé são exigidos. Tampouco é preciso muito dinheiro ou talento para organizar um bloco. O princípio é simples: um grupo de amigos com alguns instrumentos de percussão se apropria de um pedaço do espaço público e toca velhas marchinhas de carnaval (daquelas que, por alguma decadência criativa, não são mais compostas no Brasil); ninguém paga nada pra ouvir velhas músicas e logo surge um grupo de foliões despreocupados sambando na frente dos músicos. Alguém inventa um nome engraçado e está formado o bloco.
Os nomes dão o toque de irreverência da festa. Alguns tradicionais são o Imprensa que Eu Gamo, o Cordão do Boitatá (que reuniu 6 mil pessoas este ano na Praça XV), o Bola Preta (puxou 200 mil pessoas pela Avenida Rio Branco, da Cinelândia à Presidente Vargas) e a Banda de Ipanema; outros são conhecidos mais pelos cariocas como o Simpatia É Quase Amor, o Que Merda é Essa?, o Bangalafumenga, o Carmelitas e o Céu na Terra.
Com tanta variedade, vários desfilaram de manhã para impedir superlotação. Mas se enganaram. Mesmo os que desafiaram o sol no carnaval mais quente dos últimos anos ficaram lotados. (Mereceram até atenção da querida M., do Le Bal Masqué, que honrou a Casa da Lagoa com sua visita).
Um belo sucesso para um movimento que renasceu tímido no início desta década e, carnaval após carnaval, ganha espaço. As pessoas foram percebendo, nos últimos anos, que não aconteciam arrastões, confusões, brigas ou mortes. Impera uma espécie de armistício informal na guerra urbana: onde soam os tambores, ninguém faz ataques organizados. No máximo um punguista ou um ladrãozinho barato, nada que nunca tenha existido em qualquer aglomeração de gente.
No mais, a divisão social na Corte de Momo segue à risca a regra das praias: pretos e pobres, em geral, garantem a sua fatia raquítica do PIB nacional debruçados sobre geladeiras de isopor repletas até a boca com o gelo e a cerveja que rega festa dos brancos fantasiados. Quem pode gastar algum se diverte; quem não pode fatura.