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terça-feira, março 27, 2007

Passeio sonoro

Se vivo fosse e resolvesse passear por algumas quadras da rua nomeada para homenageá-lo, o que ouviria o Ouvidor?

Na quadra entre a 1º de Março e a Rua do Carmo:
- Misto mais um copo de refrigerante, só R$ 1,50...
(No carrinho da 'Rainha do Misto Quente', onde além de comer queijo com banana é possível converter VHS para DVD e fita k7 e lp para CD. Um adesivo ameaça os invejosos: "Sapo tem olho grande, mas vive na lama".)
- Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta...
(Dos pregadores evangélicos, engravatados sob o sol da Guanabara, lendo o capítulo 1, versículo 10 do... Apocalipse, claro. Sempre o Apocalipse.)

Na quadra entre as ruas do Carmo e da Quitanda:
- Vale refeição, ticket restaurante, pago 86%...
(Na camiseta do homem gordo distribuindo panfletos.)
- Você que está precisando de dinheiro, não perca tempo. Na Mesquita o seu crédito já está aprovado, apenas à sua espera...
(Gritado no megafone por um homem vestido numa roupa de pierrô azul acetinada, com sapatilhas de Aladim brancas e turbante amarelo na cabeça.)

Na quadra seguinte, onde ele descobriria, depois de percorrê-la, que além de rua tem também a Travessa do Ouvidor a homenageá-lo:
- Dez é um real, um real. Você leva dez e só paga um real...
(Do vendedor de guloseimas, anunciando o pingo de leite, num carrinho onde também é possível comprar 40 balas por um real.)
- Carregador, baterias, chip e carcaça...
(Do vendedor de bugigangas para celular que negocia também aparelhos de origem suspeita.)
Finalmente, na esquina com Avenida Rio Branco, ele ouviria:
- Cinqüenta por um real...
(De um vendedor de biscoitos de sequilho, antes do sinal abrir e sua voz ser sufocada pelo ruído de centenas de carros e ônibus arrancando pela Rio Branco.)

Depois do passeio, o Ouvidor sairia com uma certeza. Sorte mesmo tiveram o Desvio do Mar (1568), Aleixo Manoel (1590) e Padre Homem da Costa (1659), cujos nomes um dia já batizaram a estreita rua de paralelepípedos, definitivamente batizada como do Ouvidor em 1780.

segunda-feira, março 12, 2007

Lições da Floresta da Tijuca

A descrição choca logo na quinta palavra: "É a maior floresta artificial do mundo", diz o texto num site turístico. Artificial? Como assim? Estamos falando da Floresta da Tijuca, com seus 39 km² de extensão sobre a Serra da Carioca. Em outras palavras: todo aquele verde ancorado na paisagem da Zona Sul do Rio, sob os pés do Cristo Redentor, cobrindo o Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, a Pedra Bonita, o Pico da Tijuca...
O termo 'artificial' talvez não seja o mais correto, já que as espécimes de Mata Atlântica são verdadeiras. Mas o fato é que nem sempre a floresta foi assim. Descobri isso ontem, numa longa caminhada de 15 km pelo Parque Nacional e pelo caminho das Paineiras.
Para explicar a história, é preciso voltar ao Brasil colonial. A chegada da família Real Portuguessa ao Rio (199 anos completados no dia 8 de março) impulsionou o crescimento da cidade e os morros da Serra da Carioca começaram a ser desmatados. A madeira era usada como lenha e, em seu lugar, surgiram lavouras de café.
Todos os rios que abasteciam a cidade nasciam naquelas montanhas e o desmatamento indiscriminado reduziu drasticamente o fluxo de água. Como conseqüência, já no Império, a capital começou a sofrer estiagens. D. Pedro II ordenou, então, o reflorestamento do local, numa atitude pioneira no mundo.
As desapropriações das terras começaram em 1854 e o reflorestamento em 1861, sob o comando do Major Gomes Archer, primeiro administrador da Floresta, que trabalhava com seis escravos. O replantio era feito com espécimes nativas da Mata Atlântica. Em 13 anos, Archer e seus escravos (mais tarde a equipe incorporou 22 trabalhadores assalariados) plantaram 100 mil mudas. De 1874 a 1888, o Barão Gastão d'Escragnolle, segundo administrador da Floresta, introduziu mais 30 mil mudas e começou a transformar o local numa área de lazer. Quem caminha hoje pelas montanhas da Serra da Carioca não é capaz de encontrar diferenças para uma reserva original de Mata Atlântica. A paisagem tem cachoeiras, micos, tudo o que se espera encontrar numa floresta original.
Se você já chegou até aqui, deve estar se perguntando por que é que não coloquei uma foto sequer de toda esta exuberância. É simples. Fui impedido de fazer fotos. Pela violência. No dia anterior à minha visita, 40 pessoas foram assaltadas numa das trilhas do parque. E não foi a primeira vez este ano. Amedrontado, deixei a câmera em casa.
A Floresta da Tijuca é uma prova de que, com vontade política, é possível transformar uma realidade desfavorável e de que negligenciar os problemas não ajuda a resolvê-los. Se nossos governantes se inspirassem no estilo do velho imperador das barbas brancas, talvez vocês pudessem ver as fotos da floresta plantada por ele, em lugar de ler tantos posts sobre mortes e barbaridades, que surgem neste blog com mais freqüência do que eu gostaria.

quinta-feira, março 01, 2007

Alguma coisa em comum

Tudo começou na Ilha de Serigipe, na Baía de Guanabara. Foi ali que corsários franceses fundaram a França Antártica, em 1555, de olho no lucrativo comércio de pau-brasil. Aliados aos índios tupinambá, guerreavam contra os portugueses que, a bem da verdade, só passavam de vez em quando por aqui.
Em 1560, o governador geral Mem de Sá resolveu tomar providências e enviou soldados sob o comando de seu sobrinho, Estácio de Sá, para expulsar os franceses. Começou a guerra que duraria sete anos. Em 1565, Estácio de Sá já havia recuperado parte das terras e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, no dia 1º de março. No local onde hoje fica a Urca, Estácio ergueu um fortim.
A guerra, porém, não estava terminada. Só acabaria quase dois anos depois, com a batalha final vencida pelos portugueses, no outeiro (que passou a se chamar da Glória). Era o dia 20 de janeiro de 1567, Dia de São Sebastião, que até hoje é o feriado da cidade (e não o dia 1º de março). Na batalha da Glória, Estácio de Sá foi ferido no rosto por uma flecha envenenada. Morreu um mês depois, em decorrência de infecção causada pelo veneno.
Essa história toda sobre a fundação da cidade talvez ajude a explicar por que me adaptei tão bem ao Rio de Janeiro, a ponto de todos os meus amigos dizerem que sou o paulista mais carioca que conhecem. Deve ser empatia de piscianos. Eu e o Rio comemoramos aniversário no mesmo dia. Ele é bem mais velho (406 anos a mais), mas o azar é só dele.