Para fechar o blog, uma reflexão para inspirar a todos em novas jornadas:
"Uma mente que se abre a uma nova idéia jamais retornará ao tamanho original"
(Albert Einstein)
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
sábado, fevereiro 02, 2008
Despedida
Nunca ouvi ninguém falando em encerrar um blog. Normalmente, as pessoas simplesmente deixam de escrever novas postagens e aí o sítio morre, ao abandono. Por isso, não sabia muito bem como anunciar o fim da Casa da Lagoa. Sim, amigos, ela termina aqui. Para alegria de muitos, este é seu último post neste blog. Já era tempo. A casa física, afinal, já não existe há 20 dias. Aos poucos que gostavam de ler as bobagens que eu escrevia aqui, segue o novo endereço: casadeluanda.blogspot.com. É lá que continuaremos, eu e Pri, com nossas crônicas da vida cotidiana, só que agora de Angola, nossa nova casa.
Como presente de despedida, fiz este filminho de 1m10s. Para matar a saudades dos que conheceram a Casa da Lagoa de verdade, e mostrar um pouquinho de como ela para quem só conhecia o blog. Obrigado a todos pela paciência, pelos comentários, pela leitura... E não deixem de nos visitar no novo endereço.
Como presente de despedida, fiz este filminho de 1m10s. Para matar a saudades dos que conheceram a Casa da Lagoa de verdade, e mostrar um pouquinho de como ela para quem só conhecia o blog. Obrigado a todos pela paciência, pelos comentários, pela leitura... E não deixem de nos visitar no novo endereço.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
Língua madrasta
Frase no aviso de um microônibus que faz a Ponte Orca, entre as estações Vila Madalena (metrô) e Pinheiros (trem), em São Paulo:
"Proibido comer neste veículo adulto e crianças"
Se Cristo lesse português, poderia exclamar para o Aurélio: "Perdoai-os, pai, pois eles não sabem o que escrevem"
"Proibido comer neste veículo adulto e crianças"
Se Cristo lesse português, poderia exclamar para o Aurélio: "Perdoai-os, pai, pois eles não sabem o que escrevem"
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Pensamentos compensatórios
Sempre que passo por uma grande mudança, deixo para trás muitas coisas de que gosto. O contra-ataque a essas querências é a inevitável lista de alívios, do tipo "pelo menos não terei mais de suportar o trânsito..." ou outras coisas que me irritavam no dia-a-dia.
Justamente por isso, a "separação" do Rio tem sido tão mais dolorosa. A lista de saudades é enorme (nem preciso enumerá-las de novo, basta ler este blog). Mas, acreditem, não consigo colocar um ítem sequer na lista de alívios.
O trânsito não existia para mim, um sem-carro convicto na capital fluminense; poluição, muito menos, com aquela brisa marítima constante e o verde na paisagem. Os transportes públicos eram ótimos (onde eu vivia, na Zona Sul); os cinemas passavam todos os filmes que eu queria ver e eu ainda podia chegar faltando cinco minutos para a sessão que sempre tinha ingresso.
A violência? Para horror de muitos amigos paulistanos, sempre disse que me sentia mais seguro no Rio do que em São Paulo. Na minha cidade de natal, eu andava de carro sempre com medo de sofrer um seqüestro-relâmpago a qualquer momento.
Tudo bem, o serviço nos bares e restaurantes não era tão ágil e eficiente. Mas, pensando bem, para que tanta pressa se vamos passar a noite bebendo vários chopes e jogando conversa fora?
Claro que a cidade tem problemas, como qualquer cidade grande tem. Mas tem muitas qualidades que, definitivamente, não se encontra facilmente por aí.
O que me consola é que essas coisas boas continuarão lá, no Rio, quando eu voltar de Luanda.
Justamente por isso, a "separação" do Rio tem sido tão mais dolorosa. A lista de saudades é enorme (nem preciso enumerá-las de novo, basta ler este blog). Mas, acreditem, não consigo colocar um ítem sequer na lista de alívios.
O trânsito não existia para mim, um sem-carro convicto na capital fluminense; poluição, muito menos, com aquela brisa marítima constante e o verde na paisagem. Os transportes públicos eram ótimos (onde eu vivia, na Zona Sul); os cinemas passavam todos os filmes que eu queria ver e eu ainda podia chegar faltando cinco minutos para a sessão que sempre tinha ingresso.
A violência? Para horror de muitos amigos paulistanos, sempre disse que me sentia mais seguro no Rio do que em São Paulo. Na minha cidade de natal, eu andava de carro sempre com medo de sofrer um seqüestro-relâmpago a qualquer momento.
Tudo bem, o serviço nos bares e restaurantes não era tão ágil e eficiente. Mas, pensando bem, para que tanta pressa se vamos passar a noite bebendo vários chopes e jogando conversa fora?
Claro que a cidade tem problemas, como qualquer cidade grande tem. Mas tem muitas qualidades que, definitivamente, não se encontra facilmente por aí.
O que me consola é que essas coisas boas continuarão lá, no Rio, quando eu voltar de Luanda.
domingo, janeiro 20, 2008
Mudança
Se você estranhou a longa ausência, precisa saber: a Casa da Lagoa não existe mais.
Fisicamente, ela continua no mesmo endereço, nós é que não estamos mais lá. As duas primeiras semanas de janeiro marcaram o fechamento do melhor endereço em que já vivi até hoje.
Para os que estão surpresos, aviso que a notícia é boa. A Casa da Lagoa está de mudança para Angola. Mais precisamente do Rio para Luanda, onde os dois signatários deste espaço decidiram investir energia por um mundo melhor durante o próximo ano.
E este blog, claro, não vai acabar. Só mudará de endereço. Em breve comunicaremos a todos a nova direção.
Nas próximas semanas, a Casa da Lagoa virtual será oficialmente encerrada, não sem antes passar por um ataque de nostalgia das delícias cariocas. Clássico comportamento de quem parte com saudades do que fica. Mesmo quando o faz espontâneamente.
Fisicamente, ela continua no mesmo endereço, nós é que não estamos mais lá. As duas primeiras semanas de janeiro marcaram o fechamento do melhor endereço em que já vivi até hoje.
Para os que estão surpresos, aviso que a notícia é boa. A Casa da Lagoa está de mudança para Angola. Mais precisamente do Rio para Luanda, onde os dois signatários deste espaço decidiram investir energia por um mundo melhor durante o próximo ano.
E este blog, claro, não vai acabar. Só mudará de endereço. Em breve comunicaremos a todos a nova direção.
Nas próximas semanas, a Casa da Lagoa virtual será oficialmente encerrada, não sem antes passar por um ataque de nostalgia das delícias cariocas. Clássico comportamento de quem parte com saudades do que fica. Mesmo quando o faz espontâneamente.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Respostas que podem mudar o mundo
A Árvore de Natal da Lagoa, sobre a qual escrevi no ano passado, está de volta, atraindo milhares de pessoas e tumultuando o trânsito do bairro. Este ano ela vem com 85 metros de altura, três a mais do que no passado. Com isso, pretende entrar para o Guinness, o famigerado livro dos recordes.
A resposta que poderia mudar o mundo é: por que os brasileiros têm tanta fixação por entrar para esse livro chulé que não serve para nada? Se tivéssemos a mesma disposição para produzir vencedores de prêmios Nobel, nossa educação estaria muito melhor, nossa pesquisa científica idem e, conseqüentemente o país teria um futuro mais promissor.
É, mas aí daria muito mais trabalho...
A resposta que poderia mudar o mundo é: por que os brasileiros têm tanta fixação por entrar para esse livro chulé que não serve para nada? Se tivéssemos a mesma disposição para produzir vencedores de prêmios Nobel, nossa educação estaria muito melhor, nossa pesquisa científica idem e, conseqüentemente o país teria um futuro mais promissor.
É, mas aí daria muito mais trabalho...
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Diálogos roubados VI - Você decide o final
Porta da padaria do bairro onde eu moro, de manhã. Um PM, de pé na calçada, com um pente de balas da pistola automática na mão, conversa baixinho com a apontadora do jogo do bicho que costuma fazer ponto ali, ao lado da banca:
ELA - Não tem como escapar?
ELE - Não tem jeito...
Foi só o que eu consegui ouvir, porque os dois falavam em voz baixa, como se estivessem negociando algo que outros não deveriam saber. Sabendo que a bicheira está todos os dias ali e que eu já vi esse mesmo PM outras vezes na área, sem incomodá-la, alguém se arrisca a imaginar como termina essa história?
ELA - Não tem como escapar?
ELE - Não tem jeito...
Foi só o que eu consegui ouvir, porque os dois falavam em voz baixa, como se estivessem negociando algo que outros não deveriam saber. Sabendo que a bicheira está todos os dias ali e que eu já vi esse mesmo PM outras vezes na área, sem incomodá-la, alguém se arrisca a imaginar como termina essa história?
Não jogue lixo na rua
Quando meus pais me ensinaram, ainda na infância, que eu não deveria jogar lixo na rua, eles se referiam a papéis de bala, pirulitos, chicletes e outras miudezas do gênero. Pois aqui no Rio de Janeiro, jogar lixo na rua significa um problema bem mais sério.
Lá no bairro onde eu trabalho, algumas esquinas se transformam em mini-lixões, onde se acumulam detritos durante dias até que passe um caminhão da Comlurb, ou que alguém coloque fogo na montanha fedida.
Hoje, quando chegava ao trabalho e passava por uma dessas esquinas, sofri um ataque aéreo de um saco de lixo. Ele caiu bem minha frente. Um passo a mais, e eu teria sido atingido em cheio. Atônitos, alguns dos 17 Ferdizinhos que costumam debater entre si dentro da minha cabeça diziam que era melhor seguir em frente; outros sugeriram que eu batesse na casa, calmamente, para explicar que não deveriam fazer aquilo, que poderia machucar alguém... Tudo isso em meio segundo, que foi o tempo que o Ferdizinho estourado levou para comandar o cérebro a jogar o saco de lixo de volta por cima do muro. Ataque revidado, o Ferdizinho furioso deu-se por contente e eu segui o meu caminho calmamente.
Lá no bairro onde eu trabalho, algumas esquinas se transformam em mini-lixões, onde se acumulam detritos durante dias até que passe um caminhão da Comlurb, ou que alguém coloque fogo na montanha fedida.
Hoje, quando chegava ao trabalho e passava por uma dessas esquinas, sofri um ataque aéreo de um saco de lixo. Ele caiu bem minha frente. Um passo a mais, e eu teria sido atingido em cheio. Atônitos, alguns dos 17 Ferdizinhos que costumam debater entre si dentro da minha cabeça diziam que era melhor seguir em frente; outros sugeriram que eu batesse na casa, calmamente, para explicar que não deveriam fazer aquilo, que poderia machucar alguém... Tudo isso em meio segundo, que foi o tempo que o Ferdizinho estourado levou para comandar o cérebro a jogar o saco de lixo de volta por cima do muro. Ataque revidado, o Ferdizinho furioso deu-se por contente e eu segui o meu caminho calmamente.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Os feriadões da Justiça
O caso aconteceu no último feriado de novembro, mas só chegou ao conhecimento da Casa da Lagoa esta semana, numa conversa de borda de piscina com a mesma juíza que é coleguinha de natação do diálogos roubados IV. Ela contou que, durante o longo feriadão, a polícia do Rio interceptou um grande carregamento de armas que saía do Morro do Alemão com destino a Niterói.
O flagrante foi enviado ao plantão criminal do TJ, mas o plantonista, desacostumado com assuntos dessa natureza, leu o ofício e achou de encaminhá-lo à uma vara de Niterói. O certo teria sido enviá-la para a vara que abrange a área de Ramos, na qual atua a coleguinha. Resultado: o juiz de Niterói devolveu o processo, mas nesse caminho todo de idas e vindas, passaram três dias.
Como a lei diz que a polícia deve informar ao juiz sobre o flagrante em até 24 horas para manter o criminoso preso, o bandidão que transportava fuzis, pistolas e munição para Niterói durante o feriado foi solto.
A coleguinha jura que, embora lamentável, foi um engano do funcionário. Afinal, ele não era da área, porque os da área estavam no feriadão.
Coincidentemente, um engano providencial para uma das partes.
O flagrante foi enviado ao plantão criminal do TJ, mas o plantonista, desacostumado com assuntos dessa natureza, leu o ofício e achou de encaminhá-lo à uma vara de Niterói. O certo teria sido enviá-la para a vara que abrange a área de Ramos, na qual atua a coleguinha. Resultado: o juiz de Niterói devolveu o processo, mas nesse caminho todo de idas e vindas, passaram três dias.
Como a lei diz que a polícia deve informar ao juiz sobre o flagrante em até 24 horas para manter o criminoso preso, o bandidão que transportava fuzis, pistolas e munição para Niterói durante o feriado foi solto.
A coleguinha jura que, embora lamentável, foi um engano do funcionário. Afinal, ele não era da área, porque os da área estavam no feriadão.
Coincidentemente, um engano providencial para uma das partes.
sábado, novembro 24, 2007
Diálogos roubados V - Valores da Cidade
O ônibus 110 Rodoviária-Leblon, sempre ele, pára num ponto na Lagoa Rodrigo de Freitas, em frente a um prédio de fachada de granito caramelo e vidros verdes. Na última varanda, com vista para o espelho d'água, uma faixa anuncia: "Vendo cobertura duplex - 4 suítes - 4 garagens - piscina - primeiro dono". E informava um número de celular. No banco atrás do meu, o casal conversa:
ELE: Olha aí, anota aí o número.
ELA: Tá fácil, hein? Isso aí deve ser muito caro.
ELE: Com certeza, nesse lugar...
ELA: Quatro suítes, quatro garagens, piscina...
ELE: Deve custar uns R$ 500 mil.
ELA: O preço de uma casa boa.
Para informação dos pombinhos (que desceram num ponto da Estácio), nas áreas mais baratas do bairro, o metro quadrado não sai por menos de R$ 7 mil. Naquele ponto deve estar em torno de R$ 9 mil. Se o imóvel em questão tiver, por exemplo, 400 metros quadrados, já sai de R$ 3,6 milhões. Mas, com aquela vista, deve valer mais.
ELE: Olha aí, anota aí o número.
ELA: Tá fácil, hein? Isso aí deve ser muito caro.
ELE: Com certeza, nesse lugar...
ELA: Quatro suítes, quatro garagens, piscina...
ELE: Deve custar uns R$ 500 mil.
ELA: O preço de uma casa boa.
Para informação dos pombinhos (que desceram num ponto da Estácio), nas áreas mais baratas do bairro, o metro quadrado não sai por menos de R$ 7 mil. Naquele ponto deve estar em torno de R$ 9 mil. Se o imóvel em questão tiver, por exemplo, 400 metros quadrados, já sai de R$ 3,6 milhões. Mas, com aquela vista, deve valer mais.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Confissão
Eu já fiz essa piada aqui neste blog, de que a primeira violência que sofri no Rio foi jantar num rodízio de pizza... Mas, meus amigos paulistas que me perdoem, vou ser obrigado a confesssar: no feriado, pela primeira vez desde que moro aqui, coloquei ketchup na pizza.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Feriado na Serra
A pracinha é pequena. Tem um coreto no meio e está cercada por casas antigas, algumas no estilo alemão que marcou a colonização daquelas serras na região de Nova Friburgo. Lumiar, onde fica a praça, é um distrito dessa cidade marcada pela produção de calçados e de lingerie, no interior do Rio. Tem algumas ruas e uma infinidade de trilhas na mata e de cachoeiras. Os rios que a cortam, o Macaé e o Bonito, são caudalosos e barulhentos.
Tudo é muito diferente do Rio de Janeiro das praias ensolaradas. Os horizontes são estreitos, limitados por montanhas verdes, o ar é fresco, muitas ruas ainda são de terra. De todas as diferenças, porém, o que realmente me chamou a atenção foi a grande quantidade de crianças que brincam na praça, na noite de sábado. Nas grandes cidades nós perdemos essa espontaneidade. Criança na rua virou sinônimo de flagelo. Mas Lumiar ainda vive a inocência dos tempos em que a molecada se reunia para brincar. Eu mesmo passei bons anos nas ruas em São Paulo, sem prejuízo dos estudos ou da boa conduta. Não existia play, não existiam videogames e a gente era feliz assim mesmo.
Hoje, nas grandes cidades, criança de família está devidamente trancada em casa, na frente de uma televisão.
Ainda bem que ainda existe Lumiar.
Tudo é muito diferente do Rio de Janeiro das praias ensolaradas. Os horizontes são estreitos, limitados por montanhas verdes, o ar é fresco, muitas ruas ainda são de terra. De todas as diferenças, porém, o que realmente me chamou a atenção foi a grande quantidade de crianças que brincam na praça, na noite de sábado. Nas grandes cidades nós perdemos essa espontaneidade. Criança na rua virou sinônimo de flagelo. Mas Lumiar ainda vive a inocência dos tempos em que a molecada se reunia para brincar. Eu mesmo passei bons anos nas ruas em São Paulo, sem prejuízo dos estudos ou da boa conduta. Não existia play, não existiam videogames e a gente era feliz assim mesmo.
Hoje, nas grandes cidades, criança de família está devidamente trancada em casa, na frente de uma televisão.
Ainda bem que ainda existe Lumiar.
terça-feira, novembro 13, 2007
Ah se o Aspira visse essa cena
Praça Onze, Cidade Nova, ao lado do internacionalmente famoso Sambódromo do Rio de Janeiro. Saio da estação do metrô ao som insistente de marteladas furiosas. Não chegaria a ser novidade. A viela cheia de cortiços e biroscas é conhecida como rua das oficinas, tamanho é o número de lanternagens e mecânicas ali instaladas. Há quem diga que são fachadas para bocas de fumo, mas o fato é que todas são muito freqüentadas por taxistas. Os mecânicos, em sua maioria negros de bermudas baixas e sandálias havainas, desfilam suas costelas pela via. Camisa é artigo desconhecido para essa turma.
Quando chove muito, transborda ali uma água cinza, leitosa, que dizem ser o esgoto do bairro. Tudo fede, mas as crianças brincam em volta mesmo assim.
Pois nesse cenário que nem Dante seria capaz de imaginar, as marteladas me chamam a atenção. São muitas, devem ser muitos braços a marretar algum carro. Dobro a esquina e lá está a cena: uns oito mecânicos, mais ou menos, desmontando a marretadas uma viatura de polícia. Isso mesmo. Um carro da gloriosa corporação sendo desmanchado, em plena luz do dia.
Prova de que as mazelas da oficina do Aspira, em "Tropa de Elite", não são mero produto da imaginação do roteirista.
Quando chove muito, transborda ali uma água cinza, leitosa, que dizem ser o esgoto do bairro. Tudo fede, mas as crianças brincam em volta mesmo assim.
Pois nesse cenário que nem Dante seria capaz de imaginar, as marteladas me chamam a atenção. São muitas, devem ser muitos braços a marretar algum carro. Dobro a esquina e lá está a cena: uns oito mecânicos, mais ou menos, desmontando a marretadas uma viatura de polícia. Isso mesmo. Um carro da gloriosa corporação sendo desmanchado, em plena luz do dia.
Prova de que as mazelas da oficina do Aspira, em "Tropa de Elite", não são mero produto da imaginação do roteirista.
quarta-feira, outubro 31, 2007
Diálogos Roubados IV
Academia, à beira da piscina, uma aluna conversa com a professora:
Aluna: - Vai ter o aulão de hidro no sábado?
Professora: - Não, foi remarcado porque o vestiário está em obras.
Aluna: - Que sacanagem! Eu estava contando com o aulão...
Professora: - Foi remaracado para o dia 10.
Aluna: - Ah, dia 10 eu não posso, vou viajar no feriado.
Professora: - Mas o feriado não é no dia 15?
Aluna: - É, mas nós vamos emendar desde o dia 10.
Aluna2: - Mas você não trabalha no Centro? Vai de metrô que não tem confusão.
Aluna: - Metrô que nada. Acho que vou aproveitar a desculpa pra não aparecer.
Alguém advinha o que ela faz? Não? Então eu conto: é juíza estadual.
Aluna: - Vai ter o aulão de hidro no sábado?
Professora: - Não, foi remarcado porque o vestiário está em obras.
Aluna: - Que sacanagem! Eu estava contando com o aulão...
Professora: - Foi remaracado para o dia 10.
Aluna: - Ah, dia 10 eu não posso, vou viajar no feriado.
Professora: - Mas o feriado não é no dia 15?
Aluna: - É, mas nós vamos emendar desde o dia 10.
*****
Final da aula, no mesmo dia, a mesma aluna comenta enquanto se alonga:
Aluna: - Será que eu vou trabalhar hoje, com essa confusão do Rebouças?Aluna2: - Mas você não trabalha no Centro? Vai de metrô que não tem confusão.
Aluna: - Metrô que nada. Acho que vou aproveitar a desculpa pra não aparecer.
Alguém advinha o que ela faz? Não? Então eu conto: é juíza estadual.
terça-feira, outubro 30, 2007
O desabamento do Rebouças
Ele estava na origem deste blog, citado no post de inauguração como caminho mágico que separa o Rio dos sonhos do Rio da miséria. Mas acho que quando o mencionei, eu não tinha me dado conta da importância real do túnel Rebouças para a ligação da cidade partida. Desde que um vazamento misterioso fechou com terra a boca das duas galerias entre o Cosme Velho e a Lagoa, o trânsito do Rio virou um caos só comparável à rotina do trânsito de São Paulo. (Os amigos paulistas me desculpem, mas como nativo da Terra da Garoa, dou-me o direito de criticá-la no que tem de pior.)
Os 190 mil veículos que diariamente cruzavam pelos 5.600 metros de galerias escavadas na rocha do Maciço da Carioca tentaram achar caminho pelas ruas estreitas e já afogadas de Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, etc. A cidade entupiu e até a aprazível Fonte da Saudade, que passa aqui na porta, enfrentou congestionamentos que duravam até 22h.
Felizmente, as autoridades prometem reabrir totalmente, amanhã, o velho túnel mandado construir por Carlos Lacerda, que este mês, curiosamente, completou 40 anos de existência.
Os 190 mil veículos que diariamente cruzavam pelos 5.600 metros de galerias escavadas na rocha do Maciço da Carioca tentaram achar caminho pelas ruas estreitas e já afogadas de Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, etc. A cidade entupiu e até a aprazível Fonte da Saudade, que passa aqui na porta, enfrentou congestionamentos que duravam até 22h.
Felizmente, as autoridades prometem reabrir totalmente, amanhã, o velho túnel mandado construir por Carlos Lacerda, que este mês, curiosamente, completou 40 anos de existência.
quarta-feira, outubro 10, 2007
Tropa de Elite

Assistir ao filme título deste post no Rio é diferente de assisti-lo em qualquer outro lugar da cidade. Aqui, a platéia se reconhece em cada esquina de Copacabana, em cada desleixo das personagens policiais, em cada viatura esculachada que aparece na oficina do Aspira. Tropa de Elite, antes de ser um filme brasileiro, é um filme carioca.
Aconteceram por aqui casos em que a platéia aplaudia cenas de tortura e de assassinato de bandidos. E aplaudia ferozmente a cena em que o estudante playboy, traficante da faculdade, apanha de um dos policiais. Na sala em que eu assisti, a platéia era silenciosa.
Já ouvi todo tipo de comentário e o mais comum é de que o filme é facista, defensor da violência policial. Acho que quem chegou a essa conclusão caiu na armadilha mais óbvia do filme: ele é narrado por um policial que, portanto, não tem uma visão tão crítica da instituição. O cara faz parte dela.
O que as pessoas não percebem é que, embora diga o tempo todo que o Bope é a melhor polícia do mundo, com critérios de seleção mais rigorosos que o do Exército de Israel, um batalhão onde não existe corrupção, o capitão Nascimento quer deixar a tropa. E o filme mostra, nas cenas cruas de assassinato e tortura de inocentes, porque ele quer sair da corporação. Nascimento vai ter um filho e quer voltar a ser humano.
A impressão que dá é que, embora adotem o discurso de que as atitudes do Bope são um absurdo, as pessoas não conseguem enxergar a crítica velada que o filme faz a elas porque, inconscientemente, concordam com esse modo de operação. São vítimas de uma herança do modelo punitivo de estado colonial, onde os ricos podiam tudo e aos pobres restavam os chicotes da senzala.
A mensagem principal que o filme deixou para mim foi de que nunca vamos resolver a questão da violência, no Rio ou no Brasil, se continuarmos apelando para mais violência. Esse caminho, adotado pelos homens de preto, expulsa da instituição todos que ainda têm algum sentimento humano dentro de si, mesmo que pequeno. Só restam os brutos e os selvagens dentro das fardas. E esses não servem para resolver nada.
Aconteceram por aqui casos em que a platéia aplaudia cenas de tortura e de assassinato de bandidos. E aplaudia ferozmente a cena em que o estudante playboy, traficante da faculdade, apanha de um dos policiais. Na sala em que eu assisti, a platéia era silenciosa.
Já ouvi todo tipo de comentário e o mais comum é de que o filme é facista, defensor da violência policial. Acho que quem chegou a essa conclusão caiu na armadilha mais óbvia do filme: ele é narrado por um policial que, portanto, não tem uma visão tão crítica da instituição. O cara faz parte dela.
O que as pessoas não percebem é que, embora diga o tempo todo que o Bope é a melhor polícia do mundo, com critérios de seleção mais rigorosos que o do Exército de Israel, um batalhão onde não existe corrupção, o capitão Nascimento quer deixar a tropa. E o filme mostra, nas cenas cruas de assassinato e tortura de inocentes, porque ele quer sair da corporação. Nascimento vai ter um filho e quer voltar a ser humano.
A impressão que dá é que, embora adotem o discurso de que as atitudes do Bope são um absurdo, as pessoas não conseguem enxergar a crítica velada que o filme faz a elas porque, inconscientemente, concordam com esse modo de operação. São vítimas de uma herança do modelo punitivo de estado colonial, onde os ricos podiam tudo e aos pobres restavam os chicotes da senzala.
A mensagem principal que o filme deixou para mim foi de que nunca vamos resolver a questão da violência, no Rio ou no Brasil, se continuarmos apelando para mais violência. Esse caminho, adotado pelos homens de preto, expulsa da instituição todos que ainda têm algum sentimento humano dentro de si, mesmo que pequeno. Só restam os brutos e os selvagens dentro das fardas. E esses não servem para resolver nada.
*****
O mais triste de tudo foi constatar que, nos Estados Unidos, os roteiristas quebram a cabeça inventando perseguições mirabolantes, terroristas caricatos e toda sorte de maluquices para criar cenas de ação. Aqui, a gente só usa a realidade.
sexta-feira, outubro 05, 2007
Sinuca na Lapa
A tevê a gritar geniais idéias das cabeças brilhantes do futebol; na mesa ao lado, o casal a namorar sem notá-la, sozinha, olho pregado no celular, observada de longe pelo garçom, sem graça com aquela solidão explícita, a aproximar-se de quando em quando para perguntar deseja algo? Não obrigado, espero uma pessoa. Que nunca chega para cessar esse constrangimento que observo do mezanino, pendurado no taco de sinuca, a desenvolver a seguinte filosofia de mesa de bilhar: Nunca estivemos tão sós no meio de tanta gente. Será que foi geração espontânea? Ou terei lido isso em algum lugar? Dou de ombros. Chegou minha vez de jogar e desvio minha atenção para as bolas coloridas da mesa.
quinta-feira, outubro 04, 2007
No caminho tinha uma praça
Saí de uma reunião de trabalho às 16:30 e tinha um compromisso às 18:00. Inevitavelmente comecei a calcular o que faria nesse intervalo. Lembrei dos emails que tinha que mandar, das coisas que precisava comprar, dos telefonemas que tinha que fazer, do relatório que estava atrasado... Ao final decidi ir a um cibercafe cuidar dos emails.
Mas no caminho tinha uma praça.
Um praça tijucana totalmente desconhecida para mim. Cheia de crianças brincando, árvores altas, velhinhos jogando dama e bancos, muitos bancos. Pára tudo, pensei. Ou, como disse uma vez meu poetinha, pára o mundo que eu quero descer. Deixei os emails pra depois e me sentei em frente ao balanço.
Meia hora no banco da praça foi o presente do meu eu zen pro meu eu sem-(tempo) (sempre sem-tempo!). Tirei os sapatos, deitei. Fiquei ouvindo o barulho esquisito das pombas, vendo as miúdas flores amarelas anunciarem a primavera, a vendedora de algodão doce, o sorveteiro curioso passando para ver o que eu rabiscava, as crianças de volta da escola, as meninas jogando vôlei numa roda sem jeito, as crianças no balanço... Ai, como eu gostava de um balanço... E que nostalgia me deu o grunhido da corrente enferrujada a cada balançar.
E se eu tivesse ido ao cibercafe? O tempo passaria voando e eu provavelmente sairia com a sensação de que não foi o suficiente para todos os meus emails. Lá se ia o dia sem ter sido vivido! Acho que os 30 minutos que passei na praça foram os mais bem aproveitados do meu dia. Deixei de ser refém do tempo para escolher o que fazer com ele. E me senti mais viva do que nunca!
Estou lançando a campanha: Dê 30 minutinhos de praça ao seu dia!
Mas no caminho tinha uma praça.
Um praça tijucana totalmente desconhecida para mim. Cheia de crianças brincando, árvores altas, velhinhos jogando dama e bancos, muitos bancos. Pára tudo, pensei. Ou, como disse uma vez meu poetinha, pára o mundo que eu quero descer. Deixei os emails pra depois e me sentei em frente ao balanço.
Meia hora no banco da praça foi o presente do meu eu zen pro meu eu sem-(tempo) (sempre sem-tempo!). Tirei os sapatos, deitei. Fiquei ouvindo o barulho esquisito das pombas, vendo as miúdas flores amarelas anunciarem a primavera, a vendedora de algodão doce, o sorveteiro curioso passando para ver o que eu rabiscava, as crianças de volta da escola, as meninas jogando vôlei numa roda sem jeito, as crianças no balanço... Ai, como eu gostava de um balanço... E que nostalgia me deu o grunhido da corrente enferrujada a cada balançar.
E se eu tivesse ido ao cibercafe? O tempo passaria voando e eu provavelmente sairia com a sensação de que não foi o suficiente para todos os meus emails. Lá se ia o dia sem ter sido vivido! Acho que os 30 minutos que passei na praça foram os mais bem aproveitados do meu dia. Deixei de ser refém do tempo para escolher o que fazer com ele. E me senti mais viva do que nunca!
Estou lançando a campanha: Dê 30 minutinhos de praça ao seu dia!
sábado, setembro 29, 2007
Segredos Cariocas - Praça São Salvador
A diva grega de cabeça laureada e formas roliças segura o jarro virado de onde não pinga uma gota. Mesmo assim, a diva olha para baixo, como se contasse as latinhas, copos plásticos, pratinhos de papelão jogados na fonte seca que adorna. Por sorte, seu olhar pende para a direita. Se olhasse para a esquerda, veria o menininho de seus três anos, gorro da Nike enterrado na cabeça, mini-calça de rapper pelo joelho, a aguar-lhe o cimento do pedestal enquanto alivia a bexiga. Azar danado o da diva. Tivesse antes sido imortalizada olhando para cima, estaria agora a contemplar a lua cheia em lugar dos restos da civilização fast-tudo na fonte seca.
Pelo menos de uma coisa não pode ela se queixar. A praça São Salvador, onde foi dignamente instalada, nas Laranjeiras, tem um charme especial. Todo último sábado do mês, um grupo de músicos se reúne sob a lua para tocar velhos sambas. É a turma do Bagunça Meu Coreto, um bloco que se apresenta de graça para os cerca de 100 (talvez 200 , mas não muito mais) cariocas que conhecem o segredo. E também para a diva grega de formas roliças...
Pelo menos de uma coisa não pode ela se queixar. A praça São Salvador, onde foi dignamente instalada, nas Laranjeiras, tem um charme especial. Todo último sábado do mês, um grupo de músicos se reúne sob a lua para tocar velhos sambas. É a turma do Bagunça Meu Coreto, um bloco que se apresenta de graça para os cerca de 100 (talvez 200 , mas não muito mais) cariocas que conhecem o segredo. E também para a diva grega de formas roliças...
sábado, setembro 22, 2007
Longe de você...
...são dois os caminhos do tempo. As horas ocupadas são imensas planícies, esteiras rolantes de aeroporto que me carregam em velocidade acelerada sem tempo para pensar sentir respirar... apenas o "mind the step" soando no oco do cérebro...
Entre cada esteira, porém...
...tropeço nos minutos espalhados pelo chão, que se aglomeram em montanhas de horas livres e me exigem esforço, subindo aos poucos, escorregando, suando para chegar até a próxima esteira rolante.
Entre cada esteira, porém...
...tropeço nos minutos espalhados pelo chão, que se aglomeram em montanhas de horas livres e me exigem esforço, subindo aos poucos, escorregando, suando para chegar até a próxima esteira rolante.
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