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terça-feira, julho 31, 2007

Monalisa sem sorriso

Ela está longe do ideal de beleza que eternizou a musa do gênio renascentista. Usa camiseta preta, cabelo sarará espichado para trás; não olha para o retratista, mas para o filho que carrega no colo. No fundo da foto colorida publicada pelo "O Globo", uma parede descascada ocupa o lugar da paisagem imaginária de Da Vinci. Monalisa Soares Nogueira tem 19 anos e nenhum motivo para sorrir. Moradora da Cidade de Deus, ela já teve de internar cinco vezes o filho.
Jonathan, de 1 ano e dois meses, é a personificação de uma estatística aterradora: 10,1% das crianças de Cidade de Deus estão desnutridas. Isso em plena Zona Oeste do Rio. É um número percentualmente maior do que o da desnutrição no Polígono da Seca, onde a Unicef encontrou, em 2005, 6,6% de desnutridos.
Enquanto os governos federal, estadual e municipal corriam para gastar 4 bilhões de reais nas obras do Pan-Maravilha, o filho de Monalisa corria risco de vida por falta de comida. Ainda corre, na verdade. Ele não está totalmente recuperado.
O levantamento da fome na Cidade de Deus foi feito pelo Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania, uma ONG da própria comunidade, e pela ONG internacional ActionAid. Eles passaram seis meses entrevistando 2.420 crianças da comunidade. Usaram os parâmetros da Organização Mundial da Saúde para concluir que 31,6% das crianças daquela favela têm algum tipo de comprometimento alimentar.
Tudo isso a apenas dois quilômetros da Vila Pan-Americana.

segunda-feira, maio 21, 2007

A orquestra do 17º

As flautas soavam doce, os violões e cavaquinhos solavam em conjunto macio e os tambores e bumbos marcavam presença suave ao fundo, como alguém que anda pisando nas pontas dos pés. Sentado atrás de uma mesinha acanhada, o professor regia a pequena orquestra na sala de janelas grandes do 17º andar, por onde entrava um sol tímido de inverno. Entre as estantes com as partituras da música, chinelos de dedo marcavam o ritmo do andamento. Em todos os rostos, alguns mais adolescentes, outros já mais adultos, uma luz especial denunciava a satisfação por estar ali, vivendo aquele momento, criando aqueles sons. Construindo presentes e futuros com instrumentos de sopro, corda e percussão.
Do lado de fora das grandes janelas, a realidade daqueles músicos estava bem concretizada em milhares de casinhas, casões e até prédios feitos de tijolos aparentes. Construções precárias que trepam morro acima de forma desordenada formando aquele gigante que nos acostumamos a ver pela tevê como um câncer crônico enraizado na beira da estrada Lagoa-Barra. Um problema sem dono e sem rosto, mas com nome famoso: Rocinha.
Eu nunca tinha chegado tão perto de uma favela. E embora tenha passado ao largo (eu não entrei lá, só fui do outro lado da rua, no prédio da Prefeitura, onde funciona a Escola de Música da Rocinha), senti pela primeira vez que ela tem vida, tem alma. Porque conheci naquela sala, os verdadeiros guerreiros da Rocinha, gente que luta batalhas diárias para viver com dignidade, sem fazer mal a ninguém. Guerreiros que usam seus intrumentos para dispara acordes de harmonias que alimentam a vida.

quinta-feira, julho 27, 2006

A casa da Lagoa vai à casa do Chapéu

Essa semana tive a oportunidade de conhecer o novo endereço dos amigos da baronesa (apresentados no post anterior). Foi uma verdadeira procissão da casa da Lagoa à casa do Chapéu. Na trupe estavam técnicos da ONU, da Caixa, do Sesc e de uma construtora, que vieram da Ilha da Fantasia conhecer outra ilha separada da nossa por uns quatro túneis e vários viadutos: Rocinha II, uma favela no subúrbio de Cidade de Deus que sonha em ser Rocinha (dá pra imaginar?). O motivo da visita era um projeto habitacional que deve ser implantado ali até o início dos jogos Panamericanos, que vão acontecer ali do lado, a menos de 1km.

E então chega na casa do Chapéu a procissão da casa da Lagoa. Vai passando pelos becos, desviando dos porcos e dos filetes de esgoto. “Pisa na 'táuba', dona!”, ensina um dos anfitriões, apontando para um caminho feito de pedaços de madeira e papelão. Perfeito para proteger os tênis da lagoa da sujeira do brejo.

Passamos por uma adolescente de pés descalços e unhas (do pé) pintadas de roxo. Ela explica: “Pintei agora, não quero botar o chinelo para não estragar”. Mais adiante, uma menina de uns cinco anos aparece na porta do barraco falando no celular. Por um momento eu penso que o aparelho deve ser de brinquedo e que ela finge falar para se exibir para a procissão. Pensando bem, não sei qual dos casos é pior.

A procissão segue, embalada pelo som alto de música pop americana que vem das casas. Olho para trás e vejo que a procissão está agora bem grande, com as gentes da casa do Chapéu seguindo as gentes das casas da Lagoa, como que esperando para ver o milagre que elas vieram trazer dessa vez. Ou simplesmente para ver as garotas de Ipanema (éramos 4) passando cheias de graça, como no comentário malicioso de um garoto: “Nossa, quanta gatinha... Essa parada de eleição é uma beleza mesmo...”, disse ele, mostrando que visita da zona Sul, só em época de campanha.

A procissão se vai, deixando um gostinho de quero-mais na boca das gentes das casas do Chapéu. Será que dessa vez o milagre vem?

terça-feira, julho 18, 2006

A árvore de Natal da Lagoa

Do outro lado da lagoa fica a Rocinha. A favela veio subindo lá do lado de São Conrado e acabou descendo pelo lado de cá do morro, invadindo a ilha da fantasia. Ninguém ousou segurar... Virou parte da paisagem. Mas sabe que tem gente que até gosta? Ouvi outro dia uma senhora poodle de sensibilidade aguçadíssima (típica da vizinhança) dizer que achava bonito ver aquelas luzinhas todas penduradas no morro quando a noite cai. “Parece árvore de Natal”. Que impressionante capacidade cognitiva, não?

Imagino sua casa. O jogo de luzes bem posicionadas no interior do salão envidraçado exibe para quem anda pela lagoa o bom-gosto na decoração e a intimidade da família, desfrutando a dolce vita da ilha da Fantasia. Da janela, a senhora poodle deve ter o privilégio de enxergar, a cada noite, a enorme árvore de Natal do lado. Crescendo a cada dia (que beleza, não?)...

A noite e a distância escondem os barracos, os esgotos, o emaranhado dos gatos (ligações irregulares de fios elétricos). Escondem também os meninos armados, as mulheres abandonadas, os negros de todas as cores e os paraíbas de todos os nordestes. Essas coisas desagradáveis de se ver... Ah, e daqui também não se ouvem os tiros nem as sirenes de polícia. Ficam só mesmo os pontinhos iluminados, ornando a lagoa como penduricalhos natalinos.